O ’’Bremen’’, deixando Bremerhaven, Alemanha,

para a viagem inaugural em 24 de junho de 1929.

(Reprodução: Livro ’’Passenger Lines from Germany

1816–1990’’, de autoria de Clas Broder Hansen)

Era outubro de 1926. A Alemanha, no esforço de voltar ao cenário marítimo internacional, encomendou dois grandes transatlânticos, o ‘Bremen’ e o ‘Europa’, visto que a maioria dos navios passou para as nações vitoriosas da Primeira Guerra Mundial, a título de indenização.

O ‘Bremen’ foi batizado pelo presidente da Alemanha, marechal Von Hindenburg. Na viagem inaugural, em 16 de julho de 1929, quando deixou o porto alemão de Bremerhaven rumo a Nova York, nos Estados Unidos, com escalas em Cherburgo (França) e Southampton (Inglaterra), obteve a fita azul – da travessia atlântica mais rápida.

A travessia foi feita no tempo recorde de 4 dias, 17 horas e 42 minutos, no percurso compreendido entre Bishop Rocks, nas Ilhas Scilly, na Inglaterra, e o navio-farol ‘Ambrose’, que fica perto de Nova York.

O percurso é de 2.903 milhas (5.376 quilômetros). A velocidade média do ‘Bremen’ foi de 27,5 nós (50,9 quilômetros horários).

 

Silhueta do belo ’’Bremen’’, em navegação no

Atlântico Norte, nos Anos 30 do século passado.

(Reprodução: Acervo Laire José Giraud)

 

O título de fita azul conquistado pelo ‘Bremen’ foi tirado do ‘Mauretania’, da Cunard Lines, da Grã Bretanha, que estava em seu poder há 22 anos.

O navio irmão do ‘Bremen’, o ‘Europa’, também obteve a fita azul, mas o ‘Bremen’ provou ser mais rápido e ficou com o título até 1932, quando o passou para o ‘Rex’, da Italian Line. Na noite de 30 de agosto de 1939, o ‘Bremen’ deixou Nova York sem passageiros, prevendo o início da Segunda Guerra Mundial. Ele foi posto a pique em 18 de março de 1941, por esquadrões da Royal Air Force (RAF) – Força Aérea Real da Grã-Bretanha.

O ‘Europa’, após a Segunda Guerra Mundial, foi transferido para a França, como indenização de guerra, passando a ter o nome de ‘Liberte’, homenagem à libertação do jugo nazista.

O ‘Europa’ substituiu o famoso ‘Normandie’, que se incendiou em Nova York em 1942, durante reformas que o converteriam em navio-transporte de tropas. O ‘Europa’ navegou até 1960, quando foi vendido para desmanche.


O ’’Bremen’’ deixa a Alemanha com destino a Nova York, Estados

Unidos, no início da Década de 1930, levando 846 passageiros na

primeira classe, 515 na segunda, 300 na classe turista e 617 na

3ª classe. (Reprodução: Cartão-postal do Acervo Laire José Giraud)

Em um dia destes, pesquisando no arquivo de A Tribuna, procurava informações para o meu livro, ‘Transatlânticos em Santos – 1901/2001’, lançado em novembro de 2001, deparei com uma pequena notícia, na seção de Porto & Mar de 19 de março de 1953, uma quinta feira, sobre o ‘L’Atlantique’, que, em determinado trecho, dizia que o ‘Bremen’ fora o maior transatlântico que havia entrado em Santos. Confesso que fiquei surpreso ao saber que o fita azul ‘Bremen’ havia escalado na Cidade, fato que era desconhecido por mim e por outras pessoas, além de nunca ter ouvido de outros pesquisadores tal fato.

“Em que ano ocorreu a escala?”, perguntei-me. Veio-me à lembrança, a informação do livro ‘Ships of The Panama Canal’ (Navios do Canal do Panamá, sem tradução para o português), de James L. Shaw, editado em 1985: o ‘Bremen’ havia cruzado o famoso Canal do Panamá rumo ao Oceano Pacífico no dia 15 de fevereiro de 1939.

Daí surgiu a dúvida: o ‘Bremen’ passou em Santos antes ou depois da passagem pelo Canal do Panamá?

 

Salão de estar da primeira classe, decorado pelo arquiteto Rudolf

Alexander Schroder. (Reprodução: Livro de Clas Broder Hansen,

’’Passenger Liners from Germany – 1816–1990’’)

 

A dúvida estava prestes a ser elucidada. Na coleção de exemplares de A Tribuna, que registra a História de Santos, com certeza encontraria o que buscava.

