A série de matérias que o jornal Diário do Litoral, de São Paulo, vem publicando desde domingo, dia 21, sobre o navio-presídio Raul Soares (que esteve ancorado no Porto de Santos entre abril e outubro de 1964, após o golpe militar) vem acrescentar mais alguns relatos à série de textos que existem sobre o tema. É o do médico alemão Thomas Maack, que hoje mora em Nova York, que vivia no Brasil na ocasião do golpe e acabou sendo também levado para o navio acusado de subversão.

No momento em que comecei a escrever o Porto Literário sabia que o jornal ainda publicaria novos depoimentos, então tratarei da reportagem em outra ocasião. Queria, porém, destacar uma parte do relato do repórter Francisco Aloise, no texto do dia 23, que apresenta três calabouços do navio. A informação não é nova, mas a descrição enumerativa, de aparência neutra, ressalta por contraste o horror real das celas.

1 – El Marroco. Era um salão totalmente metálico, ao lado da caldeira, sem nenhuma ventilação, onde a temperatura passava dos 50 graus, não possuía iluminação. Ainda assim era o melhor.

2 – Night and Day. Era uma pequena sala onde o preso ficava com água gelada até o joelho.

3 – O Casablanca. Era onde eram despejadas as fezes dos presos.
 
O interesse da passagem está na piada amarga inventada pelos detidos, entre eles muitos operários da Cidade, ao darem aos calabouços nomes de boates da noite do cais de Santos. Esse fato de linguagem, a piada terrível, é a construção verbal que permite (no caso, ainda que uma pequena troca de um nome por outro) ao relato captar quem o ouve ou o lê.

Ao trocar as celas pelas boates, a piada amarga também traça um território. Do navio-presídio, fundeado do outro lado do canal do Porto, perto da Ilha Barnabé, junto à área continental (ponto A, em verde, na parte superior da imagem), até a Rua General Câmara, no Centro da cidade (ponto B, parte inferior da imagem), endereço de duas das boates que dão nome aos calabouços, rua que até hoje mantém a fama de principal da boca santista.

O navio-presídio junto ao Porto detém o prisioneiro sem retirá-lo de seu território. É mais um navio no Porto, mas é um navio diferente, como se fosse um não-lugar ou um navio de outra dimensão, a da sombra. 

Referência
Francisco Aloise. Era uma vez um navio-prisão sem lei e sem respeito à dignidade humana. Especial. Diário do Litoral, 23/10/2012 (pág. 7).
http://diariodolitoral.com.br/edicao/4763/index.html

Lídia Maria de Melo. Thomas Maack, médico e preso do Raul Soares. A Tribuna, 2/11/2003.
http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0181c.htm

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