“Invenção de Onira” (1988), romance do autor paraense Sant’Ana Pereira, tem como pano de fundo os eventos da Revolução Cabana (1835-1840),  a Cabanagem, revolta na província do Grão-Pará devido à péssima condição de vida das camadas mais baixas da população impulsionada ainda pela insatisfação das elites locais com o poder central em um país independente há pouco tempo e ainda em formação. A escrita do autor transforma o fato histórico em mito, isto é, algo “capaz de envolver indivíduos e grupos de uma forma totalizante” (Gilberto Velho). É como quando afirmamos que Santos é a terra da liberdade e da caridade: não é algo nem falso nem verdadeiro, é apenas simbólico.

No romance, líderes do movimento reúnem uma população em direção à Cabânia, capital mítica da nação amazônica emancipada. Escrevendo sobre o romance, o professor e antropólogo Dedival Brandão da Silva, além da consideração do primeiro parágrafo, afirma que a viagem tem papel especial nessa conjunção entre Mito e História engendrada pela ficção: é a “ação concreta através da qual é possível deslocar os indivíduos” entre o mundo velho e o mundo novo, e, ao mesmo tempo, é também a “exteriorização” da transformação utópica que a viagem à Cabânia simboliza.

Como qualquer viagem, a viagem mítica também deve começar por algum lugar. E é por um porto que a viagem e o livro começam:

As embarcações amanheceram em frente ao porto da vila. Nada menos do que cento e setenta sete. Dali, da vila de Itaituba, à margem esquerda do rio Tapajós, um pouco mais acima Jacareacanga e as cachoeiras, começaria a grande retirada. Cinco horas da manhã, o primeiro a despertar, alguém bradou a notícia:

-         Olha os navios, pessoal!

Efeito instantâneo, do chão onde se achavam deitados, cabeças e corpos se foram erguendo, a notícia repercutindo. Dentro em pouco, o trapiche não cabia mais ninguém. Ancoradas em filas indianas, a duzentos metros do porto, as embarcações constituíam o mudo espetáculo para quem caminhara dias e dias de distância ou pelo menos algumas dezenas de léguas de beiço. Mesmo aqueles que tinham vindo sem convicção se mostravam empolgados. A maioria, senão todos, jamais vira um navio tão de perto.

O ensaio de Brandão da Silva está no posfácio da terceira edição do livro, publicada em 2009 pela LetraSelvagem, da qual um exemplar foi enviada à coluna junto com outros livros da casa editorial, pelo que agradeço a Nicodemos Sena. A primeira edição e a segunda, sob o título “Cabanos Capital Cabânia”, foram publicadas pela Cejup, de Belém, respectivamente em 1988 e 1998.

A apresentação do autor e críticas sobre o livro podem ser lidas aqui.

Referência
Sant’Ana Pereira. Invenção de Onira. Taubaté: LetraSelvagem, 2009.

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