Sei que vai soar chato, coisa de turrão, mas uma das mesas do festival Tarrafa Literária trouxe de volta aquele debate cifrado sobre quem escreve melhor, jornalistas ou historiadores.

I
Toda vez que esse assunto retorna ao debate, uma figura é sempre lembrada, a do leitor comum, essa pessoa que não existe e que, dizem, prefere o livro escrito pelo jornalista ao do historiador, pois este, em linhas gerais, escreve para seus pares enquanto o primeiro tem por objetivo satisfazer este mesmo leitor comum.

Sim, o mercado editorial realiza uma série de pesquisas para identificar hábitos de leitura, gosto médio, livros lidos por pessoa por ao ano, etc. Tudo isso é importante, sim, mas pergunto, e desculpem a expressão, que raio é esse de leitor comum a quem são direcionados muitos dos livros de História escritos por jornalistas, nos quais os fatos curiosos tomam a frente da empreitada, ou onde a fofoca histórica tem mais espaço que a análise e, enfim, onde o entretenimento vale mais que o interesse? Chego à hipótese, contestável, lógico, de que o leitor comum é o leitor que simplesmente não lê e que precisa ser guiado por brindes e curiosidades para por perder o interesse.

II
Sim, concordo que haja livros para todos os níveis de leitores, mas daí a arbitrar que determinado grupo, no caso os jornalistas, escreve melhor que outro, é uma temeridade.

Em primeiro lugar porque essa divisão faz pensar que entre os dois grupos somente há duas formas de escrita e qualquer leitura atenta atesta o contrário: cada autor traça seu próprio estilo, ou indo ainda mais longe, cada livro requer um estilo e uma estratégia narrativa próprios para que seu conteúdo seja apresentado de forma eficiente (e ser bem escrito é apenas um dos atributos de um texto eficiente).

Aí me escoro no historiador François Hartog, que problematiza a questão ao falar de livros de História escritos como se romances fossem, nos quais cada autor, jornalista ou historiador, parece dizer:

Sou eu quem o recomenda a vocês, leitores não especialistas no assunto; garanto-lhes que se trata, sem dúvida, de história - de acontecimentos ocorridos na realidade, de um fenômeno histórico verdadeiramente explicado (...), mas, não obstante ou além disso, o livro é legível.

Mas, acrescento, esse recado é só o começo, o problema está exatamente no "como". Como escrever sobre grupos marginalizados a partir da documentação gerada pelas autoridades? Como tratar a biografia de um líder político filtrando as louvações desnecessárias? Como reconstituir uma revolta de uma comunidade centrada na oralidade? Como lidar com o que não pode ser provado? Como diferenciar para o leitor o que é afirmação, hipótese, conjuntura, análise ou conclusão?

Essas e outras perguntas podem ser respondidas de várias formas, mas creio que todas devem executar um simples operação: esquecer o "leitor comum" e ficar com o leitor, simplesmente o leitor.

Quem escreve deve levar em consideração a inteligência de quem toma a iniciativa de abrir um livro.

Referência
François Hartog. Disputas a respeito da narrativa. In: Evidência da história: o que os historiadores veem. Tradução Guilherme João de Freitas Teixeira. Belo Horizonte: Autêntica, 2011.

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