Da mesma forma que você, leitor, eu também abro as páginas dos jornais, ouço os noticiários na TV. Mas eu também comparo os tempos atuais com outros que conheci, mais dinâmicos, melhor planejados e menos corruptos. Tempos em que a caixinha máxima de 20% num contrato já era motivo de escândalo.

Hoje, vejo contratos públicos com preços superfaturados em mil por cento no Rio Grande do Sul. Pior, obras pagas assim e nem assim realizadas. Vejo a sucessão de escândalos, a cara de pau dos personagens que aparecem nas imagens chorando lágrimas de crocodilo. Vejo pessoas eleitas pela população (em tese, pois não confio na urna eletrônica brasileira) fazendo teatrinho de inocentes enquanto zombam do mesmo público que as elegeu, sabendo que a máquina partidária se encarregará de garantir as reeleições ou generosos cargos para quem precisar se afastar dos holofotes por uns tempos.

A temporada das chuvas está de volta. Há uma verdadeira inundação de dinheiro público para fazer as obras contra enchentes nas serras fluminenses e mineiras, mas elas não ocorrem. Até a ajuda às vítimas é desviada. Novas tragédias vão ocorrer, como se a ganância de certas autoridades não fosse talvez a tragédia maior que este país enfrenta hoje. O pouco que é feito, é pela metade, apenas o suficiente para entrar o dinheiro principal no bolso.

No litoral paulista, garantiu-se em muitos anúncios que não faltariam água e eletricidade. Elas faltaram em grandes proporções, e as autoridades tiveram a audácia de se dizerem surpreendidas com as causas: afluência de turistas ao litoral no verão.

A Copa 2014 se aproxima rapidamente, e apesar dos chutes no traseiro dados pela FIFA, as obras em alguns lugares sequer começaram. Serão feitas de qualquer jeito, para garantir os polpudos contratos, e quando o guindaste cair de novo, ou qualquer nova tragédia acontecer, a culpa será do destino, do azar, qualquer coisa, menos da incompetência das doutas autoridades e excelentíssimos cartéis de empresas.

Um caso que vazou...

Digo isso porque gostaria de estar aqui comentando as grandes obras em curso para mudar este país para melhor... e não consigo. No setor rodoviário, o velho caos dos buracos que vão se emendando e tragando a produção agrícola e industrial. No ferroviário, empresas enroladas até o pescoço, perdendo concessões... ou fazendo cabo-de-guerra para faturar altíssimo (com garantia total dos investimentos) em novas obras. Sendo pagas para assinar papéis e nem assim satisfeitas, querem mais, muito mais. No setor aeroportuário... melhor não assustar os passageiros.

Nas telecomunicações, uma empresa paralisa uma região inteira com apagão de telefonia e Internet – sendo que essa empresa resultou da entrega de mão beijada deste setor estratégico a estrangeiros, justamente para que eles garantissem a modernização. Faça um telefonema do exterior ao Brasil e do Brasil para o exterior e veja a diferença brutal na conta que lhe apresentam. Na área da energia, o desconto dado nas tarifas pelo governo estadual é comido pelos governos estaduais, "para garantir a rentabilidade das empresas do setor elétrico". Quanto a garantir o fornecimento da energia...

Em todo este caos, só a bandidagem comemora, já pensando em quantos turistas mais vai esfaquear e matar na próxima Copa, e projetando os lucros com a venda de cocaína, com a garantia de todo um sistema de falta de valores, de incúria, de desinteresse pela segurança pública - apesar de ela ser regiamente paga via impostos.

Podem parecer assuntos estanques, fatos isolados, mas eles se juntam para compor um quadro terrível. Um quadro em que o brasileiro médio é espoliado nos impostos escorchantes, dinheiro que não retorna minimamente em obras e serviços públicos pelos quais tem de pagar novamente, e agora é também explorado ao extremo pelo comércio e pela indústria de seu próprio país (ladrão na esquina é café pequeno, em comparação).

Dias atrás, alguém insatisfeito com o preço de uma autopeça numa concessionária brasileira resolveu comprar o produto pela Internet. Pagou 304 dólares por algo que na concessionária custaria R$ 3.500. Ao receber o produto, descobriu que ele foi fabricado aqui no Brasil. Só que, por artes do sistema econômico nacional, o mesmo produto não pode ser vendido diretamente aos brasileiros, no próprio país.

Ou seja, a pessoa importou um produto nacional, aumentou sem necessidade o peso na balança de divisas que já desestabiliza a economia nacional, pagou um "pedágio" no exterior para adquirir um bem aqui produzido. E ainda gastou muitas vezes menos do que se comprasse na loja da esquina. Isso é ciência econômica?

Agora, multiplique este exemplo por milhares de outros que estão ocorrendo agora mesmo. Milhões de produtos, muitas vezes nacionais, sendo importados em muitos casos por 10% do preço cobrado nas lojas. Agora mesmo, flagrei uma conhecida rede varejista fazendo "oferta" de telefones celulares Nexus 4, de R$ 1.359 por 1.199, economia incrível de 160... num produto que três dias antes a mesma loja vendia por R$ 809. Nos Estados Unidos, US$ 199. Como é que – sem nenhuma hecatombe econômica acontecendo – um valor já alto cresce 48% em três dias?

E assim, de pilantragem em pilantragem, de corrupção em corrupção, de incompetência em incompetência, o Brasil perdeu sua grande oportunidade de crescer num mundo que apostava enfim neste país. No horizonte deste 2014 e dos próximos anos, não mais temos uma perspectiva gloriosa, como profetizavam os analistas, mas um cenário preocupante, em que os mesmos problemas hoje enfrentados na economia, na logística, em todo o setor de transportes, apenas se acentuarão.

Que o leitor tenha um próspero 2014.

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