Em um texto sobre propagandas de banco, terminei a última coluna defendendo o acento diferencial em “pára” (que o editor de texto adaptado à reforma ortográfica sublinha com uma linha ondulada vermelha). O poeta Ademir Demarchi usa a palavra no poema “Alguém morre para”:

os semáforos se fecham
para
o trânsito
circular
e se misturar
em outras direções
alguém morre pára
alguém morre para:

Esse poema está em “Abismos”, livro que faz parte do volume “Pirão de Sereia” (Realejo Livros, 2012, com recursos do Fundo de Cultura de Santos), lançado em 7 de abril, com a reunião de 30 anos de poesia divididos em 17 poemários. No prólogo de “Preceitos de Dúvida”, outros dos livros, o autor os apresenta como “nada líricos”, que “talvez funcionem como a tentativa de uma saída ao lugar-comum”, uma busca constante em sua obra. Faz parte de sua escrita e de sua crítica evitar práticas disseminadas como a submissão (termo meu) à primeira pessoa do discurso, como nos versos “eu / como uma oração monótona”.

E assim, evitando o lugar-comum, Demarchi percorre grandes temas da poesia como a morte, a metafísica (ainda que pela sua impossibilidade) e o próprio fazer poético, como nestes versos de “Pensar / Doer”, de “Considerações a respeito”, outro dos livros:

eis esculpido o poema
como estátua de mármore
enfim pleno de viço e graça
a sugar-te os seios
a secar-te as taças

Epílogo
Em outro poema de “Abismo”, há um verso de Ademir Demarchi que vale bem por uma máxima de seu trabalho.

... um desempenho entre cru e encantatório...

Ainda vou meter bastante colher nesse pirão.

Referência
Ademir Demarchi. Pirão de Sereia. Santos: Realejo Livros, 2012.

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