Terça, 24 Fevereiro 2026
Os importadores de alguns produtos agropecuários só estão conseguindo liberar as suas mercadorias com liminares da Justiça devido à greve dos fiscais do Ministério da Agricultura, que recomeçou no último dia 24. As cargas que continuam retidas no Porto de Suape são farinha de trigo, arroz, algodão, pescados e carnes importadas dos países do Mercado Comum do Sul (Mercosul). Algumas indústrias que usam a farinha de trigo como matéria-prima já refizeram as suas metas de produção porque estão retirando uma quantidade menor do que a que estava prevista. As mercadorias acima só são liberadas depois de passar por uma inspeção dos fiscais do Ministério da Agricultura. Segundo o comando de greve, só estão sendo liberados os alimentos que são altamente perecíveis. A previsão era que a greve fosse suspensa sábado, mas a categoria não se sentiu satisfeita com a proposta do governo federal e entrou em greve por tempo indeterminado. “O governo veio com uma proposta pífia de 4% de reajuste em julho de 2008, 4% para julho de 2009 e 4% para julho de 2010”, explicou o presidente da Associação dos Fiscais Federais do Ministério da Agricultura em Pernambuco, Luís Xavier. Os servidores querem que o salário inicial da categoria saia de R$ 3 mil para R$ 4,3 mil e que o teto salarial deixe de ser os atuais R$ 4,8 mil e fique em R$ 7,7 mil. Em média, os fiscais do ministério têm um salário de R$ 5 mil, formado pelo salário base mais as gratificações.Fonte: Jornal do Commercio - 31 JUL 07

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Brasília - Depois de três anos de avaliações, o Ministério da Educação descobriu que quase mil cursos têm resultados sofríveis no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade). Metade dessas faculdades ruins hoje oferece bolsas no Programa Universidade para Todos (ProUni) em troca de isenções de impostos por parte do governo. Neste ano, essas isenções devem totalizar R$ 126 milhões. Cruzamento feito pelo Estado mostrou que 462 dos 923 cursos com as notas mais baixas do exame estão oferecendo bolsas via ProUni para o próximo semestre letivo. Ao todo, os cursos ruins representam 8% dos 5,8 mil oferecidos neste semestre no programa. O porcentual não é alto, mas as notas baixas incluem algumas das maiores instituições do País, que oferecem um bom número de vagas. É o caso, por exemplo, da Universidade Paulista (Unip). Ao mesmo tempo que tem cursos muito bem avaliados, a instituição aparece com 20 entre aqueles com as piores notas do Enade, em várias cidades do País - todos eles inscritos no ProUni. “Acredito que esse é até um número esperado, dentro do normal. Não desqualifica o programa nem as instituições. O Enade não é o sistema completo de avaliação, não é feito por todos os alunos e alguns, muitas vezes, não têm compromisso com o resultado”, afirma o presidente do Sindicato das Entidades Mantenedoras dos Estabelecimentos de Ensino Superior do Estado de São Paulo (Semesp), Hermes Figueiredo. O Enade avalia a instituição por meio de uma prova feita com uma amostra dos alunos em dois momentos: o primeiro ano de curso e a graduação. A intenção é medir não apenas o conhecimento do formando, mas quanto a instituição conseguiu agregar de conhecimento ao longo do curso. A cada ano, o ministério avalia um grupo de cursos por áreas de conhecimento. O primeiro grupo foi avaliado em 2004 e o último, em 2006. Só neste ano o MEC passou a ter uma avaliação completa de todas as instituições. O cruzamento levou em conta as instituições que tiveram conceito 1 e 2 no Enade, somados aos conceitos IDD - índice criado pelo MEC para medir o conhecimento agregado entre o ingresso na faculdade e a formatura. No caso daquelas que tiveram conceito 1, foram consideradas as com IDD até 4. Para aquelas que tiveram conceito 2, consideradas até as que tiveram IDD 1 e 2. No total, 85 cursos tiveram conceitos 1 e IDD até 4. Dessas, 56 estão no ProUni. Entre as piores - com conceitos 1 e 1 -, 13 de 21 estão no programa. Aquelas com conceito 1 e IDD 2 são 24,ou 63% do total. No conceito 2, com IDD 1 e 2, está o maior número de instituições: 838. Dessas, quase a metade (406) também faz parte do programa. Na semana passada, o presidente Lula sancionou lei que prevê a saída do ProUni de instituições com duas avaliações ruins seguidas no Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior (Sinaes) - e não mais em três, como ocorria antes. O sistema inclui não apenas o Enade, mas uma avaliação das condições do curso, feita por visitas de especialistas às instituições. A lei considera um período de seis anos até que um curso mal avaliado seja retirado do programa. Isso porque um sistema completo de avaliação inclui o Enade mais a visita. Os primeiros cursos, da área de saúde, avaliados em 2004, ainda não foram visitados. As primeiras avaliações de curso serão feitas neste ano, junto com a segunda prova do Enade. Em 2010, será feita a segunda visita e, só então, se a instituição mantiver a má qualidade, poderá ser retirada do programa. “O tempo é importante, mas não mais que um processo justo”, justifica o secretário de Ensino Superior do MEC, Ronaldo Mota. “Temos de permitir a uma instituição corrigir seus erros. Seria fácil fazer algo mais pirotécnico, mas poderíamos cometer injustiças.”O secretário lembra que a lei que criou o ProUni foi aprovada pelo Congresso com a previsão de três avaliações para o descredenciamento, ao contrário do que queria o MEC. Por isso, foi feita uma nova, diminuindo o tempo. “Mas nada impede que, no meio do processo, haja a suspensão de vestibulares ou retirada do ProUni, caso o ministério verifique irregularidades graves na instituição.”

