Trabalhar num resort ambulante, conhecer lugares paradisíacos do mundo inteiro, aprimorar o inglês e o espanhol. Tudo isso recebendo em euro ou em dólar e sem gastar nada com alimentação ou com moradia. Parece um sonho, mas não é. Inaugurada há duas semanas, a empresa pernambucana Navigazione está recrutando tripulação para trabalhar a bordo de navios de cruzeiros. Até o início de março, a empresa espera ter agenciado a contratação de pelo menos 100 profissionais. O salário base para o cargo de barman – um dos mais bem remunerados – partem de 1.500 (cerca R$ 3.800 mil), mas facilmente superam os R$ 6 mil quando somado às gorjetas semanais.
A verdade é que o mundo anda bastante atrapalhado nesta saída da crise. O.k., os gastos dos governos ressuscitaram as economias e o dinheiro despejado pelos bancos centrais impediu o colapso dos sistemas financeiros. Mas o que se faz agora?A um determinado momento parecia que a crise trouxera de volta aqueles bons tempos em que ninguém se preocupava nem com o excesso de gastos públicos nem com a ampla intervenção do Estado nas atividades econômicas. Ao contrário, parecia que só o governo poderia salvar companhias e bancos e, aliás, o próprio capitalismo. Como dizia muita gente saudosa: o governo salva o capitalismo do próprio capitalismo.Tem uma contradição aí, mas quem se importava? A licença para gastar e para intervir parecia, se não eterna, pelo menos com um grande futuro pela frente.Aí, passado o pior, o pessoal volta a fazer contas - essa desgraça - e o que se encontra? Montanhas de déficits e dívidas públicas acumuladas mundo afora. E um imenso "excesso de liquidez", dinheiro barato na praça, com juros bem pequenos, permitindo de novo as alavancagens - tomar empréstimo a custo zero nos Estados Unidos ou no Japão e comprar ações no Brasil ou imóvel na China, ativos com espetacular valorização.A resposta parece óbvia. Como se reduz um déficit ou uma dívida pública? Cortando gastos e aumentando impostos. Como acabar com o excesso de liquidez? Aumentando os juros, cortando crédito para as instituições financeiras. No jargão dos economistas, trata-se de "retirar os estímulos fiscais e monetários".A China, por exemplo, está tomando essa última medida. Boa parte dos empréstimos está suspensa, os juros já subiram e vão subir ainda mais.Mas a China não conta. O país chegou ao final do ano passado crescendo em ritmo... chinês, acima dos 10% ao ano. Já no mundo rico - Estados Unidos, Europa e Japão -, a recuperação econômica é muito frágil. Assim, a "retirada dos estímulos" poderia trazer de volta o risco de recessão e/ou depressão.Além disso, há fatores políticos. Tome-se o caso de Barack Obama: a reforma do sistema de saúde, tema dominante na campanha, é uma prioridade absoluta e de sua realização depende fortemente o êxito do governo. Mas a reforma aprofunda ainda mais o rombo das contas públicas. Para pagar isso, Obama havia dito que cobraria impostos dos mais ricos, mas todos sabem que, neste momento, qualquer elevação de impostos é recessiva e tem um custo político.Vale também para os bancos. Depois de tudo o que aconteceu, todos concordam que é necessária uma reforma no sistema bancário americano, especialmente, mas também na Europa, sobretudo na Inglaterra. Mas qual reforma?No fundo, todo mundo tem bronca dos bancos - e isso desde que inventaram os bancos. Você vai lá aplicar e eles cobram pelas operações e pagam pouco. Você vai tomar emprestado e eles cobram de novo pela operação e tocam juros.Mas, se, apesar disso, os bancos existem até hoje e cada vez mais fortes, é sinal de que são muito necessários, não é mesmo? E, para ser justo - e realista -, a verdade é que antes da crise o sistema financeiro global foi capaz de distribuir capital abundante e barato pelo mundo afora, capital que gerou negócios, empregos e renda.Logo, como reformar os