Editorial | Coluna Dia a Dia
O título é propositalmente ambíguo. Por não definir quem começa a sentir o frio à frente (são muitos). Nem qual é a situação gelada (são muitas). Mas, registremos que em 22/9/2009 Portogente publicou artigo de opinião com título quase oposto: “Uma rota cada vez mais quente...” Oposto? Por ironia: não.
Veja mais: Uma rota cada vez mais quente... – Portogente, 22/9/2009, via Internet Archive.
Era um alerta, repetido várias vezes depois: o “aquecimento global”, tão negado pelos que mais contribuem para ele, está criando situações novas, entre elas a possibilidade de navegação normal em mares nunca antes navegados... sim, porque, nos últimos cinco a sete milênios, só havia ali uma calota infinita de gelo.
Agora, em boa parte do ano, nem os navios quebra-gelo são necessários para abrir passagem aos cargueiros, pelo norte da Eurásia e até das Américas. As primeiras experiências de 16 anos atrás literalmente abriram caminhos para ligações marítimas mais diretas com a Ásia, sem depender de Suez ou Panamá.
Veja mais: EUA vs. China: A Batalha Pela Rota de Trilhões no Ártico - História do Dinheiro, 19/1/2026
E a ironia é que, justamente por a rota estar ficando mais quente, muita gente agora está entrando numa gelada... Os EUA, com medo manifesto de que russos e chineses ameacem sua segurança. Não necessariamente a militar, pois o custoso “Domo de Ouro” de proteção aérea não implica em conquistar territórios para ser instalado). Nem notam que corre riscos é a sua segurança econômica.
Por trás dessa mentira, há uma apenas meia verdade, a história das terras raras. E pode bem ser que a verdade inteira esteja ligada à perda de poder geopolítico dos EUA, já que esse país não consegue mais inibir a circulação intercontinental de navios concorrentes e assim controlar o comércio mundial.
Ou será que a verdadeira razão é só uma vingancinha de criança birrenta contra o comitê do Prêmio Nobel da Paz, que não a reconheceu como campeã da paz mundial? De bebê que abriu o berreiro e não se calou nem quando mamãe Corina lhe presenteou a tal medalha, para servir de chupeta?... Do chorão que agora quer o título de campeão da guerra (começando por rebattizar seu Departamento da Defesa como Departamento da Guerra)? A dinamite do sr. Nobel pode explodir a qualquer momento...
Veja mais: Groenlândia: veja o dia a dia na maior ilha do mundo - Band Jornalismo, 18/1/2026
Então, os noruegueses entraram numa fria, alvos da fúria deste ser que, após “parar oito guerras”, quer iniciar a Terceira Guerra Mundial. Também a realeza da Dinamarca, ao colocar as barbas de molho, vai vê-las congeladas. Como a Groenlândia e seu campo de gelo, que está(ão) se desfazendo... Às favas com a autonomia da ilha e seus cidadãos, “está decidido”: será o 51º Estado americano, é a lei da selva em todo o seu furor, custe o que custar, doa a quem doer!
Veja mais: EUA ameaçam taxar países que são contra anexação da Groenlândia - Bastidores CNN, 16/1/2026
Quem também entra numa fria é a Europa, traída pelo seu parceiro e que agora precisa se realinhar para enfrentar inimigos no Leste e no Oeste. Por enquanto, numa nova guerra tarifária. E, pelo visto, a dissolução da OTAN/NATO... Putin, não exagere na gargalhada...
Veja mais: Europeus se mobilizam frente às ameaças dos EUA sobre a Groenlândia - AFP, 18/1/2026
Proibido discordar. Quem tentar... tarifaço!. Pior: quem não ajudar a tomar a Groenlândia da Dinamarca também entrará numa gelada de dimensões venezuelanas. Brasil no meio?! Afinal, Europa acordou para o perigo e correu a assinar (após 26 anos) o acordo com o Mercosul. ‘Gracias’, Trump: seus oponentes agradecem pelo empurrão. Mas todos sabem que os resultados desse acordo não chegam ‘amanhã’. Enquanto isso, a WW3 implora para começar...
