I
Sabem aquela discussão muito assídua na imprensa sobre os livros de História feitos por jornalistas, que são mais bem escritos e que livros de historiadores são naturalmente chatos. Bem, preconceito, jornalistas e historiadores escrevem bem, jornalistas e historiadores escrevem mal.

Essa é a razão por querer reverberar uma resenha de Alexandre Gonçalves, “A América diante da ficção”, publicada no Sabático do Estadão em 31/3. Ele apresenta um livro interessante, “O espelho da América: de Thomas More a Jorge Luis Borges”, no qual o historiador Rafael Ruiz busca fontes históricas na Literatura para entender a formação da identidade americana em oposição à europeia. Para isso, conta com a ficção como “uma ferramenta adequada para se entender os tempos pretéritos”.

Além da pesquisa em si, Gonçalves ressalta que a obra de Ruiz mostra que, além do jornalismo tradicional, a transparência é a melhor forma de o narrador histórico obter credibilidade. O próprio Ruiz, professor da Universidade Federal de São Paulo faz isso ao escrever no final uma nota pessoal em que narra sua trajetória intelectual. Assim conta o autor da resenha: “uma prova de que o jogo aberto com o leitor pode construir uma ponte entre acadêmicos e o grande público”.

II Um estaleiro desolado
Mais um porto literário para a conta da coluna, Santa María, a mítica cidade da ficção do uruguaio Juan Carlos Onetti (1909-1994). No início de “O estaleiro”, Larsen, o Junta-Cadáveres, retorna à cidade de Santa María, de onde havia sido expulso, e faz uma curta viagem até Puerto Astillero, onde vive a filha do dono do estaleiro do título. Ali começam as cenas portuárias do romance que passarão por este Porto Literário pelas próximas semanas:

Sem abandonar a pedra úmida do cais, almoçou peixe frito, pão e vinho, que lhe venderam garotos descalços, insistentes, vestidos ainda com seus farrapos de verão. Viu a balsa atracar e descarregar, examinou com negligência as caras do grupo de passageiros; bocejou, tirou da gravata preta o prendedor com pérola para limpar os dentes. Pensou em algumas mortes e isso foi enchendo-o de lembranças, de sorrisos de despeito, de refrãos, de tentativas de corrigir destinos alheios, em geral confusos, já cumpridos, até por volta das duas da tarde, quando se levantou, fez correr os dedos ensalivados pela risca da calça, recolheu o jornal aparecido na noite anterior em Buenos Aires e foi se misturando às pessoas que desciam a escadaria para ocupar a branca lancha com toldo que ia subir o rio.

Referências
Alexandre Gonçalves. A América diante da ficção. O Estado de S. Paulo. Sabático, 31/3/2012, p. S6.
 
Juan Carlos Onetti. O estaleiro. Tradução de Luis Reyes Gil. São Paulo, Editora Planeta do Brasil, 2009 (1ª ed. 1961).

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