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Esse mundo da leitura na era digital, entre outros temas sobre os quais Porto Literário se debruçará em outra ocasião, está bem caracterizado na leitura feita por Sagrado Sebakis (pseudônimo de Sebastian Kirzner): o último capítulo de sua trilogia “Gordo”, romance cujos parágrafos são divididos em blocos como os textos de internet. Perceba também, leitor, a enumeração à moda de Jorge Luis Borges que Roberto Bolaño também praticou (ver aqui):


Sagrado Sebakis lê o último capítulo de "Gordo" na Feira do Livro de Buenos Aires

Mais de 160 quilos sobre meu corpo, o peso exato do Drum and Bass, + 160, sou o outro Fat Boy Orange. Sou este final, esta língua, este último abecedário habitável.

 

Onde estou 11.7? Onde estou 14.2? Onde estou 21.8? Onde estou 12.3? 17.9? 3.1? 6.4? Estou carregado de valores informais. Várias coisas para dizer a respeito: A – Quando era pequeno, na escola, me vi enfrentando meninos que comiam giz de cera... e ainda com o azul, ou o verde ou o vermelho entre os dentes, me juravam: “Pode comer! Diz na caixa...” Não! Idiota! Não se pode comer, na caixa diz que “Não é tóxico”, isso está a dez quilômetros de que mande colocar na boca, pedaço de australopithecus afarensis. B – Toda vez que alguém usa a fonte Comic Sans um designer gráfico morre. C – No capítulo 19 da quinta temporada de The Office (eua), chamado The Golden Ticket, Michel pergunta a Dwight: “Para que faz um diário secreto?” E Dwight responde: “Para escrever coisas que não quero que meu computador saiba”. Ç – Sempre sonhei com que injetassem recheio de sonho de valsa direto no meu organismo. D – Sempre sonhei em ficar preso em uma loja de supermercado da rede COTO durante pelo menos três dias e comer absolutamente tudo, inclusive comer e correr ao mesmo tempo. E – Pensei que alguém tinha falado comigo, mas não, era o computador. F – O melhor cruzamento de animais fantásticos é de você comigo. G – Te repito pela última vez: Eu não sou outro você. H – Por respeito ao outro, por favor: “TENHA DOR EM SILÊNCIO”. I – Um amigo me disse: “Os velhos imbecis vêm de imbecis descarados”. J – Hoje me deram a melhor desculpa que jamais ouvi para que alguém não me visse: “Desculpa não poder me encontrar contigo, é que estou com uma amiga que não pode caminhar”. K – Os magros ocultam um segredo de mim. L – Aquilo que te dá poder, de mim tira. M – Zero a zero, todos perdem. N – Dormir não é um ato do corpo, é uma metáfora social. O – Sim, nem diga, foram anos duros paca, eu fiz o Mergulhão Digital entre 2015 e 2018. P – Eu disse a ela: “Mas está cheio de gente!” Ela me disse: “Eu sei chupar uma rola sem fazer barulho”. Q – Nunca se esqueça que este também é um órgão sexual e uma zona erógena. R – Minha namorada foi para a guerra e não sei quando volta. S – Não é que não goste, é que tenho uma coisa com os mamilos retraídos. T – Preciso de espaço, meu espaço, ou me ouvir devagar, despacio, ou ir para o espaço. U – Contei para a minha mãe que estou dormindo com uma garota que se esquenta se grudando em mim... ela disse algo como: “Hum, não dói?” ao que respondi: A verdade, mãe, é que nesse momento costumo estar tão drogado que nem me dou conta. V – Há duas coisas de que gosto na vida: Agarrar com a mão o pão lactal e você. W – Uma vez um jornalista perguntou para Roberto Bolaño: “Por que o senhor é sempre do contra?”. E ele respondeu: “Eu nunca sou do contra”. X – Gostaria de ter uma mulher que me acompanhe nas horas do dia em que fico acordado e uma que me acompanhe nas horas da noite em que fico acordado. Y – Que dia bom para não ir ao colégio!

 

 

 

Z – Somos como duas festas... duas festas terminando.

Leia mais sobre o trabalho do autor em www.wix.com/sebakis/sagrado. Conheça o trabalho de editoras independentes latino-americanas em www.elasunto.com.ar e www.la-periferica.com.ar.

Referência
Sagrado Sebakis. Gordo. Buenos Aires: Milena Caserola, 2011.

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