A China, mineiramente, sorri. Enquanto no apagar das luzes do ano 2025 retira dos EUA míseros US$ 280 BIlhões obtidos com a venda de títulos do Tesouro, estoca ouro (ou reinveste esses valores), além de dominar o mercado mundial da prata (já escassa para novos celulares, carros elétricos e as super centrais de processamento de I.A.). “Por acaso”, simultaneamente o Brasil saca US$ 61 BI. A Índia leva para casa mais US$ 50 BI. E só a gestora de investimentos BlackRock “reposiciona para fora dos EUA” outros US$ 2,1 TRIlhões. A conta chegou?
Veja mais: US$ 688 Bilhões: O Adeus da China à Dívida dos EUA - História do Dinheiro, 14/1/2026
Motivo? Desde 1941, os EUA podiam gastar à vontade porque, se quisessem dinheiro, era só imprimir e mandar a conta para o mundo pagar. O acordo mundial em torno do dólar se baseava na sua estabilidade monetária. Em crise, todos corriam para essa moeda usada como porto seguro. Isso acabou em 2025.
Veja mais: China critica discurso de Trump sobre a Groenlândia - Jovem Pan News, 19/1/2026
Perceberam os verbos no passado? Pois é. Os EUA atiram furiosamente nos próprios pés (e ainda se recusam a estancar o sangramento): 1) com as ondas tarifárias (pagas por seus cidadãos inconscientes); 2) dispensando a força de trabalho imigrante (o que impossibilita até repatriar fábricas exportadas para China e México); 3) desmotivando pesquisa e ensino superior, estimulando a “fuga de cérebros”; 4) acumulando dívidas externas enormes que deterioram os fundamentos de sua economia – e ainda louvando o governo que aumenta essa conta em mais US$ 3 trilhões/ano. Pior que cego em tiroteio.
Veja mais: Brasil se desfaz de US$ 61 BILHÕES em títulos dos Estados Unidos - Wolff Análise, 19/1/2026
Logo vão descobrir que não adianta politizar ou criminalizar a taxa de juros que vai paralisando governo e empresas; e que nem podem fabricar mais dólares, já que o mercado está sendo impressionantemente rápido em rejeitá-los, a partir da desconfiança de que logo esse papel valerá tanto quanto o dinheiro da Venezuela de hoje ou o da Alemanha de 1945. Países como Portugal perceberam ser hora de levar os BRICSs a sério, e avaliam até se pode ser melhor sair da Zona do Euro e fazer comércios bilaterais com moedas próprias. Atentem aos sinais.
Veja mais: A BlackRock acabou de mover US$ 2,1 trilhões para fora da América - Economia Invisível, 18/1/2026
Para formar a tempestade perfeita, os EUA investem fábulas em tecnologias que nem dominam direito, como a IA (levaram em 2025 uma inesperada surra dos chineses nessa área), que levarão anos para amadurecer e dar lucros (pesquise agora: [bolha de I.A.]) e dependem de insumos externos como prata, terras raras, energia... Criaram a tempestade que agora os ameaça. Em que fria se meteram!
Inimigos de todos (até dos bajuladores contumazes, terão de lembrar as últimas palavras atribuídas a Júlio Cesar, no original latino: ‘- Et tu, Brute?’), ante as dificuldades para recuperar parcerias comerciais que jogaram na lata de lixo da História. Até porque os antigos aliados já substituíram o parceiro ruim. Dá para confiar em moeda instável como o dólar e em quem alegremente rasga tratados internacionais para impor suas regras?
Veja mais: China abre portas a brasileiros enquanto EUA endurecem barreiras – Times Brasil/CNBC, 19/1/2026
Só um exemplo: os EUA dificultaram a entrada de estrangeiros, mesmo aquele técnico que vai lá consertar o equipamento vital para sua fábrica operar. Um brasileiro que pretenda ir à China agora só precisa do passaporte.
Então, como corolário das previsões aqui feitas em 2009, temos hoje a (con)gelada Groenlândia derretendo com ameaças incandescentes, proferidas com vozes cortantes e olhares frios. E a Humanidade tremendo enquanto o mundo ferve com as novas mudanças climáticas... da Natureza e do Homem.
Agora, a rota marítima está fervendo, mas o mundo treme
Imagem: reprodução/Portogente, 22/9/2009








