Escrito pelo coronel Adhemar Rivermar de Almeida, na obra Montese, publicada em 1985 pela Biblioteca do Exército:

Nas proximidades do Rio de Janeiro, o ‘General Meighs’ aguardou a aproximação do Pedro II (Lloyd Brasileiro), navio brasileiro que conduzia o III Batalhão do Depósito do Pessoal, que desfilara pelas ruas de Lisboa sob simpáticos aplausos de seus habitantes, a pedido do Governo Português, desejoso de homenagear a Força Expedicionária Brasileira.

Às 7h30 do dia 17 de setembro de 1945, entrávamos na Baía da Guanabara, em meio a um verdadeiro carnaval marítimo.

Fomos cercados por lanchas, traineiras, rebocadores, barcos a vela e guarnições de clubes de remo, toda sorte de embarcações, embandeiradas e fazendo soar seus diferentes tipos de apitos e buzinas.

Todas aquelas embarcações estavam apinhadas de pessoas que gritavam, ovacionavam, soltavam foguetes, chamavam por nomes de parentes e amigos, o que nos levava a um sentimento de gratidão por todo o povo brasileiro, que ali se encontrava para demonstrar todo o seu reconhecimento por nossa ação, nosso sacrifício, com sua presença ululante para nos receber.

O cais não tinha um só lugar vago, com gente trepada até nos guindastes, e os contatos com os que estavam a bordo se processavam aos gritos, pois a verificação de nossa presença acabava com o sofrimento, a incerteza, o medo que cada um ainda tinha pela possível perda do ente querido.

Às 10 horas, esteve a bordo o Presidente da República, Dr. Getúlio Vargas, sendo recepcionado no salão de estar por toda a oficialidade e tendo sua mensagem de boas-vindas transmitida através de alto-falantes para todos os nossos elementos.

Às 11h30, teve início o desembarque da tropa e, em meio aos abraços e beijos de parentes, amigos e até desconhecidos, com enormes dificuldades, o Regimento foi se concentrando na Avenida Rodrigues Alves, preparando-se para o desfile.

Finalmente, iniciou-se o desfile. Nenhum de nós poderia ter calculado a beleza do espetáculo que estava se desenrolando diante de nossos olhos.

Quase toda a população da cidade estava nas ruas e para qualquer ponto que se olhasse lá estava a massa compacta, com suas bandeiras e flâmulas, a festejar, a aplaudir.

A multidão, emocionada com a passagem dos ‘pracinhas’. Aqui e ali fazia-se necessário o emprego da força contra a massa, massa de amor, que se abria e se fechava sobre o objetivo de seu desejo.

Não havia um só edifício em que as suas sacadas, janelas e marquises não estivessem apinhadas de pessoas – homens, mulheres e crianças.

A cidade era uma coisa viva e saltitante, fervilhante de paixão. Uivavam as sirenes e gritava o povo. Bandas, militares e civis, tocavam dobrados e canções populares.

Palmas estrugiam em ruídos de cascatas. Difícil era a passagem. Éramos forçados, às vezes, a ir até a fila indiana.

O povo intrometia-se entre os soldados, que sorriam felizes por tudo aquilo – a recepção, a  volta ao lar.

Moças, senhoras e até homens beijavam e abraçavam os nossos soldados, que agradeciam sorrindo, alguns chorando.

Os distintivos da ‘Cobra Fumando’ desapareciam, passando a constituir-se em lembranças.

De repente, senti-me no ar, carregado. Era um rapaz da Ilha de Paquetá, que depois vim a saber chamar-se Anibal, caixeiro da loja do seu Diogo, cujo gesto foi logo imitado por outros, pois achavam que já tínhamos andado demais, cabendo a eles fazê-lo agora por nós.

Cansados, apertados, triturados pelo entusiasmo do povo, chegarmos à gare da Estrada de Ferro Central do Brasil e, em trens elétricos, fomos transportados para a Vila Militar, onde o ‘ONZE’ voltou a ocupar o seu antigo acantonamento no Morro do Capistrano.

Como bem descreveu o jovem Vinícius de Moraes, no jornal Diretrizes, estávamos de novo em casa.

“Pracinhas da Força Expedicionária Brasileira, vós sois os mais bem-vindos soldados da terra, pois que sois os nossos soldados. Perdoai não vos terem deixado marchar, em nome da emoção que a nossa volta nos causou. Estais finalmente em casa e isso nos entusiasma, porque voltastes para participar também da grande marcha do Brasil para a Democracia. Honra, e mais honra, e muita honra – que a honra é vossa! Honra a vós, atacantes de Castelnuovo, Monte Castelo e Montese, que propiciastes a vitória da Democracia fora e dentro de nosso país! Honra a vós, homens do povo do Brasil, que enfrentastes na nave o fogo do ódio inimigo! Honra, e mais honra, e honra ainda! A cidade vos recebe como os seus mais queridos filhos. Sede bem-vindos, pois que sois os mais bem-vindos soldados de todas as Pátrias, filhos deste solo pacífico, que vistes a morte de face, e que retornastes para a Pátria feita mais consciente. Sede bem-vindos, pracinhas do Brasil.”

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