Quinta, 22 Janeiro 2026
Opinião | Renata Santana
Jornalista, estrategista digital e especialista em tecnologia
Renata Santana

A modernização do transporte público no Brasil, finalmente, parece ter encontrado um motor: dados. Bilhetagem digital, QR Code, pagamento por aproximação, aplicativos, integração com carteiras digitais, monitoramento de frota e previsão de demanda criaram um ecossistema em que a operação deixa de ser “no feeling” e passa a ser orientada por evidências. O problema é que, quando a mobilidade vira produto de dados, ela também vira refém do acesso e o Brasil ainda é desigual demais para tratar tecnologia como se fosse universal.

E o paradoxo é simples: a inteligência artificial pode melhorar o sistema para todos, mas também pode expulsar do sistema quem mais depende dele, com a promessa: menos desperdício, mais confiabilidade, melhor serviço.

Nos últimos anos, o próprio PortoGente acompanhou a “onda de inovação no transporte público de bilhetagem por QR Code a novas camadas digitais de pagamento e informação ao passageiro. Em São Paulo, por exemplo, a bilhetagem digital com QR Code no ecossistema do Metrô/CPTM já aparecia como um passo relevante de digitalização desde 2020. Mais recentemente, o Metrô de São Paulo ampliou a lógica do “pagou, passou” com pagamento por aproximação em todas as estações (cartões físicos), um marco de conveniência e também um sinal de para onde o sistema quer ir.

Na prática, esses meios digitais alimentam o que a IA faz melhor: enxergar padrões. Com histórico de embarques, dados de validação, GPS, tráfego, clima e eventos, algoritmos conseguem sugerir:

  • Reforço de frota em linhas e horários críticos;
  • Ajuste fino de intervalos (headway) para reduzir lotação;
  • Reprogramação dinâmica em caso de acidente/obras;
  • Manutenção preditiva e redução de veículo quebrado no pico;
  • Informação ao usuário mais confiável (e menos “cadê o ônibus?”).

Esse caminho já aparece como tendência e debate setorial no Brasil: A Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP) vem tratando de sistemas tecnológicos e bilhetagem/integração, apontando riscos e recomendações justamente porque a tecnologia virou parte estrutural do serviço não mais um acessório.

O choque com o Brasil real: acesso existe, mas “acesso suficiente” é outra história

Agora vem a parte que a empolgação tecnológica costuma pular: o Brasil tem internet, mas não tem igualdade digital.

Em 2024, o IBGE apontou internet em 93,6% dos domicílios do país. Isso parece “quase todo mundo” até você lembrar que transporte público atende justamente quem está mais exposto às ausências: renda mais baixa, instabilidade, deslocamentos longos, múltiplos empregos.

O Cetic.br, ao olhar a qualidade do acesso, joga luz onde dói: apesar do avanço, apenas 22% da população possui “conectividade significativa” (não é só “ter sinal”, é ter condições adequadas de uso). E o mesmo levantamento mostra um traço crucial: 60% acessam a internet exclusivamente pelo celular. Entre famílias de menor renda (classes D,E), essa dependência é ainda mais aguda (chegando a patamares muito altos).

Traduzindo: quando um sistema de transporte decide “virar 100% digital”, ele pode estar dizendo, sem assumir, que o direito de ir e vir depende de bateria, pacote de dados, modelo de aparelho e letramento digital.

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Cidades e cases reais: o Brasil está testando o futuro em cima do presente desigual

São Paulo: QR Code, apps e aproximação - conveniência com ressalvas

São Paulo vive um laboratório constante: QR Code no ecossistema metroferroviário e, agora, aproximação nas catracas. Isso traz benefícios como de reduzir fricção, filas e torna o acesso mais “instantâneo”. Mas há um efeito colateral recorrente em iniciativas desse tipo: quando o pagamento migra para meios bancários e digitais, parte do público que usa dinheiro vivo, depende de recarga física ou não tem conta/limite fica para trás (ou paga o preço da complexidade).

