‘Navios Iluminados’, obra de 1937 já apresentada anteriormente na coluna (Pelo Macuco de 1930), volta ao espaço. Desta vez, o destaque é para as descrições que o autor Ranulpho Prata, médico de profissão, faz dos acidentes de trabalho e das condições de vida dos trabalhadores que habitavam o bairro portuário do Macuco.

O personagem principal do romance é José Severino, um jovem migrante de 23 anos de Patrocínio do Coité, no sertão da Bahia, que chega a Santos em outubro de 1926 para trabalhar como estivador. Antes de entrar na estiva, trabalha como ferrugeiro, limpando cascos de navios nas oficinas da Companhia Docas de Santos, e como foguista de draga.

Felício, amigo com quem divide um quarto de pensão, é a voz que reclama das condições no cais santista. Ainda no primeiro capítulo, quando chega de um dia de serviço, relata ao amigo ainda desempregado:

– Vou ao banho. Estava embarcando caroço de algodão. Amanhã o corpo é puro calombo. E vai coçar que é uma desgraça.

Os comentários de Felício dão uma mostra das dificuldades dos estivadores. Em seu primeiro dia de trabalho como ferrugeiro, Severino passa apuros com o manuseio do martelo de ar comprimido que tira a ferrugem dos cascos dos navios, cujo barulho e vibração atormentam o trabalhador que recebe uma chuva de escamas de ferrugem nos olhos e na boca. Na segunda semana de trabalho, sofre um acidente durante a troca dos rebites das placas de aço dos navios. Um rebite, modelado na forja e ainda vermelho de quente, escapa e atinge o braço de Severino, o que lhe garante a primeira visita na Associação para um curativo. Já como foguista na draga, a primeira medida para que o carvão que alimenta as caldeiras não "lhe roa o corpo" é pular no mar após o serviço.

Depois de alguns meses, ele começa na estiva: o trabalho da turma 65 é marcado pelos pesos de cargas acima dos limites (bacalhau com oitenta quilos, alho com setenta e cinco), pelos acidentes de trabalho (sofridos ou presenciados) e pela insalubridade dos armazéns frigoríficos.

O primeiro acidente sério acontece com um colega da turma, o espanhol Peniche:

"Foi o velho Peniche, o "ceguinho", que sofrera um tranco. Peniche tinha o olho direito inutilizado, da cor de ovo cozido, não enxergando desse lado, de modo que ao virar o rosto, no arre-arre da lingada, bateu na bola de cem quilos que desce na ponta do cabo. A pancada foi forte, porque o velho emborcou, com um animal golpeado na nuca. Os companheiros, num gesto instintivo de solidariedade, acudiram logo, levantando-o e pondo-lhe a cabeça debaixo da torneira. Apesar do pronto remédio, uma inchação repentina tapou todo o olho do velho. Parecia um bêbado, não se agüentando em pé. Mesmo assim, quis recomeçar a trabalhar com medo de perder o extraordinário". Peniche só concorda em ir para casa depois que os colegas o convencem de que repartiriam o extraordinário com ele. A partir deste momento do romance, as descrições são constantes:

"O serão acabou por volta de meia-noite. A carga tirada dos porões do Britt Marie tinha sido das piores: enxofre a granel. Os homens sentiam queimar a pele das mãos e do rosto. Os olhos incomodavam mais, lacrimejando, irritados, parecendo ter, repentinamente, pilhado uma ‘dor d’olhos’. Severino, para aliviar a queimação, molhava-se embaixo da torneira".

Felício aconselha:

- Deixe dessa tolice, não adianta. O remédio é passar, logo que chegar em casa, óleo de rícino, que refresca. Mesmo assim, daqui a uns dias está descascando que nem barata.

A necessidade de economizar também causava contratempos, como narra o autor no trecho a seguir:

"Uma vez até vira o Canadas ter uma vertigem ali pelas três horas da manhã, num serão apertado. Não era cansaço. Era fome. Todos notaram: não foi jantar em casa, não gastou na cantina e continuou a trabalhar pela noite adentro, só com o almoço das dez horas. Como costumava fazer daqueles jejuns para juntar dinheiro, deu-se mal desta vez, afocinhou no chão como se levasse uma marretada no pé do pescoço".

Um dos acidentes mais graves acontece com um colega de turma, o pernambucano Perigo:

"Por volta de meia-noite, logo que regressaram de um café na cantina, deu-se o acidente. Como sempre sucede, não se achou explicação para o caso. Não se sabe se a culpa foi do guincheiro que estava desatento, se do portaló que não via bem o fundo negro do porão já quase limpo da carga ou do próprio Perigo. O fato é que só havia duas caçambas embaixo. Uma já de cogulo e a outro Perigo e Pepe acabavam de encher, acurvados. Engatada a primeira, o portaló deu sinal de arribar e não se sabe como lá se vem o diabo da caçamba abarrotada e pega o Perigo pelas costas, atirando-o violentamente para um canto, como uma bola na parede. Gritos, muitos gritos. Suspensão rápida de trabalho. O Malhado (feitor da turma 65) desceu ao porão, apressadamente. Atrás dele, foram o portaló e o pessoal da galera. Lá no fundo, Perigo, cercado pelos companheiros, estava estirado num leito de carvão, confundindo-se com ele. Puxaram-lhe a lâmpada para perto do rosto. Roncava como se estivesse dormindo, botando pelas grandes ventas dois canudos de sangue. O tórax hercúleo ia lá e vinha cá, numa respiração difícil, de quem tinha fome de ar".

Perigo é levado de volta ao cais dentro do maquinário que levava a carga – "carvão de verdade" – e, depois de um passeio pelos ares e levado por uma ambulância ao hospital. Após a partida do resgate, Severino pretende abandonar o serviço do dia, mas ouve do feitor que acidente acontece em qualquer lugar, que é do trabalho e que o vapor precisava partir às seis horas.

Ao trabalhador que tenha sofrido algum acidente grave, só resta um futuro como o de Pato Tonto, ex-estivador que sofreu o impacto de oito sacas de café caindo sobre o corpo em um porão de navio. Depois de meses no hospital, ainda mantinha seqüelas do acidente que lhe garantiram o apelido, pelo jeito torto de andar.

"Pato Tonto, naquele estado físico, quase não tinha préstimo. Mas a companhia o foi aproveitando em servicinhos leves, compatíveis com as suas forças. Andou como servente pelos armazéns, lixeiro das ruas do cais e, afinal, como zelador de mictórios e latrinas do 22. (...) Anos e anos em tal serviço, Pato Tonto acabou pegando um cheirinho de gabinete sanitário. Quem se aproximava dele, sentia logo a morrinha que se lhe entranhara no corpo".

José Severino não se importava com "sal e o enxofre que lhe queimavam o rosto e as canelas; o frio das carnes congeladas; caixas de banha de setenta e cinco quilos que lhe dobravam o lombo; tambores de soda vazando cáustico nas mãos; os rolos golpeantes de arames farpado". Sua intenção era garantir o sustento da família e ajudar mãe e os irmãos em Patrocínio do Coité.

E assim, de carga em carga, Severino se aproxima cada vez mais da tuberculose, assunto da próxima semana.

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