Nas páginas finais de seu diário, o médico louco protagonista do romance “Diário de um Médico Louco”, de Edson Amâncio, passa a ouvir uma voz que lhe sugere se suicidar em uma banheira de ácido prússico. No mesmo dia, após um passeio de quatro horas pela praia em que descobre a natureza de Deus, a voz volta com carga total à mente do médico louco, a lhe dizer coisas como “Você vai liquidar com todos, um por um vão cair a seus pés”, ou “Seu pensamento é o melhor, sua teoria está perfeita” e ainda outros dois: “O Deus do Mundo é um embuste” e “O seu é o único verdadeiro” (leia mais sobre o livro, lançado há algumas semanas na Pinacoteca Benedito Calixto, no site da editora LetraSelvagem).

Na cena seguinte, a voz passa a reger as conversas do médico louco com as demais pessoas, fazendo-o maltratar uma vizinha e o açougueiro. Após um período de isolamento (uma semana, um mês, ele não sabe), a própria voz o aconselha o médico louco a procurar outro médico ou a tomar calmantes. O médico louco decide por fim passar por uma infusão de florais cujo ritual havia encontrado na internet.

Mas nada dá certa e, no consultório, durante uma consulta, maltrata a paciente: “Minha senhora, não suporto seus modos afetados, e muito menos seu cãozinho asqueroso!”. E então, decide-se pelo suicídio:

Daí em diante, perdi completamente a cabeça. Ou levava a sério a ideia do suicídio ou iria acabar ficando louco, e, além disso, cheio de inimigos ferozes.

Desiste da corda na varanda, já há muito tempo pendurada, por temer uma morte lenta com sofrimento prolongado. Jogar-se da varanda também não era uma boa opção por morar no segundo andar, o que poderia apenas causar fraturas. Aí começa seu périplo atrás de um lugar para se jogar:

Foi então que tomei a decisão de pular de algum lugar. Santos é a cidade mais anormal do mundo; totalmente horizontal e excelente para caminhadas que podem durar horas. Experimente pular de algum lugar.
(...)

Fui a vários lugares da cidade tentando encontrar algo que valesse a pena. Um local propício, de onde eu poderia saltar e ter uma morte decente.

Monte Serrat – o bondinho não funcionava, estava em manutenção. Eu não iria suportar a monotonia da espera, “Duas horas para terminar o conserto”, disse o motorneiro. Voei literalmente com o carro rumo à Ponte Pênsil. Parei-o na entrada da ponte e fui avaliar – a distância era muito pequena. Na certa eu ia tomar um banho gelado e ficaria só nisso.

Ilha Porchat – esta me pareceu adequada mas, para minha decepção, não havia um único lugar onde se pudesse pular e ter um fim digno. Experimentei jogar uma pedra num local tentador, de onde se podia descortinar toda a vista: a ilha inteira de São Vicente e toda a orla de Santos. Um local perfeito, mas a pedra bateu numa pequena elevação do terreno, situada a menos de meio metro da borda do precipício, rolou e foi estacionar logo adiante. Não há ali declínio abrupto, teria que começar a queda andando os primeiros 15-20 metros e depois saltar. Isso já me tirou todo o encanto e resolvi voltar para casa.

Não vale contar o que ocorre depois, o objetivo aqui é apenas mostrar a cidade (e a vizinha São Vicente) sendo explorada de forma diferente.

Epílogo
O título da coluna é um eco, e uma homenagem ao belo projeto “100 lugares para dançar em Santos”, do grupo Quintos, apresentado na Bienal de Dança do SESC em 2011. Mas, ao invés da busca esquizofrênica do médico louco, os integrantes realizaram uma busca poética, tornando vivas paisagens urbanas da cidade.

Conheça os 100 lugares em http://100lugaresparadancar.org/o-projeto.

Referência
Edson Amâncio. Diário de um Médico Louco. Coleção Gente Pobre. Taubaté: Letraselvagem, 2012.

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