No último encontro da oficina “Conheça Santos por meio da Literatura”, no litoral paulista, conversamos sobre a diferença de sensibilidades entre poetas do século passado e da primeira década deste século XXI ao retratarem o Porto de Santos.
 
A coisa toda é mais uma pista, a ponta do fio que começamos a puxar. Do século passado, tratamos de poemas de Rui Ribeiro Couto (“Santos”, 1939), Roldão Mendes Rosa (“Porto”, da década de 50 ou 60, publicado postumamente em 1991) e Narciso de Andrade (“Cais”, década de 50 ou 60, publicado em 2006). Os dois primeiros são marcados por um profundo sentimento de nostalgia (“Nasci junto do porto / ouvindo o barulho dos embarques”, Couto; “Por que / este amor ao cais / se o que espero / não viaja?”, Roldão). Por trás da escrita dos poetas, neles se percebe uma criança que nasceu em torno do cais. Já no poema de Narciso, vemos a presença do então repórter de porto no cais, vendo os detalhes (a espuma na superfície da água, um passarinho no mastro) misturado à nostalgia dos dois acima (“Com tanto navio para partir / minha saudade não sabe onde embarcar”).

Podemos identificar a transição no poema “Raízes”, de Madô Martins, publicado em 1999, às vésperas do século XXI. Vemos na última estrofe como a nostalgia vai cedendo espaço à desolação: “Moro no Sul / e jamais migro. / Procuro mensagens em garrafas, / na areia da praia, / mas só encontro conchas e maresia.”

Desolação que se manifesta completamente na obra de Alberto Martins. Seu livro “Cais”, de 2002, é rico nestas imagens: “e o casco? / É úmido. Está coberto / de cracas e a ferrugem / que rói as chapas / rói a carga”, ou “Triste cidadã litorânea / meus olhos mal te distinguem / da terra do mar da lama”, ou ainda “Aqui eu moro / entre bandeiras de diferentes donos / e as grossas placas de aço do abandono”. No livro seguinte, então, “A História dos Ossos” (2004), o Cemitério do Paquetá é transformado em um pátio de contêineres.

Clique aqui para ler a segunda parte deste artigo.

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