No artigo da última edição desta coluna Recordar o protagonista foi o navio de passageiro ‘Andes’, que me fez lembrar:

- o meu tio Mário (que, recordando brevemente, nasceu em Portugal em 1890 e faleceu em 1953, aos 63 anos de idade),

- o Restaurant Marreiro,

- a faixa de mão dupla para automóveis na avenida da praia de Santos,

- a linha dos bondes,

- o antigo Ford Coupé do meu pai,

- o livro ‘Transatlânticos em Santos 1901 – 2001’, cujo convite de lançamento foi oferecido pela fundação Arquivo e Memória de Santos, na época em que o presidente era o dinâmico Antônio Ernesto Papa, irmão do hoje prefeito de Santos, João Paulo Tavares Papa,

- além de outras coisas interessantes de um tempo que não volta mais.



O transatlântico britânico ’Andes’ foi o primeiro que me
lembro de ter visto, por volta de 1949. Tinha um belo perfil e
uma pintura harmoniosa. (Reprodução: Acervo L. J. Giraud)

 

Essas indeléveis recordações estarão gravadas na retina até o fim da minha existência, que espero ser longa, para testemunhar e vivenciar as coisas fascinantes que a Cidade de Santos oferece, tanto aos que nasceram nesta terra, quanto aos que se encantam com as maravilhas santistas.

Voltando a falar sobre o tio Mário. Como disse, era um homem de extrema bondade, apenas os que o conheceram sabem disso com propriedade.

Lembrei ainda que, aos domingos, na época eu tinha de 3 para 4 anos de idade, almoçavam na residência dele em torno de 20 pessoas, que eram sempre bem recebidas no ambiente alegre e de muita camaradagem por parte dos tios-avós Mário e Januária.

Como disse, tio Mário e o seu irmão Júlio eram sócios do Restaurant Marreiro, que funcionou durante várias décadas na Praça da República ao lado da Alfândega do Porto de Santos. (O Marreiro do Centro Histórico nada tem a ver com o restaurante de igual nome que existe ainda hoje, no Canal 2, no Bairro do Campo Grande).



O ’Andes’, desatracando no Porto de Santos em
Junho de 1953, auxiliado pelo rebocador ’Marte’,
da Wilson Sons. (Reprodução: Aquarela de Julio
Augusto Rocha Paes)

Era também sócia do bem afamado Restaurant Marreiro a família Paulino, que teve filhos ilustres, como o professor e Dr. Oswaldo Paulino, que completou recentemente 90 anos de idade, 67 como médico e 65 anos de vida conjugal com Adelci Paulino.

Aliás, Adelci recentemente foi homenageada com a Comenda do Ipiranga do Governo do Estado de São Paulo, durante a reinauguração do Teatro Coliseu Santista.

O casal tem como filhos o conhecido médico oftalmologista Eduardo Paulino e o conceituado músico Ricardo Paulino.

Outros irmãos do Dr. Oswaldo Paulino foram o médico João Paulino e Manoel Paulino, que foi vereador durante várias gestões na Câmara Municipal de Santos.



O cartão-postal mostra o ’Andes’ no início da Década de 60
como navio de cruzeiros marítimos: deslocava 27.000 toneladas
e foi demolido em 1971. (Reprodução: Acervo L. J. Giraud)

 

Retornando ao ‘Andes’. Transcrevo um trecho do texto do pesquisador marítimo José Carlos Rossini, que contou uma cena do navio, de maneira poética, no artigo “Transatlântico Andes operou 32 anos”, publicado no jornal A Tribuna, de Santos, na coluna Rota de Ouro e Prata do dia 21 de maio de 2000.

Nele, Rossini conta como vi pela primeira vez o ‘Andes’ a entrar em Santos, versão que difere um pouco do que a ele narrei, como a marca do automóvel de meu pai, o domingo ensolarado, que na realidade estava acinzentado, e outras coisas que o leitor poderá comparar lendo o artigo anterior desta coluna. Mas as ligeiras diferenças não tiram o brilho do texto de Rossini.

Assim, o menino mencionado de 6 anos (na realidade quase 4 anos) é o que aqui vos escreve. A voz masculina a que Rossini se refere é a do meu tio Mário, e assim por diante. Eis um trecho do início do interessante texto da história do ‘Andes’:

Transatlântico ‘Andes’ operou 32 anos
A Royal Mail Lines, armadora da Grã-Bretanha, comemorou o primeiro centenário com a embarcação.



