Quinta, 25 Abril 2024

Fico impressionado como certos acontecimentos ocorridos em nossa infância, repentinamente eclodem das nossas memórias, trazendo lembranças de décadas atrás.

 

No meu caso em particular, lembro perfeitamente de uns ônibus que ficaram conhecidos como Gostosões, por seu desenho  especial, que chamava atenção das pessoas por onde passavam. Circularam por nossas ruas e avenidas entre 1948 e 1955. Eram bonitos, elegantes, vistosos, confortáveis, macios e arejados.

Momento do desembarque de um dos vários GM Coach TDH-4008

(Gostosão) para um dos vagões da São Paulo Railway, com destino

à fábrica GM de São Caetano do Sul. - Porto de Santos – 1947.  

Acervo: Laire José Giraud

 

Esses ônibus, eram idênticos aos que circulavam nas principais cidades dos Estados Unidos como Washington D.C., Nova York, Boston, Chicago, San Francisco, Los Angeles, entre outras. No Brasil, com mais precisão, nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Santo André e Santos, que  foram agraciadas com os serviços de transporte urbano dos Coaches (“cóches”, como pronunciávamos). No Rio de Janeiro recebeu o apelido de Gostosão, como era mais conhecido no Brasil. Um detalhe, sermos vistos dentro do Gostosão era sinônimo de status. Muita gente da época chegava até a fazer poses ao subir ou descer dessa verdadeira maravilha.

 

Antes de prosseguirmos nesse passeio através de imagens do Gostosão, gostaria de dizer que este artigo não é técnico, mas apenas reminiscências. Portanto, tudo aqui é “en passant”.


Foto da chegada de vários GM Coaches urbanos na fábrica GM
de São Caetano do Sul para as revisões de praxe antes da entrega
aos seus proprietários – 1947. Acervo: Roberto Sulkiewicz

 

O Gostosão era um ônibus fabricado pela General Motors nos Estados Unidos. Os que circularam em Santos, chegaram em 1947, e eram os modelos GM TDH-4008, A primeira letra queria dizer T de Transit (Urbanos), a segunda letra era o combustível Diesel e a terceira letra H – Hidramático. Os numerais significavam 40 (quarenta passageiros) e 08 a série de fabricação. Assim o modelo GM e TDH-4008 era o que circulava em Santos. No Rio de Janeiro era GM TDH-4010, pertencentes à Viação Relâmpago. Em São Paulo pertenceram à CMTC, e tinham as cores idênticas às usadas nos bondes camarões: vermelho com bege.

 

Os coches ou Gostosões de Santos, foram adquiridos pelo empresário Manoel Dieguez, proprietário do Expresso Brasileiro Viação Ltda., mais conhecido como EBVL, que iniciou suas atividades no dia 1º de setembro de 1944, com 12 linhas e ônibus novos. Em 1948, Manoel Dieguez proporcionava a Santos e São Vicente um dos melhores transportes de ônibus do Brasil. Foram adquiridos 45 coaches, nas cores verde e amarelo, o  que nos transmitia uma grande e maravilhosa sensação de brasilidade.


Cartão-postal mostrando um Coach GM – Gostosão, do EBVL, que fazia
uma das várias linhas urbanas de Santos, passando nas imediações da
Praça da Independência, vendo-se à esquerda o antigo Parque Balneário
Hotel, e à direita, o Atlântico Hotel. – 1951. Acervo: Laire José Giraud

 

Vale lembrar que o Expresso Brasileiro Viação Ltda., além do serviço urbano, mantinha a linha rodoviária entre Santos e São Paulo, São Paulo e Rio de Janeiro e vice-versa.

 

Aqui vamos ver algumas imagens de vários Coaches, ou Gostosões, sendo uma delas em Santos e outras cidades. Inclusive, uma foto de TDH restaurado, que se encontra no Museu de Birmingham-Alabama - Estados Unidos.

 

O apelido de Gostosão foi dado pelo bom humor dos cariocas, em razão do grande sucesso, conforto e simpatia que causava aos seus passageiros.


