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Como homenagem ao ilustre colega prático Zé Peixe, vou narrar aqui uma pitoresca viagem marítima que fiz a Aracaju em 1979, ocasião em que tive interessante e breve convívio com ele, pois era eu quem comandava o navio que lá chegou nesta ocasião.

O navio desta narração era o “Loirinha V”, de longa história e ainda hoje em operação, segundo consta, entre Salvador e a Ilha de Itaparica. Não sei se mudou de nome.


Imagem do Rio Sergipe, na bela Aracaju, cidade onde o famoso
prático Zé Peixe viveu e praticou navios de todos os tipos. Reprodução.

Este navio, então semi-abandonado em Corumbá, foi comprado pela empresa de turismo marítimo (sight seeing tours) Loirinha Ltda, de Santos, lá pelos idos de 1970, da autarquia que operava navios de passageiros na bacia do Rio Paraguai-Paraná, com sede nesse porto fluvial de Mato Grosso (na época). Reformado, foi rebatizado como “Loirinha V”.

Construído na Holanda, era um navio fluvial de fundo de prato, com três eixos, a diesel. Irmão gêmeo do antigo “Guarapuava”, atual NTrFlu “Paraguassu” da Marinha do Brasil, sediado na Base Fluvial de Ladário, que ainda atua em várias operações importantes na bacia do Rio Paraguai, desde que foi adquirido, adaptado e incorporado pela Marinha, por volta de 1970/71.

Esse navio de nossa história, o “Loirinha V”, tal como seu irmão gêmeo, era originalmente utilizado no transporte de passageiros naquela região antes do advento das estradas e dos aviões.


O notável navio de cruzeiros Funchal, em fotografia de 1995.
Acervo: L.J. Giraud.

Os novos proprietários, meus amigos, convidaram-me, em 1971, para trazer o navio para Santos, desde Corumbá, bem como em 1979 para levá-lo para Aracaju, agora com novos proprietários, o grupo Turimar. Assim, fui seu comandante nestas duas memoráveis viagens, em 1971 e em 1979.

Nas duas viagens levei comigo minha mulher Ed e na viagem desta história também convidei meu amigo Dr. Mário Eugênio Mallegni, obstetra, ginecologista e grande cirurgião de nossa cidade, um apaixonado pelo mar, seus navios e suas aventuras, que mais tarde foi membro destacado do Proantar, como médico convidado pela USP em quatro viagens à Antártida a bordo do N. Oc. “Prof. W. Besnard”.

Mas voltemos aos fatos desta nossa história, ligada ao Zé Peixe, que tiro da memória já distante.

No comando do “Loirinha V”, zarpamos de Santos, no outono de 1979, com destino a Vitória, onde faríamos escala para completar os tanques de diesel e de aguada. Viagem agradável, embora rústica, pois não dispúnhamos de nenhum dos modernismos hoje oferecidos ao navegante, exceto um radar. Contornamos Cabo Frio, bem junto ao costão, observando detalhadamente o seu farol a olho nu. Montando São Tomé, aproamos para Vitória, nossa escala técnica. Lá passamos um dia agradável. Completamos nossos consumos, passeamos um pouco em terra e zarpamos.


O amável Comandante Albuquerque, quando apresentava os
oficiais do Funchal, em 1995. Acervo: L. J. Giraud.

Navegando para NNE, passamos a foz do Rio Doce, com bom tempo, buscando passar pelo interior do Arquipélago dos Abrolhos. Nesta altura da viagem, quando conversávamos tranquilamente no salão do armador eu, minha mulher e nosso amigo Mário Eugênio, fomos surpreendidos pela invasão de um peixe voador que penetrou pela vigia aberta do salão e atingiu a cabeça da Ed sentada em um sofá. Minha mulher não se feriu. Tomou apenas um grande susto. Mário logo pegou o peixe caído no tapete e o devolveu ao mar. O engraçado incidente, todo fotografado por mim, foi o assunto do dia a bordo.

