"Tempo bom não volta mais...", dizia Olívio Henrique da Silva Fortes, que se destacou como o indignado humorista da televisão Lilico, no programa "Balança mas não cai". E ele tem tudo a ver com o tema desta coluna, como veremos ao comparar o porto de Santos em 1892 com o que neste domingo, 2 de fevereiro, completou 122 anos de existência. Inegável o progresso desde então, mas também ressaltam os problemas logísticos – estes em essência exatamente os mesmos.

Em 1892: a economia paulista e brasileira estava em rápido crescimento, com as exportações de café praticamente sustentando o país. Mas a ligação entre a capital paulista e o principal porto exportador, Santos, era feita por uma ferrovia cara e já demandando modernização, pois não conseguia dar conta do volume de cargas relacionadas com o comércio exterior brasileiro. A rodovia, precária e quase intransitável, era apenas ocasionalmente usada, e só muitos anos depois seria melhorado o Caminho do Mar, bem mais tarde ainda seria construída a Via Anchieta. Quanto ao porto, precisava de dragagem, muita dragagem, para atender ao calado dos novos navios da época, os imponentes vapores transatlânticos.

Exatos 122 anos depois: a economia paulista e brasileira estão em rápido crescimento, com as exportações (mais diversificadas, mas ainda incluindo muito café) praticamente sustentando o país (27% do comércio exterior nacional passa por Santos). Mas a ligação entre a capital paulista e o principal porto exportador, Santos, é feita por uma ferrovia cara e já demandando modernização, pois não consegue dar conta do volume de cargas relacionadas com o comércio exterior brasileiro. A rodovia, precária e quase intransitável (embora moderno, o sistema Anhieta-Imigrantes é caótico e seu tráfego lento por não comportar tantos veículos), e talvez só muitos anos no futuro seja construída uma nova opção. Quanto ao porto, precisa de dragagem, muita dragagem (já está perdendo profundidade novamente), para atender ao calado dos novos navios desta época, os imponentes full-container-ships de altíssima capacidade.

Imagem: Novo Milênio

Nasmyth inaugurou o porto, em 1892, quando faltavam transportes, dragagem... 

A construção das duas frases é a mesma, como viu o leitor, demonstrando como certos aspectos não foram afetados em sua essência pela passagem desses 122 anos.

E onde entra o Lilico nessa história? Indignado, ele batia o tambor na eterna praça de todos nós para chamar a atenção das pessoas para suas reclamações, do mesmo modo como a imprensa repisa temas que considera importantes, para que talvez sejam resolvidos. Lilico também dizia que "tempo bom não volta mais", frase com sentido mudado pela ausência da vírgula, e por isso teve que se explicar com a Censura do regime militar. Nos tempos modernos, as autoridades já não se preocupam com detalhes assim, pois há muito mais escândalos no ar que uma mera vírgula.

É só ver como andam as obras de infraestrutura para a Copa do Mundo que começa em menos de cinco meses – no aeroporto de Fortaleza vão até armar uma cobertura de lona para receber os passageiros, já que o terminal não ficará pronto a tempo. O de Cuiabá, também. Para o grande espetáculo, só faltam chegar os palhaços... atraídos pela garantia de segurança pública dada pelas mesmas autoridades que garantiram a entrega das obras em tempo para os jogos, e que vão em cinco meses fazer o que não fizeram em cinco anos: acabar com a criminalidade em todas as grandes cidades, completar as construções... Aliás, quem lembra do plano governamental de criar um aeroporto em cada esquina do país?

Mas, voltemos ao porto de Santos, que aos 122 anos de idade precisa dobrar a capacidade de movimentação, e está recebendo investimentos vultosos de variadas procedências para ampliar sua capacidade operacional, mas não tem qualquer perspectiva firme quanto aos acessos terrestres. Como a lona dos aeroportos, conta apenas com um plano para agendamento de caminhões, que começa agora a ser colocado em prática, como única alternativa para tentar não perder exportações como em 2013...

Imagem: Marc Ferrez/Novo Milênio

Porto de Santos, em 1902 

 

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