Luiz Fernando Veríssimo mantém um sua coluna no Estadão a seção “Poesia numa hora dessas?”, uma defesa, ainda que no tom humorado do escritor, do espaço da beleza em meio ao noticiário. Hoje, enquanto muita gente séria debate nas ruas e nas redes sociais se Santos passa ou não por um apagão cultural (eu acho que a lâmpada está falhando, querendo queimar), quero tratar dos ensaios do escritor Milan Kundera reunidos no livro “Um encontro”, com textos reunidos, lançamento agora da Companhia das Letras.

Li do autor tcheco apenas seu clássico “A insustentável leveza do ser” (1984), e já tem vinte anos isso. Gostei do livro, e até depois vi o filme, mas lembro de muito pouco dele, então a leitura de “Um encontro” me soou como uma descoberta, um encontro justamente.

Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca, a tradutora, traz para o português uma prosa que busca na arte, em especial os romances, sentidos para a existência humana que ultrapassem a contingência histórica, como se a humanidade pudesse se ver na arte, não, não diria “se ver”, pois a arte é um prisma deformante e não um espelho que reflete, então digo: como se a humanidade pudesse se encontrar na arte. E daí o elogio à fabulação e à ficção não como refúgio da vida real (não podemos confundir a ficção com a mentira), mas como forma de acesso ao conhecimento sobre o mundo.

Kundera escreve sobre o pintor Francis Bacon, Dostoiévsky, Céline, Philip Roth, Gudberguer Bergsson, Marek Bienczyk, Juan Goytisolo, Gabriel García Marquez, Anatole France, Rabelais, Carlos Fuentes e outros, que possamos ou não conhecer ou já ter ouvido falar, além de compositores e cineastas (em especial Fellini), mas não é isso o importante, o que interessa é a busca de sentido por parte de Kundera, leitor sensível que, entre outras coisas, nota o humor como forma de resistência contra a barbárie.

Seu amor aos artistas de quem trata é tanto que temos vontade de ler todos os novos nomes que encontramos e ouvir todos os compositores que ele ouve e comenta. É uma sensação parecida que tive ao ler “A Odisseia Musical”, do compositor santista Gilberto Mendes. Cada novo nome ali, cada sequência mínima de notas musicais comentada, é um convite à exploração do leitor-ouvinte.

A graça (no sentido sagrado) da escrita de Kundera já se apresenta nos títulos: “O gesto brutal do escritor: sobre Francis Bacon”, “O colapso das lembranças” (sobre “Telón de boca, de Goytisolo), “A morte e a pompa” (sobre Céline), “Belo como um encontro múltiplo”, “Por baixo tu sentirás as rosas”, entre outros.

O prisma de Kundera revela uma presença ética no mundo sustentada pela arte, uma presença ética que talvez seja comparável aos perfis escritos pela filósofa Hannah Arendt em “Homens em tempos sombrios”, ou muito provavelmente essa presença ética, que conheci também nos ensaios de Joseph Brodsky (ver aqui), vem da própria escrita tanto de Hanna quanto de Kundera.

Esta relação do romance com a vida está por exemplo entre os comentários sobre “O professor do desejo” (1977), de Philip Roth, escrita após a revolução cultural dos anos 60, em que a liberdade sexual torna-se uma realidade cotidiana:

A aceleração da história transformou profundamente a existência individual que, nos séculos passados, se desenrolava, do nascimento até a morte, numa única época histórica; hoje ela salta duas, às vezes mais. Se, antigamente, a história avançava muito mais lentamente do que a vida humana, hoje é ela que vai mais depressa, que corre, que escapa ao homem, de tal modo que a continuidade e a identidade de uma vida correm o risco de se romper. Assim, o romancista sente a necessidade de guardar ao lado de nossa maneira de viver a lembrança daquela, tímida, meio esquecida, de nossos predecessores.

Mas essa relação não se dá de forma conservadora, mas com coragem:

Chegamos ao limite. Não existe “mais adiante”. Não são mais as leis, os pais, as convenções que se opõem ao desejo. Tudo é permitido. E o único inimigo é nosso próprio corpo, desnudado, desencantado, desmascarado. Philip Roth é um grande historiador do erotismo americano. Ele é também o poeta dessa estranha solidão do homem abandonado diante de seu corpo.

Por todos os ensaios deslumbramos algo em comum, em quase todos os escritores sobre os quais se debruça Kundera busca um fio de humor, uma pequena brasa que busca soprar, animar, como se a dimensão humorística do romance, que está em Cervantes e em Rabelais, nos primeiros momentos do gênero, permanecesse “negligenciada” na modernidade. É como se o escritor tcheco semeasse em seus leitores, com frases repetidas em cada texto, a mesma ideia: “o humor nos salvará”, “o humor nos salvará”, “o humor no salvará”.

Referência
Milan Kundera. Um encontro. Tradução Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

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