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Os problemas enfrentados pela aviação brasileira estão refletindo no transporte aéreo de cargas. O presidente da Associação Nacional do Transporte Rodoviário de Carga e Logística (NTC & Logística), Geraldo Vianna, relata que os agentes de cargas aéreas não mensuram, mas manifestam que a "turbulência" reduziu esse tipo de atividade.

Uma análise pode ser feita a partir do desempenho da VarigLog, maior empresa brasileira de carga aérea, detentora de mais de 47% do mercado doméstico e 20% do mercado internacional de carga brasileira. Em 2006, a VarigLog transportou 211 mil toneladas. Este ano, de janeiro a maio, foram transportadas apenas 13,4 mil toneladas. A empresa transporta animais vivos, perecíveis, objetos de valor, artigos perigosos, equipamentos para shows e eventos, obras de arte, veículos, computadores, produtos farmacêuticos, eletroeletrônicos etc.

Além dos constantes atrasos de aterrissagens e decolagens, o desastre envolvendo o avião da TAM, em Congonhas, também resultou em prejuízos. O presidente da VarigLog, João Luis Bernes de Sousa, informa que o acidente causou a transferência integral dos vôos de carga para Campinas durante dez dias. Com isso, a VarigLog teve que fazer o trajeto entre os aeroportos Guarulhos e Viracopos com caminhões, pois não existe em Campinas estrutura capaz de receber e paletizar (agrupar sobre uma superfície a mercadoria) toda a carga.

O presidente da NTC & Logística acrescenta que vários transportadores se recusam a utilizar esse deslocamento de Campinas a São Paulo devido ao grande número de roubo de cargas que se verifica nas rodovias que ligam os dois municípios. O executivo da TNT Express, José Tranjan, informa que para evitar o aumento no tempo de trânsito das exportações, a companhia desenvolveu conexões rodoviárias para trechos de curta e média distância para manter as mesmas conexões nos vôos internacionais usadas antes da crise aérea.