bancos, punir os banqueiros que continuam se pagando bônus milionários e, ainda assim, manter o sistema financeiro com sua capacidade de captar poupança onde há e entregar onde há demanda por crédito para consumo e investimento?Como costuma ocorrer em economia - e na vida das pessoas em geral -, uma coisa começa boa e logo se torna um problema. Tragam o governo! - foi a palavra de ordem do ano passado. E agora, como tirar da frente esse imenso e endividado governo?Antes era mais fácil. Na fase da globalização liberal, governo e regulamentação eram sempre ruins. Na crise, passaram a ser virtude. Agora... bem, depende.Preços no chão - Brasileiros acostumados a fazer compras nos Estados Unidos contam que nunca viram preços tão baixos como os atuais. Não se trata de pesquisa, mas da impressão de pessoas que aproveitam suas viagens para comprar roupas, eletrônicos, coisas para casa. São compras pessoais, não comerciais.Não se trata também da cotação das moedas. Esses brasileiros e essas brasileiras dizem que as coisas estão muito baratas em dólar e que nunca viram tanta promoção.Por certo, é uma consequência da forte retração do consumo dos americanos, atingidos pela crise de diversas maneiras. A situação mais dramática, claro, é dos que perderam o emprego. Mas todas as famílias estão sofrendo com a restrição do crédito e a perda de riqueza familiar, esta provocada pela desvalorização dos imóveis, que são garantia de empréstimos, e das ações que integram os fundos de pensão. Assim, todos são obrigados a gastar menos e poupar mais.O comércio, numa economia tão livre e aberta como a americana, reage derrubando preços. Tanto que num determinado momento os economistas temiam que a coisa descambasse para uma enorme depressão, quando os preços caem porque não há consumidores e os consumidores não compram, primeiro, para fazer economia e, depois, para esperar preços menores à frente. Isso termina por derrubar a produção, gerando um círculo vicioso.Para a maioria dos economistas, os Estados Unidos já conseguiram se livrar dessa tragédia. Mas alguns ainda acham que continua sendo um risco, dada a necessidade das famílias (e do país) de poupar ainda mais.A ver. Enquanto isso, estrangeiros fazem a festa nas lojas dos Estados Unidos. *Carlos Alberto Sardenberg é jornalista Site: www.sardenberg.com.br
Não é preciso um temporal recorde para a Região Metropolitana de São Paulo viver um dia de caos. Apesar de ter chovido menos que em 8 de dezembro, quando o transbordamento dos Rios Tietê e Pinheiros paralisou a capital, ontem, em nove horas de chuva, ruas viraram rios, bairros voltaram a sofrer com alagamentos e nove pessoas morreram na capital e nas cidades de Mauá, Ribeirão Pires e Santo André - somando 59 mortos no Estado desde 1º de dezembro. Segundo o Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE), desde 1º de janeiro, choveu 316,9 mm em São Paulo, 32,5% a mais que a média histórica do mês, de 239 mm. Ontem, às 20h10, a capital entrou novamente em estado de atenção por causa das chuvas.De manhã, quem saiu para trabalhar foi mais uma vez surpreendido pelo trânsito complicado em vias como as Marginais do Tietê e do Pinheiros. São Paulo registrou 121 pontos de alagamento - 54 intransitáveis - e ficou quase isolada: apenas quem dirigia pelas Rodovias Raposo Tavares e Régis Bittencourt conseguiu entrar na capital sem transtornos.Para especialistas em drenagem, a obra viária da Marginal do Tietê pode ter prejudicado o sistema de bombeamento e, por isso, o rio voltou a transbordar. Ontem, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) responsabilizou o "crescimento desordenado" da capital. Entre o dia caótico de dezembro e ontem, a Prefeitura tomou uma série de medidas burocráticas e algumas ações efetivas para amenizar as consequências de temporais que ainda devem se repetir ao longo do verão.
