"Os políticos podem dar o balanço do número de mortos, do número de cassados, refugiados, banidos, mas quem dará o balanço dos projetos humanos que se frustraram, dos abraços que se negaram, dos beijos paralisados, tudo por medo? Quem dará o balanço do medo que nós tivemos?"
Fernando Gabeira, em epígrafe ao livro “Raul Soares: um navio tatuado em nós”, de Lídia Maria de Melo

Escrevia no artigo passado sobre a capacidade de os prisioneiros do Raul Soares chamarem os calabouços do navio-presídio de nomes de boates das bocas de Santos. Era o humor, construção linguística que busca a quebra de expectativa, este simples fato de linguagem, como resistência.

É o mesmo impulso que levou um grupo de presos políticos de uma prisão de segurança máxima na Patagônia durante a última ditadura argentina a criar um jogo narrativo em que duplas de detentos criam em conjunto e ao mesmo tempo encenam um enredo. Passatempo que os protegesse, ainda que por instantes, da violenta realidade, mas não é só isso.

Esses relatos formam também o conjunto de invenção e fabulação que faz a ficção em torno da criação de significados. O jogo narrativo dos prisioneiros da Patagônia foi transformado em peça de teatro, “La razón blindada”, encenada em Santos em 2010 durante a primeira edição do Festival Mirada pelo grupo equatoriano Teatro Malayerba.

Assim como o jogo narrativo dos prisioneiros políticos da Patagônia foi transformado em ficção teatral, a experiência do navio-presídio ancorado no porto de Santos nos meses seguintes à instalação da ditadura de 1964 ainda não recebeu tratamento ficcional.

A fabulação poética sobre o assunto de que tenho notícia são os poemas da jornalista Lídia Maria de Melo, que teve seu pai, sindicalista nos anos 60, levado para o Raul Soares. Escritos em 1982, no início da abertura, eles estão publicados em seu livro “Raul Soares, um navio tatuado em nós”, de 1995, de caráter memorialístico.

Tratei de um deles no artigo “Apenas um navio: poesia em estado de exceção”, no qual a autora busca o ponto de vista da então criança que era ao esperar na beira do cais a barca que a levaria junto com a família para visitar o pai.

No outro poema, “Filho de um estupro”, a perspectiva narrativa é a de quem escreve em 1982 e reflete sobre o impacto emocional do medo em sua formação:

Filho de um estupro

O pai desse meu medo de agora
veio montado no nariz vermelho
de minha mãe
que forçava um sorriso
para ocultar
de suas crianças
no pátio da escola
o peso da repressão
(não saberia traduzir-nos
que há horas certas
para falar, pensar e discordar).
No entanto, não pôde impedir
que o montador de seu nariz
violentasse meus olhos
e me engravidasse o coração
com um pavor pulsante
que jamais poderei abortar...
E carrego comigo
cravado nos gestos
enterrado nos olhos,
com o incômodo
de uma mãe que guarda no ventre
o filho de um estupro.

A metáfora do estupro dá corpo ao medo e, assim, eficácia narrativa ao sentimento difuso e geralmente psicológico de quem, ao invés de preso, teve um ente amado levado pela repressão. Nos dois casos, a fabulação poética fica do lado de fora do navio, concentrando-se nas consequências sobre a criança que teve o pai preso no local.

Já é muito e todo o processo de realização dos poemas tanto quanto do livro deve ter feito a autora reviver muito de sua dor. Mas a literatura de ficção, que nos leva da experiência à reflexão, ainda não se voltou para o Raul Soares mesmo 48 anos após seus prisioneiros ofereceram a dica narrativa com a piada terrível que mistura calabouços e boates. Que outros autores invistam no tema.

Referência
Lídia Maria de Melo. Raul Soares: Um navio tatuado em nós. São Paulo / Santos: Pioneira / Universidade Santa Cecília, 1995.

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