A TNT atua com remessas expressas de importação e exportação, que incluem amostras e documentos importantes de vários segmentos da economia. Entre os materiais estão documentação para liberação de navios originais, amostras de produtos, calçados etc. Os principais destinos domésticos trabalhados pela TNT são Porto Alegre, Manaus, São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Belo Horizonte.

O consultor da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Plinio Fraccaro, afirma que a situação da aviação está causando dificuldades para enviar matérias-primas, como couro e artefatos, do Sul, para as empresas do Nordeste. O transporte aéreo leva cerca de quatro horas para fazer o trajeto do Rio Grande do Sul até os estados nordestinos. De caminhão, as encomendas levam de três a quatro dias para chegarem aos seus destinos. Fraccaro acrescenta que os problemas ocorrem desde que a Varig deixou inativa parte de sua frota de aviões.
A gerente de vendas da Calçados Bibi, Andrea Kohlrausch, diz que a maior dificuldade da empresa com a crise do setor aéreo se reflete no deslocamento dos representantes da companhia. Os funcionários da empresa têm viajado um dia antes do programado inicialmente para evitar atrasos. De 20% a 30% dos produtos exportados pela Calçados Bibi utilizam o modal aéreo, a maior parte da mercadoria é transportada por navios. Os principais destinos são países da América Latina como Peru, Venezuela e México.
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Estão prontos para votação no Congresso projetos que prevêem a criação de mais seis Estados. Se aprovados, eles vão agravar o inchaço do Legislativo, abrindo 144 cadeiras de deputado estadual, 48 vagas de deputado federal e 18 de senador. Esses projetos de decreto legislativo, que prevêem a realização de plebiscito, foram aprovados nas respectivas Comissões de Constituição e Justiça (CCJ) e podem ser inseridos na pauta a qualquer momento.Os novos Estados em estudo são: Carajás e Tapajós no Pará; Mato Grosso do Norte em Mato Grosso; Rio São Francisco na Bahia; Maranhão do Sul no Maranhão e Gurguéia no Piauí. Em comparação, os Estados Unidos têm 50 Estados, com representação fixa no Congresso de 100 senadores e 435 deputados. Se forem criadas mais unidades da Federação, não haverá aumento do Parlamento, apenas a redistribuição das vagas.O Brasil tem 26 Estados e 1 Distrito Federal. O Congresso abriga 513 deputados e 81 senadores. Aqui, ao contrário dos EUA, a configuração aumenta se houver novos Estados. Em média, a Assembléia Legislativa de um pequeno Estado, com 24 deputados, consome R$ 110 milhões ao ano.Na maior parte, os projetos de criação de Estados são antigos e apresentam lacunas. Nenhum deles, por exemplo, inclui um estudo detalhado sobre a viabilidade econômica e os custos da medida.A criação de um Estado pressupõe a existência de um novo Executivo, um novo Judiciário e um novo Legislativo. Todos devem ser dotados de completa estrutura física, como prédios, veículos e equipamentos, e administrativa - governadores, secretários, servidores, juízes, promotores, deputados e assessores. As propostas tampouco apresentam solução para um problema crucial: quem arcará com os custos do plebiscito.INTERESSESEstudo da consultora legislativa da Câmara Ana Tereza Sotero Duarte, de 2005 - quando os projetos já estavam no Congresso -, apontava o problema e alertava para interesses políticos. Em um trecho, ela destacava: “O que se observa nas entrelinhas de algumas proposições em tramitação é a ausência de fundamentos convincentes, o que leva ao entendimento de que algumas iniciativas podem embutir, na sua origem, discordâncias de grupos políticos e, mesmo, econômicos.”O parecer foi taxativo sobre custos. “Criar um novo Estado é pesado ônus para os cofres públicos, pelo menos nos primeiros anos. A organização política e administrativa faz com que o aparato burocrático e institucional que precisa ser montado para pôr em funcionamento uma nova unidade da Federação gere despesas vultosas, deixando poucos recursos para investimentos em área social.”A consultora fez uma simulação sobre Gurguéia, Mato Grosso do Norte, Maranhão do Sul, São Francisco e Carajás. Com exceção de Mato Grosso do Norte, as demais unidades nasceriam “na condição de mais pobres do Brasil”, em índice de desenvolvimento humano (IDH). “Quanto aos rendimentos médios, o Estado do Gurguéia, se fosse criado hoje (em 2005), nasceria com uma renda per capita de R$ 71,92, ou seja, seria o Estado mais pobre do Brasil, seguido do São Francisco (R$ 77,93) e do Maranhão do Sul (R$ 85,48)”, alertou.“O Brasil precisa de um estudo sério de revisão do seu território para que se tenham dados concretos apontando quais Estados podem ser criados e para não haver uso político e eleitoral da situação”, diz o deputado Paes Landim (PTB-PI), autor do pedido de criação do Estado do Gurguéia. “A Constituição exige o aumento de deputados. Isso torna caríssima a criação de novas unidades”, admite.JUSTIFICATIVAA justificativa para os seis projetos é o fato de existirem regiões distantes das capitais, desassistidas e sem condições de desenvolvimento. A própria consultora da Câmara ressaltou a importância de uma revisão territorial em alguns Estados. “Tal medida poderia contribuir para tornar mais viável a gestão política, econômica e social de uma imensa parte do território brasileiro”, destacou Ana Tereza.O professor de geografia da USP André Roberto Martin tem outra visão. “O argumento de que o tamanho do Estado dificulta a administração está equivocado. Se assim fosse, teríamos de dividir o Brasil em vários países”,diz. “Basta olhar para a Europa, que está caminhando no sentido de união total.”

