A carregada agenda chinesa desta semana acaba por nos reavivar a memória e estimular a reflexão.

Em 1997, chega a Santos o primeiro portêiner chinês no Brasil. Lembro-me da curiosidade que a todos despertou aquele navio, inovador, concebido para cruzar os oceanos com grandes guindastes já montados. Também os técnicos e operários chineses com seus chapéus de vime (tipo vietnamita), sandálias de dedo, comendo em marmitinhas junto ao equipamento e trabalhando noite a dentro; cenas que foram alvo de ti-ti-tis nas “pedras pisadas do cais” por vários meses.

O portêiner fora comprado pela Libra à ZPMC, empresa criada cinco anos antes. Mesmo com componentes mecânicos e eletro-eletrônicos europeus, ele custou algo como metade dos tradicionais concorrentes. Pairava na comunidade portuária santista uma enorme dúvida sobre o acerto da escolha, e não faltavam comentários sarcásticos e prognósticos sombrios. De fato, as soldas ziguezagueantes, por vezes descontínuas, e os primeiros descasques na pintura alimentavam tais suspeitas.

Onze anos depois visitei a nova fábrica em Xangai. Uma mega e bem organizada planta, montando simultaneamente 40 ou 50 portêineres, já muito diferentes: soldas perfeitamente alinhadas, pinturas em estufas controladas, e, já agora, alternativas chinesas também para quase todos os componentes. Visitamos um protótipo de porto totalmente automatizado e fomos informados que a frota da empresa já ultrapassava 30 navios, também que ela detinha mais de 80% do mercado mundial de guindastes de cais. Hoje, com menos de 20 anos de existência, ela domina mais de 75% do mercado mundial de equipamentos portuários como um todo, segundo o site da empresa.

Qual o segredo? Não cabem respostas simplistas, em tom de álibi, atribuindo tal sucesso ao regime político forte e ao descaso com o meio ambiente; mesmo porque, nesta área, são marcantes os avanços por eles empreendidos na descontaminação de corpos d’água, no reflorestamento e na energia eólica.

As explicações são mais profundas e, certamente, multifacetadas. Fica a expectativa para os subsídios colhidos pela Presidente Dilma e empresários e sua comitiva.

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