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I No jornal
É exercendo seu papel de nó na trama das trocas internacionais que o porto de Santos aparece em “O ano da morte de Ricardo Reis”. Nesse romance de José Saramago de 1984, o mesmo contexto histórico tem a função de abrir a trama, pondo a viagem como possibilidade desde o primeiro parágrafo:

Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio correm turvas de barro, há cheia nas lezírias. Um barco escuro sobe o fluxo soturno, é o Highland Brigade que vem atracar ao cais de Alcântara. O vapor é inglês, da Mala Real, usam-no para atravessar o Atlântico, entre Londres e Buenos Aires, com uma lançadeira nos caminhos do mar, para lá, para cá, escalando sempre os mesmos portos, La Plata, Montevideo, Santos, Rio de Janeiro, Pernambuco, Las Palmas, por esta ou inversa ordem, e, se não naufragar na viagem, ainda tocará em Vigo e Boulogne-sur-Mer, enfim entrará o Tamisa como agora vai entrando o Tejo, qual dos rios o maior, qual a aldeia.

Já mais para o final, o porto volta ao livro outra vez como escala, desta vez no jornal:

Ricardo Reis percorre demoradamente as páginas, distrai-se com as novidades correntes aquelas que tanto podem vir daqui como dalém, deste tempo como de outro, do presente como do futuro e do passado, por exemplo, os casamentos e baptizados, as partidas e chegadas, o pior é que, mesmo havendo uma vida mundana, não há um mundo só, se pudéssemos escolher as notícias que queremos ler qualquer de nós seria John D Rockefeller. Passa os olhos pelas páginas dos pequenos anúncios, Habitações alugam-se, Habitações precisam-se por este lado está servido, não precisa de casa, e olha aqui nos informamos da data em que sairá do porto de Lisboa o vapor Highland Brigade, vai a Pernambuco, Rio de Janeiro, Santos, mensageiro perseverante, que notícias nos trará ele de Vigo...

II Anotações
Em “Consejos de un discípulo de Morrison a un fanático de Joyce” (1984), escrito a quatro mãos por Roberto Bolaño e A.G. Porta, o protagonista é um jovem escritor de Barcelona, Ángel Ros, ainda sem publicar, que acaba cometendo crimes ao lado da namorada latino-americana. Em alguns capítulos acompanhamos Ángel Ros escrevendo a história de Dédalus, um assaltante especialista em James Joyce. Em forma de notas para compor seu personagem, Ros, também sem dizer o nome do porto, traça outra dessas rotas. A tradução é da coluna:

Dados para uma biografia de Dédalus
Nascimento em Barcelona / Aos três anos a família se muda para o Brasil / Lembranças da partida / Imagens como flashes sem som / Primavera, pai, mãe, irmão, malas / Escala nas canárias / A mãe doente / A procura de noite por medicamentos pelo porto e arredores / Medo que o barco parta sem eles / As luzes da cidade / Estado de São Paulo / Diversos domicílios em novas localidades / Cofundadores delas com outras famílias / Ideia tropical / Vila Santo Eduardo / Vila Rica / Vila Formosa / Vida com os negros / Enterro de excrementos na mata / Calor / Inundações / Negros a cavalo com revólveres / Pai vendedor de cadeados / Operário na construção / Remendos / Corredor de produtos de consumo majoritário / Doze horas de trabalho / Inundações: um negro bêbado morre afogado no rio / A mãe lhe ensina a ler / Brincadeiras na lama / A mata: cobras e outros animais / A família decide voltar para Barcelona...

Epílogo
O tema de hoje contou com as discussões realizadas nas últimas duas semanas na oficina “Conheça Santos por meio da Literatura”, que conduzo no Ponto de Cultura Estação da Cidadania e Cultura, lá no Fórum da Cidadania. Muito obrigado aos participantes pelas ideias e reflexões. Na segunda-feira que vem, dia 11, leremos os poemas de chegada ao porto de Santos escritos por Oswald de Andrade, Pablo Neruda, Elizabeth Bishop e Blaise Cendrars. Estão todos convidados.

Referência
Herbert S. Klein. Migração internacional na História das Américas. In: Boris Fausto (org). Fazer a América. São Paulo: Edusp, 2000.

José Saramago. O ano da morte de Ricardo Reis. Fonte digital. Acesso em 03/06/2012.

Roberto Bolaño e A. G. Porta. Consejos de un discípulo de Morrison a un fanático de Joyce seguido de Diario de bar. Barcelona, Espanha: Acantilado, 2006 (1ª ed. 1984).

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