Rio de Janeiro: transição de bilhetagem digital e o desafio do “obrigatório”

O Rio é um caso didático de como a tecnologia pode virar conflito público quando a transição é dura: a Prefeitura detalhou a implementação do Jaé e o início da transição com cronogramas e mudanças que afetam inclusive o vale-transporte. Ao mesmo tempo, houve notícias sobre adiamentos por questões operacionais o que expõe um risco central: quando o acesso ao transporte depende de um sistema digital, falhas deixam de ser “incômodo” e viram “barreira”.

Curitiba e região metropolitana: digitalização com canais oficiais e carteira digital

Curitiba tem histórico de digitalização de recarga e serviços, inclusive com oferta de compra/recarga por apps e serviços municipais. Na Região Metropolitana, há o anúncio oficial de uso do Google Wallet para passagens com pagamento via Pix, um sinal claro de “mobilidade no celular”. De novo: excelente para quem tem acesso, arriscado para quem não tem.

Salvador: bilhetagem eletrônica e QR Code via app (o “jeito fácil” que precisa de plano B)

Em Salvador, o SalvadorCard estrutura produtos e rede de atendimento física e online, e a jornada digital inclui QR Code por aplicativo integrado ao sistema. Para uma cidade com desigualdade histórica, o ponto não é “ser contra o QR Code” é garantir que o QR Code não vire a única porta.

Leia também: Seremos substituídos por robôs?

Então: A IA está servindo ao passageiro ou ao caixa?

Quando IA entra no transporte público, ela quase sempre começa servindo ao operador: otimiza custos, reduz quilometragem ociosa, melhora escala, controla evasão. Isso é legítimo o sistema precisa ser sustentável. Mas transporte público não é streaming: não pode “selecionar” usuário ideal.

E há um tema ainda mais sensível: governança dos dados. Bilhetagem e apps criam um mapa riquíssimo de deslocamento urbano. Se esse ativo fica “na mão” de quem opera (ou de fornecedores), o poder de decisão sobre oferta, rotas e prioridades pode se deslocar do planejamento público para uma caixa-preta contratual. O debate de bilhetagem/integração já está colocado no setor e tende a crescer.

O que seria uma “IA inclusiva” no transporte público brasileiro?

Se a tecnologia avançar (e vai), a pergunta correta é: quais salvaguardas transformam inovação em direito, e não em filtro social?

  1. Multicanal obrigatório
    Digital deve ser mais uma forma, não a única. Cartão físico, pontos de recarga, atendimento humano e alternativas offline precisam existir enquanto houver vulnerabilidade digital (ou seja: por muito tempo).
  2. Acessibilidade como requisito de contrato
    App precisa funcionar em aparelhos simples, consumir poucos dados, ter linguagem clara, recursos para idosos e pessoas com deficiência e ser auditável.
  3. Transição gradual e mensurada
    Antes de “tornar obrigatório”, medir impacto: quantas pessoas ficaram sem acesso? quantas viagens foram perdidas por falha? Qual o tempo de atendimento e resolução?
  4. Transparência algorítmica naquilo que afeta serviço
    Se IA sugere corte de oferta, mudança de rota, redução de frota: o poder público precisa entender e justificar. Algoritmo não pode ser desculpa para precarização.
  5. Dado do transporte como bem público
    O dado nasce do cidadão e do território. Planejamento urbano depende disso. Governança precisa ser pública, com regras claras de privacidade e uso.

A inteligência artificial pode tornar o transporte público mais eficiente, mas eficiência não pode ser confundida com exclusão. Em um país ainda marcado pela desigualdade digital, transformar a mobilidade em um serviço condicionado à tecnologia é transferir um problema social para os algoritmos.

O desafio do Brasil não é adotar IA, mas governar seu uso. O transporte público precisa ser inteligente, sim, mas, antes de tudo, precisa continuar sendo público.

Renata Santana
Jornalista, estrategista digital e especialista em tecnologia
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*Todo o conteúdo contido neste artigo é de responsabilidade de seu autor, não passa por filtros e não reflete necessariamente a posição editorial do Portogente.

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