O fim do mundo é nossa última utopia
É mais fácil imaginar o fim do mundo que o fim do capitalismo
Pepe Rojo

É o fim do mundo esse negócio de fim do mundo
Paulo de Toledo

A mais profunda selvageria é o desejo perpétuo do fim do mundo…
Marcelo Ariel


Aproveitando a comoção mundial em torno do fim do mundo, a editora Kodama Cartonera, de Tijuana (México), um dos mais de 100 selos artesanais espalhados pela América que utilizam papelão na realização das capas dos livros, lançou na semana passada a coletânea “Poesía para el fin del mundo” (Poesia para o fim do mundo), com seleção de autores feita por Estela Mendoza.

Formado por duas seções, “Caos na ordem” e “Ordem do Caos”, ensanduichadas por uma abertura de Pepe Rojo (de onde saiu uma das epígrafes acima), um intervalo da própria compiladora e um epílogo em poesia de Mavi Robles-Castillo. Estela Mendoza reuniu poetas principalemte do México ou que vivem naquele país, mas há também representantes do Peru, El Salvador, Equador, Chile e Brasil.

Quem representa nosso país na coletânea do fim do Mundo é Marcelo Ariel, com o poema “Novas Revelações do Príncipe do Fogo” (transportado para o espanhol por este colunista), que abre o livro. O trecho inicial, transcrito a seguir, mostra como continua forte a capacidade imagética de Ariel para compor a catástrofe, que o leitor do Porto Literário conhece a partir de seus poemas que tratam da tragédia de Vila Socó (ver aqui). 

Novas Revelações do Príncipe do Fogo

(poema inacabado comentado)

Para Febrônio Índio do Brasil

 

Eu sou a árvore,

feche os olhos,

primeiro você vê as armas

do Sol: As manhãs

e eis a beleza terrível se movendo

na pele do antisonho

e na do mar também,

eis as nuvens de sangue,

cavalos selvagens da luz

cavalgados pelo vento,

este corpo do espírito geral,

eis o céu

que jamais será

como os campos

porque é incorruptível,

apesar do rugido dos aviões,

evocando a raiva dos pássaros,

depois você verá o espetáculo

das montanhas de ossadas,

quase tocando o céu,

isso jamais terá seu poder nomeado,

será como o Sol.

Um Poder que estava em nós,

mas não pertencia a ninguém.

Agora, você verá a escuridão dourada,

não é um grito do céu

como o indecifrável canto das mônadas

caindo em ondas

imperceptíveis, humilhando

todos os místicos

que irão correr em sonho por cima do mar

até chegar na África Geral,

eles e nos, anestesiados

pela conversa silenciosa das ossadas,

que sussurram na hora do despertar:

“Não basta você flutuar por aí,

na margem etérea do sonho, meu Irmão!”

e depois começam a cantar…

E eis que Ele retorna das Áfricas Reunidas,

a beleza das chacinas

é como a das explosões solares,

Ele pensa

A expansão solar rindo por último

e depois a gargalhada dos mangues e das florestas

e a dos países oceânicos também,

diz a Estrela-do-Mar.

Aproveito a ocasião para trazer para o português um dos poemas do livro, “Fin del mundo (Versión 2.0)”, de Héctor Loza, mexicano de Mexicali que vive em Tijuana. Seu trabalho pode ser acompanhado no blog http://h1dopp1er.wordpress.com:

Fim do Mundo (Versão 2.0)

 

Um dilúvio de lápis furiosos nos afogará de palavras até o pescoço.

Esses anjos entralhados em grafite com as extremidades afiadas
nos apagarão do mapa para sempre.

 

Não haverá mensagem urgente ou pregação que valha.

Como corvos rapaces e inclementes ditarão sua sentença em nossas caras:

Nunca mais. Nunca mais. Será a morte.

 

A ironia semeia dúvidas e as dúvidas respostas.

É demais dizer, mas tudo isso ocorre em um tempo sem tempo.

Tudo isso ocorre aqui e ali, longe e perto.

Tudo isso faz eco, soa, ressoa no interior de cada um,
onde a voz da consciência é apenas uma reverberação do cruel silêncio

Tudo isso que calamos, tão parecido com o medo.

Tudo a que aspiramos, aquilo irremediavelmente envolto em esperança.
Tudo o que seremos quando este mundo acabar e já nada restar:

Nem uma só pomba cruzando o céu,
nem uma só árvore de vida onde façamos ninho,
nem uma gota de chuva para enxaguar o ego e começar do zero,
como dizem que fizemos não sei já quantas vezes.

 

Não restará absolutamente nada. Este mundo acabará (talvez esteja certo).

Mas terás o céu, o sol e o vento novo.

E ninguém mais do que o pó será teu semelhante.

Serás fim e princípio desta a NOVA ESPÉCIE.

A que sustenta o mundo nas mãos.

O homem que transforma realidades apenas imaginando.

Olha-te no espelho. Todos estão em ti.

Aquele que escreveu dez mandamentos. O que cometeu sete pecados.

O que amou a sua mãe e seu pai, e amou a si próprio até a saturação.

O que disse que o homem voaria. O que foi até a Luz e não voltou.

O que ganhou a guerra sem se manchar. O que não matou ninguém mas morreu de fome.

O que roubou um pedaço de pão e foi para a cadeia. O que pisou em todos até se tornar rei.

O que falhou ao disparar uma arma. O que pariu a ideia e começou a Revolução.

O que recomenda a doutrina do olho por olho. O que engoma suas camisas apegado à lei.

O autômato em tempo integral. O amante de fim de semana.

O filho pródigo, o marido perfeito, o pai exemplar, o irmão Caim.

O que dá, o que divide. O que viola e transgride qualquer norma, corpo ou forma.

O que vive, o que pensa, o que sente. O que triunfa, o que perde.

O que cala, o que mente, o que sempre diz a verdade.

O que causa empatia, o simpático, o que fere, o canalho, o ruim.

 

O que escreve um poema e manda apagar. 

Referência
Vários autores. Poesía para el fin del mundo. Compilação de Estela Mendoza. Tijuana, México: Kodama CArtonera, 2012.

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