Lembro-me de um evento internacional que participei em Sydney, na Austrália, em 2006. Era a Conferência Mundial das Cidades-Portos, onde diversas administrações portuárias de várias partes do mundo se reuniram e apresentaram algumas de suas experiências na tão conturbada relação porto-comunidade. O evento é até hoje promovido pela entidade Association Internationale des Villes Portuaires (AIVP).

Na ocasião, a palestra que mais me interessou foi a dos sul-africanos – sem esquecer que o Brasil estava representado pela cidade de Santos. Eles apresentaram antigos bondes que foram restaurados, algo que fiquei envergonhado, não pela importância histórica dos bondes santistas, mas pela prioridade de projetos que o maior porto do Brasil deveria abordar.

Voltando aos sul-africanos: eles apresentaram o novo terminal portuário que estavam colocando em operação, especialmente para químicos e inflamáveis. O que mais chamava a atenção era o seguinte: esse tipo de operação, tanques, cais e infraestrutura de retroárea deveriam situar-se fora de centros urbanos, preferencialmente distante pelo menos 30 quilômetros deles. Mostravam que todos estavam indo nessa direção com seus novos terminais: canadenses, holandeses e por aí vai.

Eu, então, um paranaense atuando profissionalmente na Administração do Porto de Paranaguá e Antonina (Appa), com o trauma de 2004 com a explosão do navio chileno Vicuña, pensei: “É viagem isso no Brasil.”

Aquela palestra me deixou abatido, pois não temos em nosso país uma cultura de segurança do trabalho e das operações industriais de alto risco, como é o caso das atividades portuárias, especialmente com químicos e inflamáveis. Os municípios brasileiros e seus prefeitos de baixa qualidade em gestão licenciam qualquer coisa, desde loteamentos residenciais ao lado de terminais portuários, até terminais ao lado de edifícios residenciais. É tudo misturado, pois a corrupção micro e macro está entranhada nas administrações públicas.

Os órgãos ambientais? Ah, eles se preocupam com outros “bichos”, a segurança das pessoas está mais para os policiais militares dos quartéis dos bombeiros e das precárias defesas civis dos pobres e mal equipados municípios.

Então vamos relembrar alguns dos maiores eventos no entorno portuário na última década no Brasil:

2004 – Explosão do navio Vicuña, que operava inflamáveis em terminal privado no porto de Paranaguá, no Paraná.

2013 - Explosão em terminal de fertilizantes no porto de São Francisco do Sul, em Santa Catarina, que armazenava nitrato-de potássio, matéria-prima para explosivos.

2015 - Incêndio em terminal de derivados de petróleo e químicos em Santos.

Esses três eventos mostram que, além de Deus ser “brasileiro”, a sorte tem minimizado ou evitado tragédias. Na noite da explosão do navio chileno em Paranaguá, ocorria a Festa de Nossa Senhora do Rocio, na igreja católica e ruas adjacentes com barraquinhas de comidas e bebidas, com a presença de aproximadamente seis mil pessoas diariamente. Sabem qual a distância do píer em que se encontrava o navio que explodiu e os milhares de pessoas que assistiam ao show da cantora Alcione?  800 metros! Um voluntarioso e despreparado guarda-municipal gritava: “Corram que vai explodir tudo!”.

Em 2013, algo se repetiu em São Francisco do Sul, cuja névoa da fumaça poluente chegou à Paranaguá, distante 80 quilômetros a norte/nordeste levados pelos ventos.

E Santos com o incêndio no terminal da Ultracargo, que lições nos trazem?

A Festa do Rocio continua em Paranaguá, o píer opera normalmente, os terminais de São Francisco tocam a vida e Santos continuará sua vida de sempre e os licenciamentos no perímetro urbano são emitidos a toda a hora.

Por isso tudo digo: Ah, esses sul-africanos me deixam envergonhado. Quando aprenderemos as lições? Com a palavra a agência reguladora (Antaq) e a Secretaria de Portos da Presidência da República (SEP-PR).

É a minha opinião.

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