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As mudanças trazidas pela globalização no mundo se acentuarão até o final deste século e vão beneficiar principalmente os países asiáticos, que devem criar um novo capitalismo, menos predatório. O Brasil estará fora do batalhão de frente dessa nova realidade, por ainda ser um país fechado ao comércio internacional.

A análise é do professor Ernesto Lozardo, da Fundação Getúlio Vargas, que está lançando o livro "Globalização - A Certeza Imprevisível das Nações". Ele trata desse tema em entrevista ao programa Panorama do Brasil , apresentado pelo jornalista Roberto Müller e exibido nesta segunda-feira pela TVB. Também participaram da entrevista os jornalistas Theo Carnier, editor de Indústria do DCI, e Milton Paes, da rádio Nova Brasil FM. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Roberto Müller: No seu livro sobre globalização não há uma contradição no subtítulo, "a certeza imprevisível das nações"?

Ernesto Lozardo: Minha preocupação foi entender o desenvolvimento do século XXI. Acho que está claro no meu livro para onde caminhamos, em que dimensão a globalização, no melhor dos sentidos seria o capitalismo global, pode assegurar uma prosperidade para todas as nações. Acho que ele não assegura ainda esta tranqüilidade e, portanto, a imprevisibilidade desse capitalismo global não se encontra nas grandes nações, nos países mais desenvolvidos, mas nos menos desenvolvidos. A imprevisibilidade está relacionada à má distribuição da renda mundial, há um grande grau de pobreza no mundo. Ou seja, ou o capitalismo dá uma resposta clara de solução para dois terços da humanidade mais pobre, para aqueles que ganham menos de dois dólares por dia na sociedade mundial ou não vamos ter também o capitalismo. Então a imprevisibilidade significa a não-resposta à situação das nações mais pobres.

Roberto Müller: Mas a quem compete dar essas respostas ?

