Reinventada em "Hamlet de los Andes", espetáculo do Mirada no Guarany, a cena do afogamento de Ofélia, do clássico "Hamlet" de Shakespeare, foi feita com a atriz em pé à frente e ao centro do palco com um balde a seus pés. Ela tira a camisa, encharca a camisa de água e põe a camisa de volta. Em seguida, tira a saia, encharca a saia e a veste de volta. Morre em pé, braços estendidos, ao som de música de baixo e cordas. Bela morte encenada pelo Teatro de Los Andes no Teatro Guarany durante o Festival Mirada.

A imagem desse texto é a da cena seguinte em que Hamlet a toma pelos braços e deita-a em uma cama levemente inclinada para frente, após alguns instantes a água acumulada em suas roupas começa a escorrer para o palco.

O título é claro, iremos ver um Hamlet dos Andes. Ele não usa livros em seus planos, prefere beber e celebrar, vocifera contra o pai fantasma em quéchua. A própria morte de Ofélia, na cristã posição de crucifixo, sugere também o ritual andino do sacrifício.  A famosa peça dentro da peça – na qual Hamlet contrata para encenar a morte do rei envenenado pelo irmão uma trupe de atores viajantes – por outro lado, aproveita o estereótipo para mudar o registro para o humor, na qual, por falta de estrutura, a peça acaba se transformando em um embate de luta livre entre duas irmãs de tranças, chapéus típicos e mantos coloridos. Tanto na cena mais sublime quanto na comédia, as personagens femininas, ao lado de um passivo Hamlet bêbado, tornam Hamlet mais matriarcal, e andino, do que o patriarcal e guerreiro clima do final da peça, sublimado nesta versão. Não há Fortinbras chegando aos portões do palácio, a ação acaba muito antes.

A carga do ser ou não ser
O leito onde está a atriz é uma caixa que se transforma em portão, cama, mesa, portas, passagens, esconderijos e outras funções cênicas, o mesmo objeto, montado e remontado, significando muita coisa, até a carga do monólogo “ser ou não ser” dito com ela sobre as costas:

Foto: La Paz Vanguardia

Mirar, olhar, liqhupayay, ma’ê
Ouviu-se português, espanhol e quéchua (e era Hamlet que falava em quéchua) nessa Mirada. E foi logo no Guarany, outra das línguas do continente falada também durante o festival. Foi no espetáculo “Cinzas”, do grupo paraguaio Hara Teatro, que narra a vida de mulheres durante os anos do que eles chamam de Guerra Grande.

A partir de uma proposta de aproximação entre as falas portuguesa e espanhola nos dois lados do Atlântico, o tal “ibero-americano”, o festival traz o bônus de ouvirmos ainda outros sons de nossa América.

Ficha técnica
Texto: Wiliam Shakespeare
Direção e dramaturgia: Diego Aramburo
Criação coletiva: Teatro de Los Andes
Tradução para o espanhol: Humberto Pérez Mortera
Com: Alice Guimarães, Gonzalo Callejas, Lucas Achirico
Apoio: FILTE BA

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