O que você entende por carro com "tecnologia aperfeiçoada para as estradas brasileiras"? O mesmo que eu, decerto. É um carro preparado para suportar mais solavancos, crateras, desníveis e infinitos problemas relacionados ao padrão brasileiro de manutenção rodoviária. Se restar alguma dúvida quanto à interpretação do que seja isso, lá estão as imagens, passando na tela simultaneamente com tal afirmação: o veículo trafegando por uma pista de testes cheia de grandes calombos, "simulando" as tais estradas brasileiras...


O exemplo mais recente dessa "tecnologia" - mas não o único

É razoável pensar em adaptação dos veículos "de classe mundial" para os combustíveis usados no país e para climas mais quentes. Mas, vale como um tapa na cara dos brasileiros mais esclarecidos o eufemismo usado nos anúncios de veículos novos, para disfarçar que os ajustes foram feitos para suportar as nossas pistas de teste "off-road", oficialmente descritas no mapa como estradas de rodagem.

Enquanto os norte-americanos e europeus se preocupam mais com eufemismos "politicamente corretos" e as consequências jurídicas para quem se afasta dessas normas, o Brasil produz outra classe de eufemismos, na verdade mais destinada a disfarçar para o consumidor a realidade de um país em que tudo é "especial", desde a tecnologia para rodar nas estradas "especiais" de nosso país, até a forma de se referir a carros usados, de segunda mão. Eles, como os imóveis, não são mais "usados", são "seminovos".

Logo veremos, talvez, mulheres semigrávidas. Estamos semipresos em nossas casas pelo crime desenfreado, praticado por semicrianças que brincam de bandido e polícia com seus revólveres carregados e podem ser analfabetas, mas sabem na ponta da língua que artigos da Constituição invocar em sua defesa. São "di menor".

Em meio aos eufemismos que tentam suavizar a dureza da realidade nacional, também estamos semimortos graças ao sistema médico brasileiro, com seus semi-hospitais, semiambulatórios, médicos semiformados, semiplanos de saúde, todos funcionando apenas parcialmente... se tanto!.

Temos um Congresso em duas metades que não se completam, bem simbolizadas pela arquitetura de sua sede brasiliense. Temos leis com apenas metade da força, podem pegar ou não.

Temos também – no máximo - meia Educação, meia Justiça, meio sistema habitacional, meio investimento em pesquisa e desenvolvimento, meio planejamento urbano e logístico, meia cultura, meia Internet, meia telefonia, meia fiscalização de qualidade nos produtos, meio controle do sistema financeiro, ferrovias semiacabadas, meias hidrovias, meio sistema energético, meias condições para a economia crescer... só os impostos são mais que completos, são até o dobro do que em outros países...

Foto: http://www.marlieria.net/site/?p=noticias_ver&id=31

MG-760, em 2011: exemplo clássico de meia estrada

Até os estádios (perdão, arenas) da Copa do Mundo estão semiprontos, como se fossem aqueles alimentos que é só esquentar e servir. Foram onze anos para que o Brasil se preparasse, e já sabemos que nem assim estarão terminados para o evento, mesmo com as broncas da Fifa. Pior ainda são as soluções de infraestrutura para o evento, com aeroportos pela metade e contas das empreiteiras em dobro.

E, passados os jogos, muitos locais ficarão semiabandonados, cumprindo a sina dos grandes empreendimentos públicos, "meio planejados", para usar mais um eufemismo, daqueles que caem por terra junto com as obras semiacabadas.

Nos últimos anos, o Brasil deu meio passo à frente para realizar seu potencial como grande nação. Mas, com tanto enfeite vocabular, tentando mascarar mazelas não corrigidas, o país deu passo inteiro para trás, perdendo a grande oportunidade de consertá-las quando seria mais fácil com o dinheiro do mundo inteiro fluindo para cá. Fazendo tudo meia-boca, pela metade, o país gasta em remendos e tempo perdido bem mais do que se fizesse certo de uma só vez.

Mas, num país moralmente mais inteiro, os conchavos entre certos políticos e empresários não teriam tanta oportunidade para suas negociatas à meia voz. E nós, brasileiros, não teríamos talvez a oportunidade de gastar pequenas fortunas em suaves prestações mensais, para substituir os velhos carros pelos tais seminovos ou por veículos de última geração, com "tecnologia aperfeiçoada para as nossas estradas"...

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