Ernesto Lozardo: Todas as empresas têm o objetivo do lucro. A imprevisibilidade não está por conta das empresas, mas muito mais por conta das instituições internacionais, a OMC (Organização Mundial do Comércio), o Banco Mundial, o papel do Fundo Monetário Internacional, e dos governos. O mundo passa, ou passará, por uma situação de convergência de objetivos das instituições internacionais que respondem por dar uma ordem global, no comércio, nas leis, ordens ambientais, de direitos humanos, quer dizer, a predominância dessas normas ou regulamentações gerais do mundo com vistas ao mundo ter um clima mais pacífico de convivência. Os governos terão que se adequar a isso, ou seja, que a sociedade tenha conta de participar do capitalismo global. Hoje temos uma curiosidade muito grande com relação à China. O governo chinês assumiu como modo de produção o capitalismo, mas como política interna é comunismo. Mas no meu entender o comunismo vai desaparecendo gradualmente da China, na medida em que o capitalismo vá se impondo dentro da cultura chinesa. É uma questão de tempo. A dimensão do governo chinês é ser um país líder dentro do comércio internacional. Agora, nem todos têm as mesmas condições da China.

Milton Paes: No livro, o senhor deixa claro a necessidade de o capitalismo mudar essa questão social?

Ernesto Lozardo: O capitalismo muda sim, e muda muito mais por um regionalismo asiático. Poucos economistas estão entendendo o que está acontecendo nesse novo regionalismo asiático. Acho que a Ásia traz para o mundo coisas importantes. A Ásia tem uma relação entre os próprios países da região, são trinta e poucos países, e toda a relação é fundamentada nos valores étnicos e culturais. É por aí que as coisas começam na Ásia, não é meramente pelo lucro, mas pelas relações étnicas e culturais, pela confiabilidade, pela consciência de relacionamento. É histórico isso. O que ela traz para o mundo é um capitalismo diferente, não é um capitalismo do olho por olho, dente por dente. Esse capitalismo acabou. Este é o capitalismo norte-americano. O que vem no mundo do século XXI é o capitalismo co-responsável, no qual as nações desenvolvidas e menos desenvolvidas terão a responsabilidade da inserção dos seus cidadãos, da sua população, no acesso a tudo o que o mundo oferece de consumo.

Roberto Müller: Mas isso é possível, professor?

Ernesto Lozardo: O mundo caminha para isso. Caminhamos nessa direção e acho que as pedras estão colocadas. Não é só na Organização Mundial do Comércio que isso acontece, mas temos também as questões ambientais, de saúde pública, de meio ambiente, de combate ao terrorismo, de uma segurança militar mundial. Ocorre em nível global, não é mais em nível de nações. Então o homem do século XXI é um outro homem, é uma outra sociedade. A nova sociedade chama-se a era do conhecimento, que é diferente da era industrial, e é tão importante quanto foi a era industrial. O impacto é grande. É acesso a todos, a tudo o que se oferece no mundo.

Theo Carnier: Como o senhor vê a posição do Brasil nesse contexto?

Ernesto Lozardo: O Brasil não ficará tão bem quanto os asiáticos, quanto qualquer país asiático. Não ficará tão bem quanto Tailândia, Malásia ou a China.O Brasil está ainda num processo de identificar o seu modelo de crescimento. O Brasil por muitas décadas oscilou entre crescer para dentro e crescer para fora. Quer dizer, vamos crescer abrindo a economia ou vamos crescer primeiro olhando a economia doméstica. Nunca foi muito claro o modelo brasileiro. Mas, de qualquer maneira, o Brasil, entre os países da América do Sul, é o país mais bem preparado, que está mais bem instrumentado para fazer face a esse capitalismo global.

Roberto Müller: O senhor prevê uma participação mais intensa do Estado no capitalismo que o senhor tem em mente?

Ernesto Lozardo: O papel do governo não é assistencialista. Isso é terrivelmente perigoso. Não basta dar inclusão social, tem que dar ascensão social. Se você dá inclusão social sem ascensão social tem a humilhação social, que é muito pior. Essa história de dar inclusão social por cesta básica ou por dar uma educação de péssima qualidade não inclui ninguém a lugar nenhum. Você tem que dar ascensão social, essa condição é que tem que ser criada. O papel do governo é fundamental. Mas de que forma? Acho que tem que assegurar a competitividade de todo o comércio e da industria brasileira. Tem que ter um tamanho adequado às cidades, de competição global, redução de carga tributária. E ter um país com uma infra-estrutura adequada à globalização. A globalização exige infra-estrutura de alta qualidade de comunicação, de transporte, de oferta de energia. O Brasil ainda está buscando esse modelo, de parceria com o setor privado. Há mais de quarenta anos, a China de Mao já descobriu a globalização. O Brasil agora está começando a visualizar que a globalização é importante. Mas não tem os fundamentos para isso ainda. Falta uma melhor distribuição da renda, um governo mais eficiente, uma carga tributária menor e estar mais competitivo na indústria e no comércio em nível global.