Três mil trabalhadores de Furnas Centrais Elétricas que atuam no Rio de Janeiro e outros 500 que trabalham em São Paulo cruzaram os braços ontem por 24 horas, em protesto contra o não cumprimento de acordo para equiparação de salários aos das outras empresas coligadas ao Sistema Eletrobrás. Foram mantidos pelos grevistas os turnos emergenciais para 30% dos funcionários, para que não haja prejuízo nas operações da companhia. Segundo o Sindicato dos Trabalhadores nas Empresas de Energia do Rio de Janeiro e Região (Sintergia), para cumprir o acordo de equalizar os salários, Furnas está exigindo que sejam retiradas todas as ações judiciais movidas por trabalhadores ou pelo sindicato contra o Plano de Cargos e Salários da companhia."Como apenas os trabalhadores do Rio, Minas e São Paulo têm ações do tipo, somente estes Estados estão realizando o protesto", explicou um assessor do sindicato. De acordo com o sindicato paulista, os trabalhadores também exigem o pagamento de uma indenização pelo descumprimento de termos do Plano de Cargos e Salários . A entidade reclama que apenas alguns grupos de trabalhadores receberam a indenização, mostrando um "tratamento discriminatório" da companhia. Dos 16 sindicatos representantes dos trabalhadores de Furnas em todo o país, além de São Paulo e Rio de Janeiro, o de Minas Gerais também não assinou o acordo, mas também não aderiu a greve. Procurada, Furnas não informou seu posicionamento sobre a paralisação de seus trabalhadores. A assessoria de imprensa da empresa disse que há interesse em manter negociações e evitar novas paralisações.Além desta greve de 24 horas, estão programadas manifestações de protesto em frente às unidades da empresa nos três Estados na semana entre 1º e 5 de fevereiro. Para aquela semana também estão programadas paralisações de 48 horas. A companhia é responsável por aproximadamente 10% da geração de energia do País, além de operar 19 mil quilômetros de linhas de transmissão ? incluindo o sistema de transporte da energia de Itaipu, que caiu em novembro do ano passado, causando transtornos em 18 Estados brasileiros.
A Petrobras deu largada oficialmente ontem ao Projeto de Ampliação da Injeção Contínua de Vapor por meio de um gigantesco sistema de vaporduto, investida que exigiu cerca de US$ 200 milhões e que se soma a outras ações da empresa para reverter a curva de declínio em que ingressou a produção potiguar de petróleo nos últimos anos. A injeção poderá adicionar cerca de 18 mil barris/dia à produção do Vale do Açu, hoje na casa dos 19,5 mil barris diários, e será feita no campos do Estreito e Alto do Rodrigues. A expectativa é que o incremento no volume produzido seja percebido a partir de 2011, de acordo com o diretor de Exploração e Produção da estatal, Guilherme Estrella. “O esforço é para deter a queda e elevar a produção ao patamar histórico de 115 mil barris/dia no Rio Grande do Norte e Ceará, onde hoje a produção diária fica em torno de 75 mil barris”. O RN responde por cerca de 85% dessa produção.O projeto do Vaporduto prevê a injeção de 610 toneladas de vapor por hora, nos campos de produção de Estreito e Alto do Rodrigues. O sistema tem capacidade para injetar vapor em 60 poços de petróleo. Nessa primeira fase, apenas 46 do campo de Estreito estão, no entanto, recebendo o vapor, que é gerado pela Usina Termoelétrica Jesus Soares Pereira (Termoaçu) e distribuído para os poços através de uma rede de dutos. Cerca de130 poços produtores periféricos estão recebendo o estímulo.“A capacidade máxima de injeção prevista nessa fase não foi atingida porque a estrutura ainda exige algumas interligações, já em curso”, disse o gerente geral de Exploração e Produção da Petrobras no RN e CE, Joelson Mendes.O vaporduto é o maior do mundo, com uma extensão de cerca de 30 km, e o primeiro a operar com vapor superaquecido. A engenheira de petróleo Manuelle Meike explica que o vapor distribuído por meio dele aquece o óleo no reservatório e reduz a sua viscosidade para empurrá-lo em direção aos poços. O sistema ajuda a aumentar a pressão nos poços, estimulando também dessa maneira o aumento da produção. Segundo o consultor e engenheiro da Petrobras, José Cleodon de Souza Junior, o vapor sai da Termoaçu a uma pressão mínima de 117 quilos força por centímetro quadrado, mas passa por estações de controle de vazão onde essa pressão é reduzida para até 70 quilos força por centímetro quadrado, limite para que não haja danos aos poços. O projeto foi dividido em 11 fases. “A previsão é que todas sejam concluídas este ano, mas isso vai depender da resposta dos campos”, ponderou Estrella.A solenidade de inauguração do projeto foi realizada na sede da Petrobras, em Alto do Rodrigues, e contou com a presença de executivos da estatal, incluindo o gerente do Ativo de Produção local, Fernando Ribeiro, a governadora, Wilma de Faria e os prefeitos Eider Medeiros (Alto do Rodrigues), Luiz Cavalcante (Carnaubais) e Ivan Júnior (Assu).