Por volta de 1908, data aproximada dos cartões-postais que ilustram o artigo, não existiam os guindastes de primeira geração ou qualquer outro tipo de equipamentos para embarque de cargas em número suficiente. As sacas de café eram transportadas dos armazéns de café, como o da São Paulo Railway, até os navios em carroças e carretões. Lá chegando, eram carregadas para bordo sobre os ombros dos trabalhadores. Estes realmente demonstravam grande força física.


Carroças e carretões transportando sacas de café dos armazéns para
embarque, onde os carregadores levavam para bordo. O local é nas
imediações da Alfândega e o vapor é o Duchesa di Genova. Col. do autor.

Alguns trabalhadores carregavam várias sacas sobre a cabeça, como demonstram fotografias do início do século XX presentes neste espaço.
 
Vale recordar que, antes da construção do cais de pedra, cuja inauguração foi feita pelo navio britânico Nasmith, da armadora Lamport & Holt, em 1892, o serviço era ainda pior. Além de caminharem uma maior distância com a carga pesada sobre a cabeça, os trabalhadores tinham que subir a bordo equilibrando-se ao longo de estreitas pranchas que ligavam as pontes dos trapiches aos navios.


Foto para a posteridade: trabalhadores com sacas de 60 quilos, no cais e na
estreita prancha para ingresso a bordo. Ao fundo, um guindaste da primeira
geração (eram movidos a vapor) - por volta de 1908. Col. do autor.

Recordação
O poeta e advogado santista Narciso de Andrade que tão bem cantava os nosso espaços portuários e marítimos não se esquecia dos trabalhadores que mourejavam sob o calor intenso  e desempenhavam papel fundamental nas exportações para várias partes do mundo, do nosso ouro verde: o café.

Em um de seus tantos artigos publicados no jornal A Tribuna de Santos, pode-se destacar o do dia 09 de março de 1997, quando abordou o livro "Photographias & Fotografias do Porto de Santos", de autoria do autor desta coluna em parceria com Jaime Caldas, José Carlos Rossini e Nelson Antonio Carrera. Narciso comenta com maestria e sinceridade:


Carregadores posando com as pesadas sacas de café, antes do embarque. Col. do autor.

“No pátio os carroções esperando a vez para receberem o carregamento – Café du Brésil. E, em outro trecho do cais, a indefectível e emblemática fila de carregadores, sessenta, eu disse sessenta quilos de café em sacas nas costas de cada um”

Na sequência, Narciso testemunha: “na foto contei 19 posando para a posteridade, no ano de 1908. Não havia problema de desemprego nessa ocasião, creio, o homem ainda não fora substituído pelas máquinas e os políticos eram menos sujos... creio”.


Cartão-postal com cenas típicas do porto santista, mostrando o árduo
trabalho dos carregadores durante os embarques na primeira década do
século passado. Col. do autor.

Novos tempos
Hoje, nesses tempos em que as máquinas substituem cada vez mais a força física, dificilmente alguém aguentaria tanto peso.

Vale dizer que o café apareceu como produto de exportação no fim do século XXVIII, substituindo o açúcar. Com a sua chegada a Santos, os trapiches estendidos sobre o estuário passaram a ser cada vez mais disputados.


Embarque de café  emum navio atracado na antiga concessionária do Porto
de Santos, a Cia. Docas de Santos (1890-1990). Nota-se a fila de
trabalhadores subindo a prancha de embarque. Col. do autor.

Depois da construção do cais de pedra e, principalmente, do raiar do século XX, aumentaram os embarques do produto, valorizando ainda mais a vontade e o vigor dos trabalhadores portuários do cais santista.

Tudo isso é parte da rica história do desenvolvimento do País.


A pintura de Benedito Calixto mostra como era o Porto de Santos com suas
pontes de atracação, antes da construção do cais de pedra. Reprodução.


A foto de J. Marques Pereira mostra carretões aguardando o momento de
descarga para embarque de sacas contendo o ouro verde. O trabalho dos
carroceiros também era árduo, assim como os dos carregadores. Todos eles
estavam sujeitos ao calor e ao frio. Col. do autor.

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