As narrativas de testemunho em primeira pessoa – como “Memórias do cárcere” (Graciliano Ramos) ou “O que é isso, companheiro?” (Fernando Gabeira) – são entranhadas pela memória dos fatos vividos pelo narrador, são verdadeiros documentos históricos e na Argentina têm até valor como prova testemunhal nos julgamentos de torturadores.
Mas há um paradoxo na literatura de testemunho que aprendi lendo a ensaísta argentina Beatriz Sarlo. Por ser realista, a literatura de testemunho só dá conta da experiência de quem sobreviveu ao cárcere das ditaduras, fonte da memória que constrói o relato. Ou de outra forma: mortos e desaparecidos nada narram.
Já vão mais de vinte anos desde que as ditaduras militares do Cone Sul foram derrubadas. Por causa disso, Beatriz Sarlo conclui seu livro “Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva” (2007) afirmando que as narrativas sobre os dramas da ditadura devem agora avançar para além da experiência e aumentar a fabulação – isto é, a criação de ficções – sobre os episódios das ditaduras. Ela explica o motivo dessa guinada melhor do que eu:
A literatura, é claro, não dissolve todos os problemas colocados [pela reflexão sobre a sociedade], nem pode explicá-los, mas nela um narrador sempre pensa de fora da experiência, como se os humanos pudessem se apoderar do pesadelo, e não apenas sofrê-lo.
I Vila Socó
(Vila Socó)
Corpos em chamas se atiram na lama
mulheres e crianças primeiro
caranguejos aplaudem Nagasaki
bebê de oito meses é defumado
enquanto Beatriz
agora entende o poema derradeiro
Beatriz mãe solteira antes de morrer
deu um inútil pontapé na porta.
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