Alessandro Atanes

Jornalista e mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Servidor público de Cubatão, atua na assessoria de imprensa da prefeitura do município.

Logo no início de “Un paseo por la literatura”, prosa poética de 1994 em que o autor enumera sonhos, Bolaño descreve a condição “sudaca”. É também uma das primeiras aparições da figura do detetive em sua obra:

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Em um dos depoimentos da parte central de “Os detetives selvagens” (Roberto Bolaño, 1998), o leitor acompanha desde Port Vendres (costa mediterrânea da França, junto à fronteira com a Espanha) Alain Lebert contar como conheceu Arturo Belano e Ulisses Lima, os protagonistas do livro, dois latino-americanos na diáspora pela Europa, “sudacas”, como escreve o autor, ele mesmo um chileno nascido em 1953 que passou o final da adolescência no México e perto dos 30 anos parte para a Europa e acaba residindo na Catalunha, Espanha, onde morre aos 50 anos.

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Em Flávio Viegas Amoreira, esse aspecto se dá pela paisagem litorânea sendo afetada por uma infecção de linguagem literária que, apesar de manter aspectos de lirismo, nada lembra a nostalgia do século anterior. É um processo que ocorre em “Maralto” (2002) e “A Biblioteca submergida” (2003) e chega ao ápice, desde o título, em “Escorbuto – Cantos da Costa” (2005): “CHOVENOMAR desperdício estarmundo / CHOVENOMAR acontece / POEMASPONJA recolhos reunimentos / meus poros são olhos! Pontos focados / pés castos / costados dobradiços / jazz aqui poensia: ex-boçamento”.

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No último encontro da oficina “Conheça Santos por meio da Literatura”, no litoral paulista, conversamos sobre a diferença de sensibilidades entre poetas do século passado e da primeira década deste século XXI ao retratarem o Porto de Santos. A coisa toda é mais uma pista, a ponta do fio que começamos a puxar. Do século passado, tratamos de poemas de Rui Ribeiro Couto (“Santos”, 1939), Roldão Mendes Rosa (“Porto”, da década de 50 ou 60, publicado postumamente em 1991) e Narciso de Andrade (“Cais”, década de 50 ou 60, publicado em 2006). Os dois primeiros são marcados por um profundo sentimento de nostalgia (“Nasci junto do porto / ouvindo o barulho dos embarques”, Couto; “Por que / este amor ao cais / se o que espero / não viaja?”, Roldão). Por trás da escrita dos poetas, neles se percebe uma criança que nasceu em torno do cais. Já no poema de Narciso, vemos a presença do então repórter de porto no cais, vendo os detalhes (a espuma na superfície da água, um passarinho no mastro) misturado à nostalgia dos dois acima (“Com tanto navio para partir / minha saudade não sabe onde embarcar”).

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Na parte 4, a passagem do poeta-menino-memorialista pela escola de padres onde estudavam os meninos ricos; nas partes 5 e 6, a religiosidade da família com a devoção à Nossa Senhora de Monte Serrat e o cotidiano em torno do oratório da casa, que ficava no quarto do menino; na parte 7, a vendedora de bolos que “Tinha sido mulata muito bonita / No tempo da escravidão”; na parte 8 o início da ocupação do Macuco, bairro portuário que na primeira metade do século iria abrigar a maior parte dos trabalhadores da Companhia Docas de Santos (CDS); na parte 9, a coleção de selos que o fazia sonhar com as partes do mundo e, na parte 10, as meninas do seu tempo e o final, no qual o narrador, aos 35 anos, despede-se da infância e pede serenidade na velhice.

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