Na próxima segunda-feira, 14 de julho, terminada a Copa do Mundo, começa em Fortaleza, no Ceará, uma nova reunião dos BRICS. Talvez o leitor se pergunte: e daí? Afinal, a sigla tem estado esquecida nos últimos anos, período em que os países que compõem esse acrônimo (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) se voltaram para o enfrentamento de seus próprios (e antigos) problemas internos e perderam, talvez, sua grande oportunidade de protagonizar a virada econômica num mundo em crise.

Vale recordar que a sigla BRIC (o S só apareceu em 14/4/2011 com a inclusão da África do Sul) foi criada num estudo desenvolvido em 2001 pelo economista inglês Jim O'Neill.

Isoladamente, estes países estão entre os 25 maiores do mundo em área, população, PIB/PPC ou consumo de eletricidade, para citar alguns indicadores. Símbolo da disparidade que enfrentam, estão nas posições médias ou finais em Índice de Desenvolvimento Humano, liberdade econômica e outros indicadores que levem em conta aspectos sociais. E a balança comercial de vários deles (excetuando China em 1º e Rússia em 4º) é constrangedora: 179º lugar para África do Sul, 182º para a Índia e... 187º para o Brasil!.

A razão pela qual estes cinco países chamaram a atenção do criador da sigla é que, somados, têm peso significativo na economia mundial, superando EUA ou União Europeia. E continuam crescendo: em 2003, representavam 9% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, passando para 14% em 2009 (antes da entrada da África do Sul), ou 18% em 2010 (já incluindo este país). Se considerada a paridade do poder de compra (PPC), representavam naquele ano US$ 19.057 bilhões, ou 25% do PIB mundial.

Imagem: site Brics/Brasil

Espera-se que o grupo se fortaleça, sob o sol do Ceará...

Na opinião do professor Oliver Stuenkel (FGV/SP), o BRICS Summit 2014 "será um dos mais importantes encontros de líderes globais este ano, reunindo o inimigo nº 1 dos EUA, o líder da próxima maior economia mundial, a líder do maior país da América Latina, o líder mais poderoso da África (apesar de estar cada vez mais em apuros), e o homem que supostamente trará a Índia de volta ao eixo".

Além disso, referindo-se a um encontro que ocorrerá em Brasília no dia 16, destaca o professor que "a decisão do Brasil de convidar todos os líderes sul-americanos para conhecerem Xi, Modi, Zuma e Putin após a cúpula como parte de uma 'extensão' é uma tentativa sagaz para se posicionar como líder e representante da região. Se estruturada da maneira correta, a maratona de cúpulas em meados de julho não só ajudará a fortalecer os laços do Brasil com as principais economias emergentes do mundo, mas também mostrará aos seus vizinhos que Brasília tem um projeto regional que envolve a ligação de todo o continente com o mundo".

Será que o acolhedor sol de Fortaleza ajudará a fortalecer um grupo que, segundo afirmações publicadas no jornal Financial Times, "já era"? O caminho é longo, basta ver as dificuldades que as nações europeias, vizinhas entre si, enfrentam há décadas para a sua integração. Pelo menos, o grupo já tem um endereço na Internet, desde junho, o que não deixa de ser uma resposta de institucionalização aos que apontam a desunião do grupo.

Informa o site que "entre outros temas, os mandatários dos BRICS deliberarão sobre o Arranjo Contingente de Reservas (CRA) e sobre o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD). O CRA constitui linha de defesa adicional para os países do BRICS em cenários de dificuldades de Balanço de Pagamentos. O NBD financiará projetos de infraestrutura e de desenvolvimento sustentável".

O encontro cearense deve permitir também o debate sobre a ampliação do comércio de produtos de alto valor agregado entre os países do BRICS, e sobre a proposta sino-russa para expansão da cooperação comercial e de investimentos recíprocos.

Também será continuada a análise sobre a criação de uma Estratégia de Cooperação Econômica do grupo, iniciada na reunião de 2013 em Durban, com o objetivo de aumentar a sua competitividade no cenário global. Provavelmente, sem decisões finais neste quesito, que ficarão para o próximo ano.

Bem, se as negociações não avançarem significativamente agora, a próxima reunião do grupo já está marcada: será em 2015 na Rússia, numa cidade da república federada da Basquíria, com nome que soa bem sugestivo de um alívio nas dificuldades hoje enfrentadas por este novo bloco econômico: Ufa. Será?

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