Sempre fui grande admirador dos transatlânticos. Isto é, desde a minha infância gostava de ver os transatlânticos - entrando ou saindo do porto, tanto ali do Canal 5, onde morava, ou da Ponta da Praia - na companhia de meu pai, onde víamos os navios de passageiros passarem tão perto, que dava a impressão de tocá-los. 
 


Os transatlânticos passavam tão perto da
amurada da Ponta da Praia, que dava a impressão
de poder tocá-los. Na foto de José Dias Herrera
vemos o ’Conte Grande’ por volta de 1952.

 

Aliás, também gostava de vê-los em maquetes nas agências de navegação que ficavam situadas na Rua XV de Novembro e na Rua do Comércio.

Lembro - mais uma vez - que o primeiro transatlântico que vi entrar em Santos foi o britânico ‘Andes’, da Royal Mail Line, mais conhecida no Brasil como Mala Real Inglesa, cuja agência ficava na Rua XV de Novembro, quase em frente ao Banco do Brasil.

 

 
Assim era, em 1950, a Rua XV de
Novembro, onde ficavam numerosas
agências de navegação. Muitas
exibiam maquetes dos transatlânticos.
(Reprodução: Acervo Ezio Begotti)

 

Recordo-me que foi em um domingo de 1949, quando almoçamos na casa do meu tio avô, Mario Fernandes dos Santos, na Avenida Francisco Glicério, 610, próximo à Avenida Pinheiro Machado. Diga-se de passagem, todos os domingos compareciam mais de 20 pessoas para saborear as delícias preparadas pelas tias Josefa e Joana.

Tio Mario foi um dos proprietários do Café e Restaurante Marreiro, um dos mais célebres e conhecidos de Santos - de todos os tempos.

Após os inesquecíveis almoços, sempre dávamos um passeio no carro do meu pai, um Ford Coupé ano 1946.

Aqueles passeios eram invariavelmente os mesmos, um domingo íamos até a Ponta da Praia, na altura do local de travessia das balsas, no outro até São Vicente, mais precisamente à Biquinha, com direito a pipoca, tremoços e caldo de cana.

 


Mario Fernandes dos Santos na companhia da
esposa
Januária, ambos ladeados pelas
sobrinhas Isolina e
Janu. Foto tirada em 28 de
julho de 1947 em Águas
de São Pedro, SP.
Vale lembrar que Mario era homem
de
bondade indescritível, com o objetivo de sempre

ajudar o próximo. (Reprodução: Acervo L. J. Giraud)

 

Voltando àquele domingo acinzentado de 1949. Quando estávamos na altura do Boqueirão, vimos ao longe a silhueta de um navio de passageiros que se aproximava da Ilha das Palmas.

Meu tio Mario, que estava ao lado de meu pai, disse: “É o Andes”, e eu imediatamente pedi ao meu pai que corresse, para vermos o navio passar pela amurada da Ponta da Praia.

Mas não fui atendido, o carro seguiu em marcha normal. Naquela época a avenida da praia tinha mão dupla para os ônibus e automóveis e uma faixa exclusiva para o tráfego dos bondes. Assim, seria imprudente desenvolver velocidade acima do normal.

Alcançamos o local onde hoje é o Restaurante Tertúlia em tempo para ver o majestoso ‘Andes’ a navegar em direção ao antigo Armazém de Bagagem do porto, no Cais do Armazém 15 da Companhia Docas de Santos (CDS), que foi concessionária e administradora privada do complexo portuário santista de 1890 a 1980.



O Ford Coupé 1946 do meu pai Laire Giraud era semelhante
ao

desta foto. Nos passeios dominicais, iam a bordo
em torno de oito pessoas, entre crianças e adultos

 

A partir daquele inesquecível dia, que registrei na retina por toda a eternidade, comecei a admirar cada vez mais os navios de passageiros. Todas as vezes que um passava pela Ponta da Praia, eu o contemplava até que ficasse distante.

Lembro com nitidez alguns: ‘Conte Grande’, ‘Alcantara’, ‘Highland Brigade’, ‘Brasil’, ‘Argentina’, ‘Rio de la Plata’, ‘Fapeyo’, ‘Alberto Dodero’, ‘Provence’, ‘Bretaigne’, ‘Augustus’, ‘Giulio Cesare’, ‘Anna C’, ‘Vera Cruz’, ‘Enrico C’, ‘Cristoforo Colombo’ e o mais belo dos navios de passageiros que já passou por Santos, o célebre ‘Eugenio C’.

Assim, motivado por recordações no estilo como a que relato, resolvi fazer um livro que desse uma idéia da época em que o porto santista se parecia com os aeroportos dos dias de hoje. Isto é, com grande movimentação de passageiros, que chegavam ou partiam nos transatlânticos que aqui aportavam.

Essa obra, que recebeu o título de ‘Transatlânticos Em Santos – 1901/2001’, e que teve lançamento na Pinacoteca Benedicto Calixto em novembro de 2001, registra lendas dos mares – como o inglês ‘Alcantara’, o alemão ‘Cap Arcona’ e o italiano ‘Conte Biancamano’, entre muitos outros.

 


Antes de 1954, a avenida da praia de Santos tinha uma
só pista
de mão dupla e uma faixa de trânsito, a mais
clara exclusiva para os bondes. (Reprodução:
Acervo L. J. Giraud)

 

Outro motivo que se somou às lembranças dos navios em Santos foi a de encontrar obras do gênero em países que visitei. Assim, preparei esse livro, com 140 páginas e 240 ilustrações, a maioria inéditas, e textos interessantes.

As fotografias e cartões-postais contidas no livro vão de 1901 a 2001. Inclusive com alguns navios modernos de cruzeiros marítimos. Muitos dizem que é um livro histórico, pois preserva fatos de uma época que não volta mais, o que de certo modo me deixa lisonjeado.

Para dar um toque especial ao livro, criei ao final uma seção que chamei de Linha do Tempo. Escreveram textos amigos como José Carlos Silvares, Armando Akio, José Carlos Rossini, Narciso de Andrade, João Emílio Gerodetti, Helena Maria Gomes, Viviane Pereira, Antonio Ernesto Papa e o comandante Gabriel Lobo Fialho, diretor da Revista de Marinha de Portugal, que ficaram à vontade para escrever.

Como a primeira edição está esgotada, os leitores que tiverem interesse em consultar o livro podem se dirigir às bibliotecas municipais ou ao arquivo do jornal A Tribuna, onde há um exemplar.

 

Veja mais imagens:


O transatlântico britânico ’Andes’, da Royal Mail Line, foi
o primeiro
que lembro ter visto na minha vida. Media
204 metros de comprimento e navegou
de 1939 a 1971. (Reprodução: Acervo L. J. Giraud)


O ’Vera Cruz’ foi o transatlântico português que
deixou bem marcado o nome no Brasil. Aqui o vemos
passando pela Ponta da Praia no ano de 1952.
(Reprodução: Foto Boris Kauffman, do Acervo L. J. Giraud)


O ’Eugenio C’ foi o navio de passageiros mais querido dos brasileiros
em todos os tempos, escalou Santos entre 1966 e 1996, e deixou
muita saudade. Foto de cartão-postal enviado por Benê Siqueira, 1996.


Parte frontal do convite de lançamento do livro ’Transatlânticos em
Santos – 1901/2001’, em novembro de 2001 na Pinacoteca Benedicto Calixto.


Na reprodução da antiga revista santista Flama, vemos um grupo
de funcionários de uma firma em jantar comemorativo no
Restaurante Marreiro, em julho de 1939.

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