Em Aparecida do Norte, os jovens Laire

Giraud, meu pai, estudante de Medicina,

e o médico Oswaldo Paulino durante

celebração da missa de bodas de prata

de Mário e Januária de Andrade dos

Santos, em 1939. (Reprodução: Acervo

do Prof. Dr. Oswaldo Paulino)

Três horas de uma tarde ensolarada de domingo, início de 1949. Em uma época em que existiam poucos automóveis em circulação, um Studebaker, de cor verde, estaciona na avenida da Ponta da Praia quase em frente ao Museu de Pesca.

Do carro descem cinco pessoas, dentre as quais um menino de apenas 6 anos; da amurada, o grupo observa a cena que se desenrola no canal de entrada do porto, face à Fortaleza da Barra Grande, onde algumas catraias e poucos veleiros cruzam a área.

O ambiente é típico dos dias de repouso: ninguém tem pressa, não há agitação, tudo é tranqüilidade.

O quase silêncio é rompido quando da passagem do bonde 4, chegando ao seu ponto final na rotunda sombra do antigo chapéu-de-sol e desembarcando alguns passageiros.



No cartão-postal, vemos a pista de mão dupla para automóveis
e à esquerda a linha exclusiva dos bondes, lembrando o que foi
dito na coluna passada de Recordar. Nota-se que na avenida da
praia existiam grandes casarões e poucos edifícios de aparta-
mentos. Imagem de 1952. (Reprodução: Acervo L. J. Giraud)

O grupo observa também alguns pescadores apoiados na mureta cinza, com suas linhas e varas de pesca, na faina de tirar algum peixe das águas do estuário.

De repente uma voz se eleva do grupo: “... Olha, olha um transatlântico,... ali,... em frente à Praia do Góes!”

Todos os olhos voltam-se em direção à baía, onde o sol deixa marcas ofuscantes de mil brilhos na superfície do Atlântico.

“É o ‘Andes’!...”, grita uma voz masculina, “é o ‘Andes’!”.

A partir desse instante o olhar do menino de 6 anos não se descola mais daquela imagem em movimento.

Pouco a pouco, os contornos do grande navio, adentrando o canal do porto, tornam-se mais nítidos. O enorme casco é preto-carvão, a parte superior é toda branca, mas a chaminé tem uma cor indefinida, sobretudo à contraluz.

 


No interior do Restaurant Marreiro vemos ao centro o

bondoso tio Mário, ladeado pelo meu pai, Laire Giraud,

pela tia Januária, pelo vereador Manoel Paulino, de

bigode (um dos sócios do Marreiro, irmão do eminente

Dr. Oswaldo Paulino), e pela quituteira tia avó Josefa.
Imagem de 1940. (Reprodução: Acervo L. J. Giraud) 


Lá vem ele, majestoso, silencioso, apenas fumegante, parece vazio... não se vêem sinais de vida e movimento a bordo, tão somente as três bandeiras, tremulando no mastro à vante.

O coração do menino já bate mais forte. Aquela massa imponente, flutuando não se sabe por qual magia, já preenche as duas pupilas arregaladas.

Os minutos que se seguem tornam-se confusos: pessoas em terra, surgidas do nada, gritam e agitam lenços: de bordo, alguém responde, gritando sons incompreensíveis. De repente, os conveses estão apinhados de pontos negros, cada ponto é uma cabeça.

Um apito de sirene e todos estremecem, ou de surpresa, ou de emoção... “Papai, papai, de onde vem o ‘Andes’? Papai?...”

 


Na fotografia do acervo de Roberto Xande, vemos no Restaurant

Marreiro em 1944 pessoas muito conhecidas do passado, como:

Pepino Fraccaroli (José Renato Fraccaroli), sua esposa Sarita, Roger

Godinho e sra., Fausto Fraccaroli e sua esposa dona Lindinha, dr.

Antonio Xande Filho acompanhado de sua esposa Bemvinda.

À direita, o célebre Athié Jorge Cury, que foi presidente do Santos

Futebol Clube e deputado federal. Vale lembrar que a família

Fraccaroli foi proprietária do mais famoso hotel de Santos de todos

os tempos, o legendário e histórico Parque Balneário Hotel.


