Para iniciar, transcrevo trecho de um texto de Nelson Salazar Marques, publicado em A Tribuna e no livro de sua autoria, “Memórias de um Mundo Submerso Vol.1”, que considero um verdadeiro tributo à lembrança do Alcantara e às coisas de Santos:

 

“... Mas foi ao Bonde 4 que devia eu uma visão que mais de 30 anos não conseguiram apagar. Eu ia a bordo do bonde costeando a orla das praias em direção ao Clube Internacional de Regatas... Aquela brisa marinha nos chapando o rosto devia ser ali por 1955 mais ou menos....Então, na altura do Aquário Municipal, de relance, meus olhos pegam aquele transatlântico imenso em seu casco negro, rompendo firme as águas em direção à do bonde. Lá estava ele de volta, majestoso e invencível, renascendo das cinzas da Segunda Guerra Mundial.... Lá estava ele, o Alcantara”.

No livro “Navios e Portos do Brasil nos Cartões-Postais e Álbuns de Lembrança”, João Emilio Gerodetti e Carlos Cornejo contam que, no ano de 1924, a Mala Real Inglesa encomendou dois transatlânticos, o Asturias e o Alcantara.

 

O transatlântico britânico Alcantara, da Mala Real inglesa,

entrando na Baía de Guanabara, tendo ao fundo o famoso Pão de

Açúcar. Cartão-postal da pintura de Kenneth Shoesmith (1890-1939),

oficial de Marinha Mercante que pintava os navios da famosa armadora

e dos locais por onde eles passaram. O navio aqui é visto com duas

chaminés. Reprodução do livro Navios e Portos do Brasil de João Emílio

Gerodetti e Carlos Cornejo.

 

Esses navios foram um dos maiores da armadora e por um período, os maiores do mundo movidos por motores diesel. A Royal Mail Line em 1930, mantinha na rota Sul-Americana, oito transatlânticos, a saber: Asturias, Almanzora, Alcantara, Arlanza, Deseado, Desna, Demerara e Darro. Posteriormente, os navios da Nelson Line passaram para a Royal Mail, que foram os seguintes: Highland Monarch, Highland Chieftain, Highland Brigade, Highland Princess e Highland Patriot. Outros navios famosos da armadora foram: o Andes e o Magdalena. Em 1960, entraram em serviço os transatlânticos mistos: Arlanza, Aragon e Amazon. A companhia virtualmente desapareceu em 1971. Mas vamos ao Alcantara, que é o que nos interessa mais de perto.

 

Um dos navios de passageiros mais célebres que já escalaram em Santos foi o Alcantara, da Royal Mail Lines (Mala Real Inglesa), que tinha escritório na Rua XV de Novembro, 190. Durante 31 anos de atividade, ele somente deixou de vir à Cidade durante a Segunda Guerra Mundial.

 

O belo navio de passageiros Alcantara, um dos mais célebres na

rota de Ouro e Prata (Brasil / Uruguai / Argentina), na pintura,

mostrando uma saída noturna do Rio de Janeiro. Esse cartão mostra

o paquete com só uma chaminé, a outra foi retirada durante a

Segunda Guerra Mundial. Acervo: L. J. Giraud

 

O Alcantara enfrentava, em pé de igualdade, antes da Segunda Guerra Mundial, o Cap Arcona, o L’’Atlantique, o Massilia, o Lutetia, o Conte Grande e o Conte Biancamano.

 

Depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), outros que se comparavam ao Alcantara eram o Augustus, Giulio Cesare, Provence, Bretagne, Anna C e Vera Cruz, entre tantos outros.

 

A Mala Real Inglesa era uma armadora muito conhecida, não só em Santos, mas em todo o mundo marítimo, não apenas pela qualidade dos seus serviços de passageiros, como também dos seus cargueiros.

 

Fotografia reproduzida do Asturias, gêmeo do Alcântara, da

Mala Real Inglesa. Suas linhas eram sóbrias e elegantes. Aqui

fotografado por volta de 1931.

 

A armadora britânica, na extensa lista de navios de passageiros, contava, entre outros, com os seguintes : Highland Chieftain, Highland Brigade, Highland Monarch, Highland Princess, o famosíssimo Andes, Amazon, Aragon e Arlanza.

 

Sem deixar de lembrar do Magdalena, que naufragou em 1949, próximo à Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, após deixar Santos, de retorno à Europa, na viagem inaugural.


Quanto ao Alcantara, tomei conhecimento de sua existência na casa do prático de porto Edmar Botto de Melo (já falecido), de quem eu era vizinho e amigo de seus filhos, nos anos 50, quando morava na Avenida Almirante Cochrane, no Canal 5, em Santos, após ouvir que o referido prático havia entrado e feito atracar o famoso Alcantara.

 

Eu também não entendia como um navio inglês trazia um nome português no casco.

