Nós somos o que fazemos
para deixar de ser o que somos

(Eduardo Galeano)

O Rio de Janeiro é, agora, patrimônio mundial. Título concedido pela Unesco durante a 36ª Sessão do seu Comitê para o tema, em São Petersburgo, na Rússia. É o primeiro caso de cidade como “paisagem cultural urbana”, conceito adotado a partir de 1992, mas que, até agora, só havia contemplado sistemas agrícolas tradicionais, jardins históricos e locais de cunho simbólico, religioso e afetivo.



Não deixa de ser irônico, todavia, que os principais ícones que demarcam e fundamentaram tal escolha encontrariam, nos dias de hoje, enormes dificuldades para serem licenciados, urbana e ambientalmente – talvez nem o fossem: o Cristo Redentor, a Praia e o Forte de Copacabana, o Bondinho do Pão de Açúcar, o Aterro do Flamengo… eventualmente, até, o próprio Jardim Botânico!

As milhares de pessoas que, diariamente, têm de esperar horas à fio para visitar a exposição “Impressionismo: Paris e a Modernidade“ (em São Paulo, até 7/OUT próximo), promovida pelo Banco do Brasil, além de saírem impactadas pela estética das obras, acabam também o sendo pela transformação que a cidade experimentou durante aquele período: de uma urbanização lúgubre e, em muitos casos insalubre, para se tornar a “cidade luz”.

De igual forma, não deixa de ser irônico que os novos espaços que foram abertos, os aprazíveis parques públicos que inspiraram tantas telas de pic-nics (Bois de Boulonne e de Vencenes), os impactantes prédios públicos, destacando-se as estações que viabilizaram a chegada dos trens ao coração da cidade (Gare Lyon e Gare du Nord), composição que tanto encanta os turistas e estudiosos, custou a destruição de mais de 120.000 edificações durante a longa gestão de Haussmann (de 1853/70); o “artista da destruição” (ou “artista demolidor”). E mais: que tenha inspirado bem sucedidas reformas urbanas posteriores, como a de Buenos Aires (Torquato de Alvear), Nova York (Robert Moses) e a do próprio Rio de Janeiro (Pereira Passos).

Estavam eles ou estamos nós (no Brasil) certos? (Ou cada um a seu tempo?) Avançamos ou regredimos? Quantas Paris ou Rios podem estar deixando de ser, neste momento, edificadas? Urbanística, infraestrutural, econômica e socialmente, do que podemos estar privando as futuras gerações?

Próximo: “Lei dos Portos + 20 (III)”

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