O passado já passou, o futuro sempre será futuro. No atual estado da tecnologia, não podemos voltar ao passado, por melhores que tenham sido os "velhos bons tempos", nem podemos avançar para o futuro radioso, que nunca chegará porque se chegasse não seria futuro. Entre esses dois tempos, resta-nos o presente, que apenas podemos comparar com o que já foi e projetar como cenário do que virá.

Digo isso para lembrar que temos exemplos quase infinitos de como a imprevidência e a falta de planejamento levam aos desastres anunciados, e basta observar os erros latentes na realidade presente para adivinhar, sem mágicas ou vidências mediúnicas, os desastres que nos esperam. Nada a ver com pessimismo, aliás: como é tradição no país, as tragédias anunciadas nunca são evitadas.

É fato que as expectativas são de duplicar a movimentação de cargas pelo porto de Santos nos próximos dez anos. É fato que o Brasil precisa ampliar o comércio exterior, para equilibrar sua economia. É fato que obras de infraestrutura não existem prontas, demoram muitos anos desde a concepção até que possam ser usadas. E é fato que as autoridades, os empresários, os políticos, todos falam que é preciso fazer algo, mas a inércia, os desentendimentos, os interesses mesquinhos, tudo conspira contra essas realizações.

Neste dia 24 de fevereiro, 30 anos atrás, um oleoduto podre, um erro operacional, uma jogada eleitoreira, inércia e outros interesses menores se juntaram para produzir uma tragédia, o incêndio de Vila Socó. Uma centena de mortos no arredondamento da contagem oficial, talvez outros quatrocentos simplesmente pulverizados em cinza na gigantesca bola de fogo que destruiu a favela, situada bem sobre um oleoduto, próximo ao porto de Santos.

Imagem: Rede Globo de Televisão/arquivo

Vila Socó em chamas, 30 anos atrás. Na tradição nacional, a tragédia sempre acontece, mesmo com tempo para ser evitada

Da mesma forma que, nesse caso, tudo podia ser previsto e ainda assim aconteceu, os fatos relativos ao escoamento das exportações estão aí, as previsões feitas, e ano após ano, mesmo com a situação piorando, apenas remendos pequenos são feitos, e mesmo esses a muito custo.

O plano para o escoamento das safras – que pelo menos duas empresas, pelo visto, resolveram não cumprir, mesmo enfrentando multas consideráveis (por que será, hein?) – é apenas um paliativo, que ajudaria a diminuir um pouco o sufoco atual. Mas é evidente que, por melhor que seja feito, não resolve. Duplicar a movimentação de cargas implica em duplicar a quantidade de carga a ser transportada nas estradas, e todos sabemos que não basta só eficiência na passagem dos caminhões, é preciso que as estradas comportem todo o fluxo previsto.

Sem falar que qualquer imprevisto terá consequências cada vez maiores: um caminhão quebrado no meio da estrada vai atrapalhar a passagem de muito mais veículos em futuro próximo do que hoje, congestionando muito mais o trânsito e provocando muito mais prejuízos.

Na história de Vila Socó, como na da boate gaúcha Kiss, os alertas prévios foram negligenciados e deu no que deu. Em muitos acidentes aéreos, como o do avião da TAM em Congonhas, a tragédia acontece não por causa de um erro isolado, mas devido ao acúmulo de negligências.

O que faz a represa transbordar não é o volume de água já acumulado até a borda, mas aquela gotinha a mais, que desencadeia todo o processo. O que pode fazer os importadores desistirem do Brasil não será, da mesma forma, uma falha aqui ou ali, naturais, mas a constância, a permanência, de um conjunto de problemas não resolvidos, a falta de interesse em resolvê-los. Como a represa, a paciência também tem limites.

E os importadores já mandaram seu recado. Parece que, como é de tradição neste país, ninguém ouviu.

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