 

Cartão-postal do transatlântico Asturias, pintado pelo grande

pintor Kenneth Shoesmith, navegando pelo estuário do Porto de

Santos. Pintura do final dos anos 20 do século passado.

Acervo: L. J. Giraud

 

Muitos santistas ainda se lembram dele com muitas saudades, entre eles Alberto Martins de Oliveira, hoje empresário de informática, que viajou no Alcantara, quando menino para Lisboa, no final de 1953, em companhia de seus pais.

 

Entre muitas lembranças, Alberto Martins de Oliveira recorda-se da sala de brinquedos, onde as crianças de bordo ficavam com monitores ingleses. Apesar das diferenças de línguas, o entendimento entre crianças e monitores era bom.

 

Entre incontáveis imigrantes que viajaram neste navio, um que aqui chegou foi o português Antonio Gomes da Costa, que hoje, aos 85 anos de idade, comanda, com muito empenho, o Restaurante Florença, na Rua Amador Bueno, esquina com Frei Gaspar, no Centro.

 

As dependências do Alcântara, eram luxuosas, como o jardim de

inverno, aqui visto em cartão-postal original da Royal Mail Line.

Acervo: L. J. Giraud

 

Embora, no decorrer da minha infância, tenha visto várias vezes o Alcantara, entrando ou saindo da Ponta da Praia, meu primeiro contato com o transatlântico foi em 1954, quando fui, na companhia de minha mãe, Aura Maria, levar meus tios por afinidade, Arlete e Gérson da Costa Fonseca, este na época prático-mor da Associação dos Práticos da Barra e Porto de Santos (antigo nome da Praticagem, e prático-mor corresponderia atualmente ao cargo de presidente). Gérson Fonseca ia para o Rio de Janeiro, à Diretoria de Portos e Costas do Ministério da Marinha, a serviço da categoria.

Ao entrar na recepção do Alcantara, o que mais me chamava atenção era uma pintura da rainha Elizabeth II, adornada por uma fina moldura dourada, que contrastava com as finas poltronas e carpetes vermelhos, que impressionavam, juntamente com o vozerio dos passageiros, visitantes e tripulantes.

 

O Alcantara surgiu justamente com o navio-irmão Asturias, no final dos anos 20, para fazer frente à forte concorrência entre armadores na conquista de passageiros na rota do Atlântico Sul, onde a presença dos transatlânticos alemães, franceses e italianos era marcante.

 

Mapa mostrando os portos de escala entre

o Reino Unido e a América do Sul.

Acervo: L. J. Giraud

 

Assim o Alcantara fez viagem inaugural em 4 de março de 1927 e despediu-se do nosso porto no segundo semestre de 1958 e foi posteriormente vendido a um estaleiro de desmonte japonês, recebendo o nome de Kaisho Maru.

 

Uma curiosidade sobre o navio é que quando foi lançado tinha duas chaminés. Após a Segunda Guerra Mundial, depois de reformado, veio com uma chaminé, o que modificou sobremaneira o perfil.

 

A bordo do Alcantara, passaram por Santos o príncipe de Gales e o duque de Kent, que se dirigiam a Montevidéu, Uruguai, para a grande exposição britânica.


Cartão-postal original da pintura de Kenneth Shoesmith, representan-
do os navios da série Highland, que eram muito conhecidos nos portos
onde escalavam. A agência da Mala Real Inglesa em Santos, ficava na
Rua XV de Novembro nº 190.
Acervo: L. J. Giraud

Depois da Segunda Guerra Mundial, em que o Alcantara serviu como navio-transporte de tropas, retornou à América do Sul em outubro de 1948, deixando Southampton, Inglaterra, com destino a Buenos Aires, Argentina, com escalas em Lisboa, Funchal (Portugal), Las Palmas (Espanha),Recife, Salvador, Rio de Janeiro e Montevidéu. A viagem levava 17 dias.

O Alcantara não chegou a ser um navio bonito, mas era elegante, confortável, bom de navegação e de manobra.



Uma capa de cardápio de jantar de um dos

navios da Mala Real Inglesa, onde estão

fotografados os bailarinos espanhóis Flora

Albaixin e Antonio, fotografados por Roy

Round em 1955. Acervo: L. J. Giraud


Tudo isso aliado a uma excelente tripulação, segundo o prático Gérson da Costa Fonseca, cuja primeira manobra no Alcantara ocorreu em janeiro de 1948.

Ficha Técnica:
Nome
: Alcantara
Bandeira: Grã-Bretanha
1.ª armadora: Royal Mail Steam Packet Company, Mala Real Inglesa
Outro nome: Kaisho Maru
Tipo: Transatlântico
Estaleiro: Harland & Wolff, de Belfast
Viagem inaugural: 1927
Tonelagem de arqueação bruta (tab): 22.181 t
Comprimento: 199 m
Boca (largura): 23 m
Velocidade média: 17 nós (31,5 km/h)
Passageiros: 1.410 na 1.ª classe, 232 na 2.ª e 768 na 3.ª

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