Roberto Müller: Questões como sustentabilidade e governança corporativa, que ganharam importância recentemente, vieram para ficar ou trata-se apenas de uma pequena nuvem, que não traz nada consistente?

Ernesto Lozardo: Vieram para ficar. Há nesse livro um capítulo específico sobre o papel das multinacionais e das empresas, a governança se trata de uma governança global, o processo de produção, a cultura empresarial, deixa de ser nacional, é global.

Robero Müller: As normas contábeis tendem a ser universais.

Ernesto Lozardo: Exato. As leis que regem o comércio são globalizadas, e eu dei um passo além nesse meu trabalho quando falo da questão humana. O talento humano dentro dessa globalização é um outro talento. O século XXI exigirá a formação de novos talentos da administração que não é a administração da era industrial. Estamos na era da informática, da internet. Você não precisará estar na sua empresa para produzir naquela empresa, a empresa é que irá até você. Você poderá estar em qualquer lugar do mundo produzindo um bem comum para uma empresa determinada. Então os currículos das universidades, das escolas de administração, engenharia, terão que ser mudados e estão sendo mudados no mundo de maneira muito rápida, para se adequar a esse novo cenário. Há mudanças de valores muito grandes, e esses valores dizem o seguinte: no século XXI o homem passa a ser o centro do mundo de novo, não é mais a instituição ou os governos, ou a indústria, é o homem. E isso é importantíssimo. Quer dizer, isso muda o foco da prosperidade global, não será mais institucional, mas humano. O que está em jogo é atender os desejos humanos, de ter acesso a tudo que se produz no mundo. Este é o desafio. Quer dizer, a queda de barreiras não se trata só de queda de barreiras comerciais, mas é a queda de barreiras culturais, técnicas.

Roberto Müller: As pessoas anseiam cada vez mais, e isso é primordial no sentido de se atingir esse modelo de globalização.

Ernesto Lozardo: As pessoas querem é ter acesso. Não importa se é um africano, da Mongólia, um alagoano, um malaio, um americano, não importa. Todos querem ter acesso a tudo o que se produz no mundo. De repente o mundo está aberto a todos. Aberto não só a acesso a bens de consumo. Acesso às culturas que estão no mundo. Então as distâncias não só ficaram curtas em comunicação, mas as diferenças culturais reduziram muito. Esta é a grande mudança que temos no mundo. As empresas estão preparadas para enfrentar essa mudança de paradigmas mundiais. Estamos hoje abertos a tudo e a todos. Agora, o que a humanidade quer? Estar mais bem preparada. Sabe o que é isso? É educação, cultura, talento para fazer parte desses desafios do século XXI.

Milton Paes: Como foi possível a mudança tão rápida da China, do comunismo para o capitalismo?

Ernesto Lozardo: A disputa entre Mao e Deng Xiaoping foi no sentido de como promover a justiça social. Mao tinha uma idéia mais institucional e Deng Xiaoping tinha uma mais comercial O primeiro tom da reforma de 1978 de Deng Xiaoping foi de liberalizar os preços agrícolas internos. O Estado não mais passou a comprar, a demandar os produtos agrícolas. O agricultor teve que buscar o mercado regionalmente. Resumo da história: os agricultores chineses ficaram ricos. Foi aí que apareceu o lucro, a eficiência, a produtividade e a distribuição. Mas nesse meu trabalho eu analiso outros países, que serão os eixos do século XXI na economia mundial, que é a Coréia do Sul, Índia, China, a União Européia e os Estados Unidos. São os eixos.