Á esquerda do cartão-postal vemos um Coach da CMTC, um bonde
camarão e à direita, um ônibus urbano, na famosa Av. São João da
capital paulista. – Início dos anos 50. Acervo: Laire José Giraud

 

O que  chamava atenção além da beleza e do design moderno até para os dias de hoje, era o ronco do seu motor (inconfundível) e o som produzido por seu freio a ar comprimido quando era utilizado. Passado mais de 50 anos, aquele “tchi-tchi-tchi” do freio ainda permanecem nos meus ouvidos.

 

Tenho muitas lembranças ligadas ao Gostosão, principalmente o da linha 5. A primeira foi a glória de um dos seus pontos de parada ter sido em frente à residência onde passei a minha infância, na Av. Almirante Cochrane, 104. Isso me proporcionava um espetáculo contínuo.


O Gostosão da CMTC - Companhia Municipal de Transporte Coletivo,
circulando nos anos 50 por uma das ruas de São Paulo.
Reprodução.

A outra recordação foi em 1952, quando tinha 7 anos, saboreei um delicioso doce de uma das várias confeitarias que existiam no Centro, e pouco depois, na companhia de minha mãe, embarcamos no ponto de partida, da Praça Ruy Barbosa, com destino à nossa casa. Resultado, o doce me provocou um desarranjo orgânico, e não houve tempo suficiente para chegar em casa. Coitado do Gostosão. A última foi quando jogávamos futebol em plena Almirante Cochrane, quando um chute mal dado, levou a  bola  para debaixo da roda traseira do ônibus. Não preciso contar o que aconteceu com a bola.



Um Coach modelo TDH que prestava serviços urbanos em
uma das cidades dos Estados Unidos. Reprodução: Internet.


Sempre tive muita vontade de contar alguma coisa a respeito do Gostosão, ou se preferirem do Coach, mas não me sentia motivado para isso, pela simples razão da falta de informações e até de ilustrações. Até que escrevi dois artigos sobre os bondes. Num deles, recebi no PortoGente um excelente comentário enviado pelo sr. Murillo César Caetano, que alavancou o presente artigo. Eis o comentário:

 

“A matéria sobre os antigos bondes de Santos é ótima, principalmente para quem viveu essa época. Em 1947 eu cursava o Ginásio Luso Brasileiro, que ficava na Conselheiro Nébias onde hoje fica o Sesc. Nessa época, a empresa Expresso Brasileiro, que fazia o serviço de ônibus na cidade, importou dos Estados Unidos os famosos "GM Coach", que eram providos de freio a ar e logo foram apelidados pela população de "Gostosão". Lembram? Nessa época, nenhuma cidade do Brasil possuía transporte urbano melhor que a nossa cidade. As poltronas eram estofadas, o feixe de molas do veículo dava aos passageiros a sensação de viajar sobre plumas. Você estava sentado, o cobrador vinha, você pagava a passagem e recebia uma ficha plástica. Ao desembarcar, a ficha era depositada em uma caixa de vidro que ficava junto à porta. Será que algum dos ilustres articulistas possui material sobre esses ônibus? Gostaria que a matéria dos bondes fosse estendida ao Expresso Brasileiro, do Sr. Diegues”.



A foto mostra vários Gostosões que prestavam
serviço à cidade de Washington DC. 1952. Foto: Reprodução.

A realização desse artigo deve muito às seguintes pessoas: Roberto Sulkiewicz, Wanderey Duck, Julio Augusto Rocha Paes, Samuel Gorberg e Comandante Dufriche, José Carlos Silvares, pessoas a quem recorri e prontamente fui atendido com valiosas informações. Consultei também o site Novo Milênio e RailBuss, que tornaram possível trazer para o presente, através de imagens,  o inesquecível GM TDH-4008, o Coach Gostosão do EBVL que foi, uma das grandes alegrias da minha infância. Como era bom andar no Gostosão!


O famoso 2857 pertencente ao Museu de Birningham,
era um GM TDH. Foto: Reprodução.



O Parlour Coach GM (ônibus rodoviário),
do Expresso Brasileiro, na via Anchieta.
A cor do coach urbano era semelhante 
ao que aparece no cartão-postal. – 1950.
Acervo: Laire José Giraud

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