Estive recentemente na cidade de São Sebastião, para tratar de assunto referente às exportações. Na volta, na companhia de meu filho Gustavo, também despachante aduaneiro, observando as belezas das praias do Litoral Norte, me veio à mente, como hoje em dia é fácil e agradável a viagem por rodovia para aquela cidade.

 

Assim, lembrei de uma carta recebida do Sr. Carlos Alberto Piffer, datada de 15 de outubro de 1998, relatando como eram as viagens marítimas para aquela localidade, visto que não existia estrada, somente o transporte marítimo, feito através de navios do Lloyd Brasileiro, da Cia. Nacional de Navegação Costeira, a Carl Hoepcke, e das lanchas Santense e Marçal. Vale lembrar que no passado remoto, o melhor caminho por terra para chegar a São Sebastião, era a partir de São José dos Campos, e era uma verdadeira aventura.



O Carl Hoepcke era navio misto de carga e passageiro. Media 62 metros

de comprimento e foi construído em 1926. Sua linha era de Florianópolis,

passando por vários portos, inclusive Santos e São Sebastião, até chegar

ao Rio de Janeiro. Imagem: Edson Lucas

 

Antes de entrar no texto da carta do Sr. Piffer gostaria de salientar que tenho uma profunda admiração por São Sebastião e Ilhabela, locais onde minha esposa Creusa nasceu, foi criada e estudou até a idade dos 10 anos no Grupo Escolar Henrique Botelho. Quando a conheci, em 1971, costumava passar as férias na Chácara Pontinha (que era de propriedade de minha sogra, a professora Henriqueta Mendes do Rego), na Praia Deserta, que dava para o mar e uma linda vista para Ilhabela. Portanto, são muitas as boas recordações dessa região maravilhosa do litoral do Estado de São Paulo. Abaixo, o texto da carta repleta de curiosidades e informações importantes para a memória dos acontecimentos da nossa região.


Carlos Piffer fez a sua primeira viagem para São Sebastião, a bordo

do Itassucê, da Cia. Nacional de Navegação Costeira, em 1939. O

Itassucê era um dos Itas dos pequenos, a Costeira operava seus

navios de maneira exemplar. Acervo: Laire José Giraud

 

“O seu artigo sobre o Lloyd Brasileiro, publicado no caderno Porto & Mar de 15 /10, trouxe-me de volta aos meus tempos de criança. Nos meados da década de 30 - e até a eclosão da II Guerra - nossa família costumava viajar de férias até São Sebastião, no litoral norte do Estado de São Paulo, utilizando os navios de cabotagem, que V. S. tão bem retratou. Face a inexistência, na época, de ligações terrestres, as comunidades existentes ao longo do nosso extenso litoral brasileiro, mantinham contato entre si apenas através da navegação de cabotagem.

 

Nunca será demais enfatizar a importância que a cabotagem desempenhou na integração dessas comunidades, que não possuíam outro meio de comunicação, a não ser por mar.

 

Lembro-me ainda claramente das duas grandes linhas, o Lloyd Brasileiro, do qual meu avô, Emygdio Orselli era agente, em São Sebastião, e da Companhia Nacional de Navegação Costeira, a Costeira dos Itas, que atendiam o litoral brasileiro de norte a sul.

 

        Cartão-postal mostrando um dos Itas grandes, conforme a relação dos

        nomes no cartão. Eram muito conhecidos na época. Acervo: Reprodução

 

Lembro-me também da minha primeira viagem, com meus pais, a São Sebastião, isso por volta de 1939. Partimos de Santos, no fim da tarde, a bordo do Itassucê, da Costeira. O jantar consistia de peru assado - um luxo para a época - e a mesa, talheres, etc. impecáveis. A chegada em São Sebastião foi por volta de meia noite. A viagem toda, com bom tempo não demorava mais do que quatro horas. O Porto de São Sebastião não existia ainda; lembro-me de ver já alguma atividade relacionada com a sua construção, que iria demorar alguns anos para ser concluída e mais outros para entrar em funcionamento.

 

Lá chegando, o navio fundeava no meio do canal e uma embarcação movida a remos, conhecida como "canoa de voga", encostava no navio para embarcar e desembarcar os passageiros, seus pertences, bagagem e alguma carga. A iluminação era apenas a da escada de portaló do navio e dois lampiões de querosene, na canoa de voga. Para nós crianças, era a glória; para as senhoras passageiras, o terror! Assim que a canoa de voga se afastava, o navio levantava o ferro e dirigia-se para Ilha Bela, que então se chamava Vila Bela, para repetir a operação de desembarque e embarque de passageiros.