Antes de consultar o arquivo de A Tribuna, conversei com um conhecido pesquisador de assuntos marítimos. Após conferir anotações, ele me forneceu a data em que o ‘Bremen’ fizera escala em Santos: 9 de março de 1939.

Assim, soube que a armadora North German Lloyd já havia promovido cruzeiro pela América Latina, em 1936, com o navio ‘Columbus’, que também passara pela Cidade.

Dado o sucesso da passagem do ‘Columbus’, a companhia de navegação alemã programou novo cruzeiro marítimo pela América do Sul, com milionários do Estados Unidos e também com passageiros do Canadá, utilizando o navio que refletia o renascimento da marinha mercante da Alemanha, o fita azul ‘Bremen’.

Para a viagem, o ‘Bremen’ escalou em Mar Del Plata (Uruguai), Buenos Aires (Argentina), Montevidéu (Uruguai) e Santos, de onde seguiu para o Rio de Janeiro e depois para Salvador, na Bahia, último porto brasileiro antes de rumar para o Caribe, com passageiros em Port Spain e Nassau. Chegou a Nova York em 22 de março de 1939.

 

Jornada festiva do Ano-Novo,
na Ilha da Madeira, Portugal.
(Reprodução: Ilustração
representativa do Bremen/
Europa durante cruzeiro
marítimo. (Reprodução)

 

O luxuoso ‘Bremen’ chegou a Santos, em 9 de março de 1939, nas primeiras horas da manhã, sob o comando do capitão-de-longo-curso Adolf Ahrens. Ficou fundeado em frente à Ilha de Palmas: não entrou no porto devido ao calado e também ao comprimento, de 309,5 metros.

Os passageiros vieram para terra a bordo do rebocador ‘Neptuno’, da Wilson Sons, e do ‘São Paulo’, da CDS - Companhia Docas de Santos, concessionária privada, administradora do complexo portuário santista.

O percurso entre o ‘Bremen’ e o cais do Armazém 1 do porto levava em torno de uma hora. Tudo correu em perfeita ordem e o dia estava esplendoroso.

Dos 290 passageiros, 200 seguiram para São Paulo em trem especial, embarcando na Estação da Inglesa, no Valongo.



No Sun Deck do Bremen, em 1930, a célebre atriz Marlene
Dietrich a caminho do primeiro filme em Hollywood.
(Reprodução)

 

Os demais 90 fizeram excursão pelo Centro de Santos, onde apreciaram o café brasileiro, o Restaurante Paulista e a Casa Hespéria.

Depois seguiram para a Praia do Gonzaga, de onde se avistava o ‘Bremen’ fundeado na baía. Visitaram o Parque Balneário Hotel e depois rumaram para Guarujá. Os turistas ficaram encantados com os passeios.

Às 18 horas, teve início o regresso para bordo do ‘Bremen’. O navio deixou Santos às 22 horas.

 

Um dos muitos viajantes ilustres do
’’Bremen’’ foi o maestro italiano Arturo
Toscanini, aqui visto na ponte de comando
na companhia do comandante Hagemann,
nos Anos 30. (Reprodução)


A passagem do ‘Bremen’ pela Cidade nos mostra com clareza que a atividade de lazer em navios de cruzeiros marítimos não é modalidade nova.

Há muitos anos recebemos visitas de navios célebres do Atlântico Norte, como ‘Columbus’, ‘Niew Amsterdam’, ‘Gripsholm’, ‘Rotterdam’, ‘Caronia’, ‘Europa’, ‘Kungsholm’ e ‘Queen Elizabeth 2’.

Deve-se ainda lembrar que houve transatlânticos que marcaram época em Santos, no Brasil e no Mundo.

E também devemos celebrar os atuais navios de cruzeiros marítimos que atracam no Terminal Marítimo de Passageiros do Concais, no cais do Armazém 25, que têm marcado sucessivos recordes de movimentação, confirmando Santos como a Capital Brasileira dos Cruzeiros Marítimos. Isto é, para deixar a região muito orgulhosa. Por isso merece um brinde especial!

Veja mais imagens:


Cartão-postal do transatlântico

germânico ’’Bremen’’. (Reprodução:

Acervo Laire José Giraud)


Cartão-postal da armadora NordDeutscher Lloyd, representando
os três principais navios na rota do Atlântico Norte: ’’Bremen’’,
’’Europa’’ e ’’Columbus’’, na Década de 1930. (Reprodução)


O ’’Neptuno’’, da Wilson,Sons, um dos rebocadores usados para o transporte de
turistas do ’’Bremen’’, da Barra de Santos para o porto: o outro foi o ’’São Paulo’’.
(Reprodução: Wilson,Sons)

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