Clique aqui para ler a primeira parte deste artigo.

II
Mais já para além da metade da aula Barthes escreveu / disse algo que ilumina essa obsessão expressa em “El mal de Montano” pelo perigo que a literatura possa correr. Para ele, o ato criativo é “não propriamente um Triunfo sobre a Morte, mas uma Dialética do Indivíduo e da Espécie”. As anotações, com uma profusão de sinais e traços e uma brevidade de lista de itens, revelam o componente afetivo, ou psicológico, da obra de Vila-Matas:

… “acabo” (a obra) e morro, mas, ao fazê-lo, algo continua: a Espécie, a literatura. Eis por que a ameaça de definhamento ou de extinção que pode pesar sobre a literatura soa como extermínio de espécie, uma forma de genocídio espiritual.

Escrevi sobre El Mal de Montano que o livro é formado por uma narrativa por capítulos em que o narrador / protagonista é ficcionalizado sempre com aspectos parecidos, mas de forma levemente alterada entre uma parte e outra do livro e que todas as partes têm a própria literatura, principalmente diários de autores, como matéria-prima. Barthes morreu em março de 1980, um mês após o fim do curso e poucos meses antes de completar 65 anos, mas parece, como não poderia deixar de ser, que leu “El mal de Montano” melhor do que eu:

Compreendemos bem o que acontece na relação do Livro anterior com a Escrita ulterior: a) Há uma imitação muito difusa, mesclando, se necessário, vários autores amados, e não uma imitação única e maníaca: o que ’inspira’ o leitor-escritor (aquele que ’espera’ escrever) já é, para além de determinado autor amorosamente admirado, uma espécie de objeto global: a Literatura (como Proust diz: a Pintura). b) A ’inspiração’ é conduzida ’por trocas’; há trocas de conceitos (eu diria de ’fantasias’) estéticos: “a idéia de bela pintura”, “um belo efeito de pintura” etc. c) Essa idéia copiada (e não o que ela representa) é ’preconcebida’: é preciso concebê-la antes de escrever, concebê-la entre ’ler e escrever’ essa relação ’terceira’ (em patamares), que diferencia a inspiração da simples imitação...

III
A lida de Flávio Viegas Amoreira com a escrita sobre a literatura toma outro caminho e se dobra sobre a própria linguagem, torcendo a gramática e a sintaxe, usando neologismos, arcaísmos e fazendo desvios por outras línguas, do qual exemplo é o seguinte trecho de “Edoardo, o Ele de Nós”, nessa triângulo afetivo impactado pelo 11 de setembro:

Deus alimenta escrita / reproduzimos sua insubstancialidade. Obsessivamente reescrevovo: revolvendo amarfanho escarafanchono sílabas prenhadas. Volumes juvenis linguajar denso escritor tímido cultivado tinha medo dar tudo ao mundo, torno-me gaveta em chamas abrasivo pululundo eiras. O primeiro que esqueço é o mais amor tido: indiferenças rondam / paixão parece aquilo que guardo no Juízo Final onde saberei das quantas / pouquinho fica fica esmigualhado / mesquinhezas são segundos /paixão é na ponta da vida inteira. Terei você Edoardo além da conta imprecisa.

Até no detalhe da relação triangular afetiva, a aula de Barthes também ilumina a dissolução da linguagem no fazer da escritura de Flávio Viegas Amoreira:

Ora, o que busco, o que quero, é que algo ocorra: ’uma aventura’, a própria dialética de uma conjunção amorosa, em que cada um vai deformar o outro por amor, e de modo a criar um terceiro termo: ou a própria relação, ou a obra nova, ’inspirada’ pela antiga.

Ainda na mesma aula, Barthes me ensinou uma explicação sobre a profusão do verso de Amoreira, “chuva no mar é desejo”, de “Escorbuto – Cantos da Costa”, mantra já transformado em música (três vezes), cartazes, coleção de roupas. É o que o professor chama de “frase-sensação” ou “frase-observação”, aquela que muitas vezes é anotada em uma caderneta, em uma folha de papel, que se torna um signo de um livro ou de uma obra. Leitor e admirador de Barthes, o próprio Flávio, nesse jogo da imitação / inspiração, usa procedimentos semelhantes, como as barras colocadas separando as frases como versos, a profusão de dois pontos (algo em comum com Barthes).

Há uma frase de Umberto Eco que já usei recentemente em epígrafe a uma coluna, mas creio que vale aqui outra vez: “Os livros falam entre si”.

Pós Escrito
No total, o segundo volume das anotações traz 11 aulas. Hoje Porto Literário se debruçou apenas sobre a primeira. Creio que a leitura das anotações acompanhará a coluna por muitas semanas ainda.

Referências
Roland Barthes. A preparação do romance II: a obra como vontade: notas de curso no Collège de France 1979-1980. Texto estabelecido e anotado por Nathalie Léger. Tradução Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
Enrique Vila-Matas. El mal de Montano. Barcelona, Espanha: Anagrama, 2002.
Flávio Viegas Amoreira. Edoardo, o Ele de Nós. Rio de Janeiro: 7Letras, 2007.

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