 

O retorno a Santos, três dias depois, foi feito pelo Aspirante Nascimento, do Lloyd. Dessa vez ocorreu um fenômeno interessante, que ainda tenho gravado em minha memória. Noite de lua cheia, à hora do embarque, uma maré vazante deixou a descoberto um baixio existente em frente à cidade de São Sebastião, impedindo que a canoa de voga chegasse à praia para receber os passageiros. O embarque foi então efetuado em três etapas: primeiro fomos carregados no colo, pelos remadores, que eram conhecidos por "camaradas", colocados em uma canoa conhecida como "batelão" e com ela chegamos à canoa de voga e em seguida ao navio. Novo momento de glória para a criançada!

 

Capa do livro Navios e Portos do Brasil de autoria de João Emilio Gerodetti e Carlos Cornejo, lançado a 8 de dezembro no Museu do Café do Brasil, em Santos . Trata-se de um vapor da Costeira, atracando na altura do Armazém 6 da CDS, em 1915.

 

Foi o nome do navio Aspirante Nascimento, citado em vosso artigo, que me trouxe tudo isso de volta à lembrança. Estou há anos, sem sucesso, procurando uma fotografia dele. Caso V. S. possua alguma em seu arquivo, - bem como a do Itassucê - e me permitir reproduzi-las, ficar-lhe-ei muito grato.

 

Voltando ás comunidades litorâneas, é interessante também destacar a importância que as "lanchas", como a Santense, Marçal, e outras representaram na sua integração, transportando também carga e passageiros. A Santense atracava no cais entre os Armazéns 6 e 7 das Docas. A Marçal, se não me engano, atracava na Bacia do Mercado, tendo de baixar os mastros para poder passar debaixo das pontes do Canal.

 

Esse tipo de integração começou a desaparecer durante a guerra, face a ação dos submarinos alemães e ensejando a busca de outras soluções, como a primeira estrada de rodagem, via São José dos Campos, Paraibuna, Caraguatatuba, etc.

 

Muito tempo já se passou, mas como já disse acima, essa ligação marítima foi muito importante para a integração de toda a nossa população litorânea e merece ser registrada para que as gerações presente e futura possam avaliar o pioneirismo - e a qualidade - oferecidas pelos nossos antigos navios de cabotagem.

 

No mais, aceite minhas saudações e congratulações por tão oportuno - e agradável - artigo.”

 

O Aspirante Nascimento foi o navio que Carlos Alberto Piffer

retornou de São Sebastião para Santos, naqueles dias que antecederam

o início da Segunda Guerra Mundial (1939). Acervo: Laire José Giraud 

 

Depois dessas informações da época em que o Brasil se movimentava de Norte a Sul através do mar, fica aqui o agradecimento ao Sr. Piffer, por nos brindar com essas felizes lembranças de um tempo que não volta mais. Esse artigo é totalmente dedicado a esse grande memorialista.

 

Veja mais imagens:

 

Nas proximidades da Alfândega do Porto de Santos, era o local de

onde saíam diariamente as lanchas para a cidade de São Sebastião.

Cartão-postal do final da década de 1930. Acervo: Laire José Giraud

 

Assim era a Cidade de Santos, no final dos anos 30 do Século

passado. Poucas construções e um grande descampado para os

lados do Macuco e da Ponta da Praia. Em primeiro plano, a Av.

Francisco Glicério, à direita no canto de baixo, é vista a Igreja

de Nossa Senhora da Pompéia. Acervo: Laire José Giraud

 

Passageiros do navio Rodrigues Alves

do Lloyd Brasileiro, em foto tirada em 9 de

junho de 1939. Nome dos passageiros:

Lauro e Moraes. Acervo: Laire José Giraud

 

À esquerda, o Grupo Escolar Henrique Botelho, e ao lado,

um antigo cerealista, que hoje fazem parte da Secretaria

de Turismo de São Sebastião. Ao fundo, a Igreja Matriz

de São Sebastião. Reprodução.

 

São Sebastião, na atualidade, é um importante porto petrolífero e

de carga geral, que trouxe grande desenvolvimento para a cidade. Ao

fundo, vemos o terminal da Petrobrás e a cidade de Ilhabela.

Foto: Laire José Giraud

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