I
Começo este texto explicando a ausência do Porto Literário nas últimas semanas. O motivo foi a finalização de meu primeiro livro, “Esquinas do mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos” (Dobra / Fundo Municipal de Cultura), que será lançado em 5 de abril, na Estação da Cidadania, a antiga Sorocabana, na Avenida Ana Costa, em Santos. Ficou difícil escrever sobre novos temas sem que desse vontade de levá-los para o livro. A solução para essa esquizofrenia ensaística foi dar um tempo na coluna.

Os leitores do Porto Literário já estão familiarizados com os temas do livro, já que a coluna, junto com minha dissertação de mestrado, é a matéria-prima de boa parte dos ensaios. Estão ali o ciclo do romance portuário, o ambiente portuário nas histórias de horror, os poetas estrangeiros que cantaram o Porto de Santos, o Porto visto pelos poetas da Cidade, as relações entre História e Literatura, etc. No livro, essa matéria-prima foi reorganizada e, no limite de meu talento, tentei dar um tom ensaístico, buscando sempre criar conhecimento histórico sobre o porto e a cidade a partir da Literatura. A capa é de Raphael Morone e Marcelo Ariel escreve um prefácio ficcional para os ensaios.

II
E como primeiro crítico do livro, não é que ele já sai defasado?

Explico. É que agora em março, o compositor Gilberto Mendes publicou seu primeiro livro de ficção, a novela “Danielle em surdina, langsam”, pela editora Algol. A defasagem está no fato de Gilberto Mendes levar a ficção a um território ainda inexplorado, a cidade de Santos durante a Segunda Guerra, com blackouts e suspeitos de espionagem que circulavam pela cidade, em meio a bailes no Hotel Balneário e reunião no fictício bar São Petersburgo.

A trama nos apresenta Mathias, um compositor brasileiro com carreira na Europa, principalmente Alemanha, que ao receber o convite de um amigo dos tempos de adolescente em Santos durante a Guerra, passa a lembrar daquele momento quando era um jovem músico talentoso que começava a se apresentar em bares e bailes da cidade. O vínculo com a Alemanha, da qual Gilberto Mendes tanto aprecia a música, não é apenas do personagem, é também do próprio livro. Tanto no tipo de história, a de formação, gênero que a literatura alemã ofereceu ao mundo com “Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister” (1795-96), de Goethe, quanto no gênero, a novela, história curta com poucos personagens que tem início a partir de um acontecimento inusitado, cuja matriz na literatura moderna é “Novela”, também de Goethe, um de seus últimos trabalhos.

Clique aqui para ler a segunda parte deste artigo.

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