Hoje, anos após essa passagem do ‘Andes’, fico emocionado ao lembrar daquele domingo que guardei entre as boas recordações da minha vida.

Tempos de guerra e o ‘Andes’

1.9.1939 – Tropas de Wermacht alemã atravessaram a fronteira polonesa.

3.9 – Passa a vigorar o estado de beligerância entre os países aliados (Polônia, França, Grã-Bretanha) e a Alemanha do III Reich.

24.9 – O ‘Andes’ é oficialmente entregue à Royal Mail pelo estaleiro construtor.

26.9 – Sai de Belfast Longh para Holy Loch, onde permanece inativo.

 


Fotogafia tirada no Alto da Boa Vista, no Rio de
Janeiro, quando da formatura do meu pai na
Faculdade de Medicina da Cidade Maravilhosa, em
1940. De
branco, tio Mário e tia Januária. Ao fundo,
a contar da esquerda: meus avós paternos José e
Benvinda Giraud, o médico Laire Giraud e um primo de
nome Dempsey, que foi fiscal da Alfândega do Porto
de Santos. (Reprodução: Acervo L. J. Giraud)


21.11 – É requisitado oficialmente pela Royal Navy (Marinha da Grã-Bretanha) para ser convertido em navio-transporte de tropas.

26.11 – Chega ao Porto de Liverpool para os trabalhos mais urgentes de conversão.

9.12 – Zarpa para a viagem inaugural com destino a Halifax, na Nova Escócia (Canadá).

Janeiro 1940 – Retorna de Halifax, tendo a bordo 900 homens do regimento Canadian Seaforth Highlanders.

31.10.1940 – Zarpa do Rio Clyde para Suez, Colombo, Cingapura, Hong Kong, Fremantle e retorna da Austrália via Cabo da Boa Esperança e Freetown (Serra Leoa). Esta viagem tem a duração de quatro meses.

Junho 1940 – Viagem à Islândia.



O escritor e pesquisador de assuntos

marítimos José Carlos Rossini, radicado

na Suíça, durante vários anos escreveu

a coluna Rota de Ouro e Prata no jornal

A Tribuna. Ele contava as histórias dos

transatlânticos que passaram por Santos.

(Imagem de 2005).


Agosto 1940 – Novembro 1941 –
Realiza várias viagens entre o Reino Unido (Liverpool ou Greenock) e Suez (via Cidade do Cabo). Em algumas dessas viagens, na viagem de retorno, escala em Halifax.

Dezembro 1941 – Sai de Freetown para uma viagem de 38 mil milhas (70.400 quilômetros)! Escala na Cidade do Cabo, Durban, Bombaim, Suez, Colombo, portos australianos, portos do Pacífico, Panamá, Halifax e Boston (total de homens transportados: 14 mil).

Maio 1942 – Viagem a Liverpool, Durban, Nova Iorque, Halifax, Clyde, Cidade do Cabo e retorno ao Rio Clyde.

Entre agosto 1942 e dezembro 1943 – Diversas viagens para o norte da África, seja a parir de Liverpool, seja de Halifax, seja de Nova York.

1944-1945 – Serviço no Atlântico do Norte: outras viagens para a Cidade do Cabo.

Registro do tempo de guerra – 520 mil milhas (963 mil quilômetros) percorridas e 350 mil soldados de tropas transportados.

O ‘Andes’, da Royal Mail Line foi entregue em 1939 e em seguida requisitado pelo Almirantado britânico, para servir como navio-transporte de tropas durante o período da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Em 1948, após reforma, foi colocado na rota da América Latina. Em 1958, foi substituído pelos novos navios da armadora, o ‘Aragon’, o ‘Amazon’ e o ‘Arlanza’.

Em 1959-60, sofreu reformas para adaptação de navio para cruzeiros marítimos. Foi demolido na Bélgica, em 1971. Ficou muito conhecido pelos portos que passou.


A fotografia - de José Dias Herrera, o Seu Zezinho - de 1952 mostra o ’Andes’
a navegar pelo Estuário do Porto de Santos, cidade onde gozava de grande
prestígio devido à pontualidade nas escalas. (Reprodução: Acervo L. J. Giraud)

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