Parte da crítica literária relaciona a ocorrência dos gêneros literários a determinados espaços (para uma história de naufrágio, por exemplo, são necessários um porto de embarque, uma rota oceânica e uma ilha ou continente distante). Franco Moretti, um geógrafo que estuda literatura, defende que “cada espaço determina, ou pelo menos encoraja, sua própria espécie de história”.


Se há o porto de embarque das histórias de naufrágio, há também o porto de chegada das travessias; foi assim que três renomados poetas estrangeiros cantaram o porto de Santos: o francês Blaise Cendrars, em “Chegada em Santos”, a norte-americana Elizabeth Bishop, no homônimo “Chegada em Santos”, e o chileno Pablo Neruda, em “Santos revisitada”, narraram o momento da chegada no maior porto brasileiro.

 

Chegar se enquadra na teoria do conto que estabelece o deslocamento dos personagens como condutor da narrativa. O protagonista deixa o lar porque deve recuperar sua honra, resgatar a amada, conquistar ou defender um país, buscar a ajuda de um sábio ou simplesmente cuidar da vida (como Leopold Bloom no “Ulysses” de James Joyce). O lance inicial leva o protagonista a lugares ora hostis, ora amigáveis, às vezes neutros, lugares a que deve se adaptar ou transformar, em que fará alianças ou enfrentará adversidades para que a história possa chegar a seu desfecho.

 

Porém, no caso aqui discutido, o deslocamento é dos autores: em cartaz nas unidades do Sesc em São Paulo, a exposição “Pablo Neruda: Navegação e Regresso” revela em seu próprio nome essa relação, que existe também nos nomes dados aos três poemas que têm em comum, antes de tudo, a perspectiva de quem chega ao canal do estuário santista. Apesar das diferentes sensibilidades e estilos, Bishop, Neruda e Cendrars, influenciados pelo espaço portuário, adotam o tempo presente que congela o instantâneo da chegada e a sucessão de paisagens. Registra-se, assim, um modo de fazer o poema de chegada.

 

A seqüência de imagens se repete; as primeiras linhas já definem o impacto da terra à vista: “Penetramos entre montanhas...” (Cendrars), “Eis uma costa; eis um porto” (Bishop), e “Santos! É no Brasil” (Neruda). Depois, a passagem de paisagens e a observação da atividade humana. Comentários sobre o clima remetem (não que tenha sido a intenção dos autores) a um certo passado insalubre da cidade registrado pela história local. Em Cendrars, o sol “atordoa”; já Bishop reclama do calor que não deixa secar a cola nos envelopes que acabam perdendo os selos. Neruda, em sua quarta visita, é mais enfático, rude até: “antes era selvático este porto e cheirava como uma axila do Brasil calorento”.

 

O poema de Neruda talvez seja o mais conhecido pelos santistas. “Santos Revisitada” se inicia sob o impacto da chegada, em tom imperativo:

“Santos! É no Brasil./ E já faz quatro vezes dez anos./ Alguém ao meu lado conversa/ 'Pelé é um super-homem'”.

 

A menção ao Rei do Futebol localiza a ação na passada década de 60, período de glória para a equipe da Vila Belmiro. E depois de um “era” e de um “cheirava” do passado selvático, a enunciação no tempo presente retorna ao verso:

“É um navio,/ E é outro,/ Mil navios!”.

 

O cenário de mil navios remete à natureza da atividade portuária; estão ali os frigoríficos, os edifícios, proas e pavimentos, o café, os “sacos mastigados” e, finalmente, os que trabalham ali: “homens que já morreram e foram substituídos para continuar suando” em uma terra nunca satisfeita “faminta sempre de café”.

“Chegada em Santos” de Cendrars opera pela sucessão de paisagens: as montanhas que circulam a baía, a “garganta” do canal, a fortaleza da barra, as margens e os casebres. As frases são longas e recheadas de orações intercaladas que dilatam a percepção:

“Entramos numa baía interna que acaba numa garganta/ À esquerda há uma praia ofuscante onde circulam carros à/ direita a vegetação tropical muda dura desaba no mar como/ um niágara de clorofila”.

 

Elizabeth Bishop, após registrar a primeira visão da nova terra (“Eis um porto”) inicia registro semelhante em um breve tom de turista indiferente. Mas Bishop não é descritiva como o francês, prefere o comentário: os morros lhe parecem “tristes” e “agrestes” e os armazéns apresentam tons “débeis” de rosa ou de azul. O texto se aproxima da crônica e surge uma coadjuvante, outra passageira, Miss Breen, que tem seu vestido enganchado em algum guindaste, deixa para a autora destacar a movimentação portuária: ela conta 26 cargueiros que aguardam um “carregamento de café que não tem mais fim”. Proliferam-se bandeiras, cédulas e moedas do câmbio corrente e da língua trocada das cidades portuárias: “Os portos são necessários, como os selos e o sabão,/ e nem ligam para a impressão que causam”.

 

Nenhum dos três, todavia, narra a ancoragem ou o desembarque. Os poemas chegam ao fim antes da viagem. Talvez porque o destino de cada um não é a cidade do porto, é o planalto: Cendrars veio para encontrar os modernistas em São Paulo; Bishop, após o desembarque, rumou direto para o interior e, tempos depois, fixou residência em Petrópolis, no Rio de Janeiro. Já Neruda, militante comunista, vinha ao Brasil para encontros políticos e conferências, embora haja registros de compromissos na cidade na década de 50. A poesia desses artistas reforça o caráter de corredor internacional do porto santista, ponto de partida ou chegada, não de fixação.

A convergência temática e narrativa leva a uma idéia comum nas ficções e ensaios literários de Jorge Luis Borges, Umberto Eco ou Ítalo Calvino: a de que a literatura é feita mais de obras que de autores. Os pontos em comum indicam que Neruda, Bishop e Cendrars nada mais que atenderam a um apelo narrativo do cais do porto – um certo “narra-me ou te devoro” -, máquina de histórias que, por sua vez, são fragmentos de um único poema universal, ou a biblioteca infinita, na imagem consagrada de Borges.

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