Para Raphael Morone, que viaja para Montevidéu

O Centro Cultural de Espanha em Montevidéu publicou em outubro de 2011 a coletânea “Urgente: poesia emergente”, com nomes entre 20 e 30 anos da poesia uruguaia, fruto de uma convocatória. Na apresentação, a seleção é justificada porque “se sustenta sobre a pretensão de iluminar ou talvez prefigurar, o mapa possível de uma voz original que se insinua no panorama da poesia uruguaia. Aqui, então, apresentamos uma amostra da poesia atual e, possivelmente, um gérmen da poesia que virá”.

Dos 10 poetas reunidos, Porto Literário traduz quatro deles, um poema de cada. A escolha é arbitrária, por mostrar o mar:

I “Pérdidas”, de Gisella Aramburu, parte de “Grabadora de viaje”
Nascida em Rocha em março de 1986:

Perdas
O mar que é um só não é um
E tu és tu mesmo no metal refulgente
De minhas primeiras versões
Antes de resvalar em minha placenta arrependida
E cair de boca sobre o chão
E dali perder o pâncreas procurando o relógio
E escutar rodar meus olhos pelas escadas
E tu és um só através de órbitas vazias
Brilhas ao escuro como a palavra destino.

II, “Ensalada de ansia”, de Leonor Sofía Courtoisie Malaneschii, parte de “Diez recetas para niñas y niños perdidos”
Nascida em março de 1990:

Salada de ânsia (Andorra)
Tragarei punhados de areia
para acalmar as ânsias
tormentas de farinha
nos olhos das ondas

Depois do calor
vem a chuva
para limpar água
tomate o sangue

Hipoclorito

No bar
escrevo
minhas últimas palavras

Deus nos fez de sangue
para nos arrebentar as veias
e enchê-las de vinho

Saúde

III, “Soplo”, de Pablo Del Grossi
Nascido em Montevidéu em dezembro de 1986:

Sopro
Sacode o mar
a cor do triunfo

IV, “El agujero”, de Juan Pablo Pedemonte
Nascido em Montevidéu em 1981:

O buraco
Teria que escavar os parágrafos do mar
para dar com o tempo;
esquadrinhar em sua fossa ou procurar
o ossatura do vento
nas escrituras profanas do esquecimento.
Ou reler, ao menos, as paisagens do outono,
onde sempre há um golpe de pássaro,
uma página de folhas caducas e perdidas.
Ou ir direto à ferida do relojoeiro,
 a suas noites de parafuso e ferrugem,
até as doze e meia da dor animal.

Escavar até entrar no buraco
da água das agulhas.
Ou não sair
nunca.


Referência
Urgente: poesía emegente. Apresentação Sabela de Tezanos, Washington Benavides e Paola Gallo. Direção Carlos Couto. Montevidéu, Uruguai: Centro Cultural de España Montevideo, 2011.

Pin It
0
0
0
s2smodern
powered by social2s