Os capitalistas sabem gerir dinheiro, mas não sabem fazê-lo. E perdem muito dinheiro por desprezarem justamente a parte do capital mais importante em seus negócios, aquela que não passa pelas contas do banco. Não me refiro ao "caixa 2", mas aos recursos humanos, à experiência acumulada de "saber fazer".

E é o que aconteceu com a indústria naval brasileira. O governo não soube manter uma política consistente para o setor, e os empresários também não souberam buscar alternativas para contornar o esvaziamento do setor. Resultado: um grande encolhimento no setor, que é muito mais do que "apenas" fazer navios.

Muito mais, porque além do aço naval para o casco, o pacote "navio" inclui todo tipo de navipeças, eletrônica embarcada, mobiliário, tintas, cada lâmpada usada a bordo, serviços de inspeção e certificação, seguros etc. E depois de entregue a embarcação, o estaleiro tende ainda a ser referência para futuros reparos, adaptações... há todo um mercado só nesses itens.

O comentário acima se refere ao início dos anos 1990, quando a navegação brasileira despencou em todos os sentidos, com o desaparecimento de armadoras nacionais, entrega de boa parte dos tráfegos aos estrangeiros e, como resultado, a queda nas encomendas de embarcações.

Mas o passado costuma voltar, e o receio é que estejamos vivendo mais um momento negativo, depois do revival da década passada. A Petrobrás, principal empresa a encomendar navios aos estaleiros nacionais, foi debilitada por práticas nefastas que nem vou comentar aqui, basta lembrar da palavra Pasadena como exemplo marcante. E a própria economia nacional, perdida a grande chance de crescer em meio à crise internacional, agora patina rumo à estagnação, sabe-se lá se não como prenúncio de recessão (saberemos melhor após as eleições).

Imagem: acervo pessoal

Meu avô em Santos, usando a bigorna para ajustar trilhos
e corrigindo engenheiros com a sua experiência, em 1942...

Então, por mais gorda que esteja hoje a carteira de encomendas dos estaleiros, falta-lhes confiança no futuro, e eles temem também a concorrência internacional, por mais que se tenham aliado a grandes empresas multinacionais do setor.

Uma das principais razões do temor é de não darem conta do recado, por falta de profissionais experientes na produção das embarcações. Perdem muito dinheiro refazendo serviços errados, corrigindo erros, contratando especialistas no exterior. Perdem competitividade com isso, num mercado altamente competitivo. Esta é sua maior queixa.

E aí voltamos ao início da história. O Brasil esteve entre as maiores capacidades de indústria naval do mundo. Com a crise do setor, os trabalhadores foram dispensados e tiveram que buscar outras colocações no mercado de trabalho, mudar de atividade. Perdeu-se todo o conjunto de conhecimentos do "saber fazer" (que os estrangeiros chamam de know-how).

Nessa hora, lembro de meu avô, migrante com apenas o antigo curso primário, mas que supervisionava a colocação de trilhos de bonde na cidade, a chamada "via permanente". Quantas vezes ele pegou aquelas plantas belamente traçadas por engenheiros "de ar condicionado" e refez o traçado, para evitar que os bondes descarrilassem com os erros de projeto...

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