Mais tarde, vieram as ilhas dos Abrolhos. A contemplação deste belo local nos absorveu agradavelmente. Seguindo para o norte, deixamos Ilhéus e Salvador pelo través de BB, sem avistar as cidades, devido à navegação aberta nesse trecho, com criteriosa estima na carta náutica. A Agulha magnética, muito precária, obrigou-me a um rigoroso controle por azimutes e amplitudes. Amplitudes, duas por dia (ortiva e ocídua); azimutes, vários, tendo em vista a necessidade de se controlar com apuro os rumos em que navegávamos. A velocidade girava em torno dos dez nós, diminuindo com mau tempo.

Chegamos pela manhã em Aracaju. Fundeamos na barra para aguardar prático e entrar no porto, nosso destino final. Após pouco mais de uma hora, eis que surge, vindo do porto, um navio de abastecimento de plataformas (supply ship). Vinha em nossa direção. Era bem mais alto do que o nosso “Loirinha V”. Passou bem devagar, a uns quarenta metros do nosso bordo. Nesse instante, vimos um homem em pé no talabardão da asa do passadiço de boreste do "supply". Estava sem camisa, descalço e de bermuda. De repente o homem salta em grande estilo, mergulhando de cabeça. Era o prático Zé Peixe! Veio nadando em direção ao nosso navio, subindo com desenvoltura pela escada de quebra-peito. Impressionado, fui recebê-lo no convés. Avistando minha mulher, desculpou-se educadamente pelo traje sumário. Incontinenti, puxou um saco plástico da cintura dele tirando uma camiseta seca de cor branca e a vestiu.

Zé Peixe recomposto, subimos para o passadiço. Sob sua orientação segura suspendemos o ferro e iniciamos a navegação a rumos práticos para o interior do Rio Sergipe, porto de Aracaju, onde iríamos fundear para entregar o navio à sua nova tripulação local. Meu amigo Mário, como médico e ainda emocionado com o que acabara de assistir, não se furtou a um comentário profissional: “Fábio, o Zé Peixe não tem nenhuma gordura no corpo! Observe o resultado do que é uma vida saudável sob exercício constante!". De fato, Zé Peixe era homem miúdo, sem barriga, naturalmente magro, cabelos castanhos claros lisos, pele branca tostada pelo sol. Um tipo bem europeu, diria eu, de aspecto bastante saudável. Durante a navegação, entre uma ordem e outra, conversava de modo franco e natural com os presentes no passadiço.

Foi uma bela experiência. Nunca nos esqueceremos deste dia em que tivemos um agradável convívio com o famoso colega Zé Peixe. Cruzamos a barra e logo percebemos a forte correnteza do Rio Sergipe. Foi preciso fundear "a dois ferros" visto que, com um só, o navio garrava imediatamente. Tentamos mas não deu. Após a faina, assinei seu talão de serviço de praticagem que, pra nova surpresa minha, se encontrava totalmente seco. E assim permaneceria, pois foi guardado no mesmo saco plástico para onde voltou sua camiseta na hora do desembarque. Zé Peixe ainda permaneceu a bordo após a manobra, oferecendo breves orientações locais aos novos visitantes da sua linda cidade de Aracaju. Na hora de desembarcar despediu-se de todos e por último de mim. Subiu na borda do passadiço e se atirou no rio. Fiquei por bom tempo observando suas vigorosas braçadas rio abaixo, até atingir a margem e desaparecer seguindo seu caminho. Ainda guardo algumas fotos de Zé Peixe nesse episódio. Uma experiência e tanto. Guardo na memória e no coração aquele momento histórico que o destino me proporcionou.

Zé Peixe, figura quase lendária, hoje tem estátua em praça pública em Aracaju. Alegre e conversador, contava casos e mais casos de sua profícua vida. Entrevistado por revistas internacionais e emissoras de televisão no país tornou-se conhecido de norte a sul. No mar, um herói; na vida, um cidadão que soube honrar o Brasil.

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