Roberto Müller: O Brasil está fora?

Ernesto Lozardo: O Brasil está fora do eixo da prosperidade global. O País, primeiro, é pouco expressivo no comércio mundial. Ele representa não mais do que 1,1% das exportações mundiais. Para vocês terem uma idéia, a China, em 1977, representava 0,6% das exportações mundiais. O Brasil representava já 1%. O Brasil continua com esse 1% e a China representa hoje 9% das exportações mundiais, tendendo a 12% até 2010.

Theo Carnier : Mas o Brasil tem crescido bastante nessa área de comércio exterior.

Ernesto Lozardo: O Brasil cresceu porque os preços internacionais cresceram, não porque exportamos mais. Nós exportamos, mas a gente precisa notar que o eixo das exportações brasileiras se deve a commodities demandadas pelos asiáticos, pela China principalmente. E que os preços cresceram muito. De 1990 até 2007, o preço das commodities do mundo cresceram 70%. Nossas exportações cresceram 400% em termos de volume e preço. Então estamos surfando com o mundo. Melhoramos, mas estamos longe de chegar em 2010 ao que o Brasil já exportou em 1948, quando o Brasil teve uma participação de 2,8% das exportações mundiais. Era café.

Roberto Müller: O senhor acha que um eventual ajuste estrutural da economia norte-americana em decorrência dos déficits gêmeos acelerará ou retardará esse novo capitalismo?

Ernesto Lozardo: Eu tinha certeza que ia terminar esse meu livro com um último capítulo com uma coisa apoteótica. O sucesso do capitalismo nas mãos dos americanos, o que foi uma grande surpresa e de preocupação. Mas economia que mais coloca hoje o mundo numa possível desacelerando econômica são os norte-americanos. A economia norte-americana ela hoje vive um desequilíbrio muito grande e provoca um desequilíbrio muito grande no mundo. Por ser país rico, ele que deveria estar investindo o seu capital nos países pobres ou pelo menos estar ofertando o seu capital aos países pobres. E está acontecendo o contrário. São os países emergentes que estão que estão financiando os Estados Unidos. Inverteu o fluxo. Coloco no livro que a economia americana, dentro de alguns anos, acho que até a partir de 2010, passará por um ajuste fiscal grande, e isso significa um ajuste no fluxo de capital internacional. Os americanos, na verdade, estão em uma situação, em termos macroeconômicos, muito delicada. Primeiro, o nível de investimento é alto e a poupança está caindo há quarenta anos. Por outro lado, a família americana está muito endividada. A dívida total americana, está em torno de US$ 40 trilhões é o tamanho do PIB mundial.

Roberto Müller: E o que o senhor preconiza para o Brasil?

Ernesto Lozardo: Esse ajuste deve acontecer dentro de três anos. O Brasil está muito melhor preparado para enfrentar a crise. Os fundamentos da economia brasileira são robustos. O que nos atrapalha é a carga tributária e um possível apagão energético no Brasil. Então, o que atrapalha o Brasil é o governo central, é o governo federal. No mais, tudo está bem arrumado, nos outros segmentos. Houve o combate à inflação de forma eficiente, o Brasil está muito próximo a ter o investment grade no mercado internacional.

Theo Carnier: Como desatar os nós da carga tributária e da infra-estrutura?

Ernesto Lozardo: É na sociedade. Acho que o Congresso brasileiro está ciente da ausência da reforma tributária, por um lado. Por outro o governo também tem uma índole dos gastos.Temos uma conjunção de duas irresponsabilidades, do Congresso e do governo, do Executivo. Por mais que tenhamos a Lei Fiscal, ela ainda é pouco robusta para ajustar os governos, no tocante aos seus gastos mais eficientes.

Fonte: DCI - 30 JUL 07
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