"Quando os elefantes lutam, quem sofre é o capim". O provérbio citado há cerca de 35 anos pelo ex-presidente da Tanzânia, Julius Nyerere, no contexto da guerra fria entre as superpotências, pode ser transplantado para a Baixada Santista, onde lerdos porém pesados elefantes lutam, e a população é pisada como capim. E eu me refiro ao caos nas estradas que esses elefantes deixaram acontecer e agora lutam entre si para empurrar a responsabilidade.

Vamos aos personagens de nossa peça teatral: representando os elefantes, temos a Codesp, o Governo Estadual, a Ecovias (em papel duplo como concessionária das rodovias e controladora do Ecopátio), o anônimo Conselho de Desenvolvimento da Baixada Santista (Condesb, formado pelos prefeitos da região no mesmo estilo da Academia Brasileira de Letras e seu chá da tarde) e os terminais de contêineres. A solução para os congestionamentos foi planejada há anos, na forma de uma coordenação logística que programasse a descida da Serra do Mar pelos caminhões.

Foto: Ana Paula Paiva / Valor

Trânsito intenso em Cubatão, próximo ao Porto de Santos

O capim somos todos nós, os não elefantes. Pisados no direito de ir e vir em nossas cidades ou entre elas; pisados no direito a serviços de emergência (ambulância, bombeiros), pois esses veículos também ficam presos nos congestionamentos monstruosos; pisados na segurança (pois os marginais fazem a festa assaltando os motoristas presos no caos viário); e pisados como consumidores, pois tudo isso reflete no famoso Custo Brasil, que pagamos de alguma forma.

"Entre o mar e a rocha, quem sofre é o caranguejo". Mais pisados que capim, os motoristas de caminhão são os caranguejos do provérbio, pois não contam com terminais adequados para espera do momento de ir ao Porto (até o Ecopátio, pensado como um pulmão para desafogar o trânsito, está atacado por violenta cirrose: boa parte do espaço que serviria para estacionar caminhões é usado como pátio de contêineres). Seus veículos são literalmente usados como armazéns móveis. Móveis? Bah, se ainda se movessem...

"Em casa onde falta pão, todos brigam e ninguém tem razão". Outro provérbio bem adequado à história. Faltam pátios reguladores, faltam pistas nas estradas, e tudo isso se sabia dez anos atrás. Prefeitura multa terminais, que criticam a Ecovias, que protesta contra a imprevidência da Codesp, que alega só agora buscou (e obteve) liberação pelo Patrimônio da União, para usar como pátio de veículos, de um terreno de 250 mil m² em Santos, não usado pela pouco utilizada ferrovia, que foi por tantos anos abandonada pelos governos, que não foram incomodados pelo anódino Condesb, e no final ainda vão culpar a imprensa, que sempre alertou para o caos e cobrou providências para evitá-lo... "Paga o justo pelo pecador"...

O fato é que "enquanto os cães disputam, o lobo come a ovelha". Trânsito parado é custo que será transferido às mercadorias. Pátio que não pode funcionar cobra demurrage pelos atrasos, que o cliente paga e transfere às mercadorias. Os lobos vão comendo, os cães vão lutando, e mais uma vez as ovelhas são tosquiadas. Sem planejamento, sem logística, sem transporte, o Brasil é mesmo um país proverbial...

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