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Mas sem ufanismos nacionalistas. “El Nacional” é também o próprio Coliseu, que viveu décadas decadentes, com shows e filmes de sexo, e pessoas sem casa também morando por lá. E ainda que o teatro esteja lindo, o mesmo não se pode dizer do entorno, como atestou o próprio pessoal do grupo Els Joglars no blog En Gira, no qual comentam os lugares por onde passam:

O Teatro Coliseu, onde atuamos, está situado no centro histórico de Santos, perto da área portuária. Este porto é um dos maiores da América do Sul. A decadência das casas, o cheiro de petróleo, a misturança de pessoas, a provisão de frutas tropicais e o projeto do Museu Pelé formam a paisagem que veste nosso teatro onde ontem recebemos um caloroso "bravo" brasileiro. Deve-se acrescentar valor ao público que lá esteve pela coragem de se deslocar a este bairro que fica perigoso a partir das seis da tarde.

III
Não é só da crise econômica de que trata “El Nacional”. A decadência do teatro é também um retrato do artista burocratizado e profissional que escreve mais projetos para editais e fundos do que realmente cria. Por isso que seu José, o lanterninha, que encenar o “Rigoletto”, personagem que para ele representa o símbolo da arte cênica: "uma profissão de rebeldes e asselvajados, completamente o contrário do teatro elitista, petulante e submisso, que degradou o grêmio do que foi o glorioso ofício de pícaros, putas, safados e veados, enterrados fora dos cemitérios".

Ficamos com as palavras do diretor do espetáculo e autor do texto, Albert Boadella:

O teatro, como arte, parece destinado irreversivelmente à pura exibição museística e arqueológica. Os sinais são evidentes. A grande complexidade burocrática e econômica que existe hoje entre a simples formulação da ideia criativa e sua realização prática propiciou a intervenção protecionista dos Estados com seu novo modelo neoliberal de nacionalização cultural.

 

Nosso velho ofício teatral agoniza entre assessores, conselhos e departamentos ministeriais. As piolhentas carroças foram substituídas por custosos edifícios faraônicos, mas no cominho se perdeu algo tão essencial como a obscenidade e a transgressão. Hoje qualquer representação é suscetível de obter o Prêmio Nacional de Teatro e esta situação decadente é uma responsabilidade exclusiva de todos os profissionais do ofício que, em sua estúpida vaidade, quiseram ser algo mais respeitável que uns simples bufões.

Ficha técnica
Texto, direção e espaço cênico: Albert Boadella
Com: Begoña Alberdi, Dolors Tuneu, Enrique Sánchez-Ramos, Jesús Olivé, Minnie Marx, Pillar Sáenz, Ramon Fontseré, Xavi Sais.

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