A conferência ainda está a meio caminho. Mas, neste seu 2º dia, o noticiário é dominado pela polêmica do quão ambicioso será seu documento final; não faltando já acusações entre países e entre setores.

Todavia, a se julgar pelo “rascunho-zero”, parido após enorme esforço, na 25º hora, é possível dizer-se, de antemão, que mobilidade, logística e todas as modalidades de transporte dele estarão ausentes. Transporte, em si, é citado apenas uma vez (§ 72) e, bem assim, colateral e genericamente; fato destacado nos 22 (entre centenas, quase milhar!) de “eventos paralelos” relacionados ao tema.

Mas devia ser? No de Johanesburgo, 10 anos atrás, havia parágrafo compromissando os países a “promover um sistema de transporte mais eficiente, seguro, confortável e inclusivo”.

Por outro lado, os mais envolvidos fazem questão de frisar que essa não é mais uma conferência de mudanças climáticas... apenas. Que, na verdade, e como também se viu nos discursos dos chefes de estado na abertura, a agenda está sendo atualizada, 20 anos depois, para requalificar a(s?) “governança” e potencializar a erradicação da pobreza e a transição para uma (não claramente definida) “economia verde”. Se esses são os pilares e/ou os objetivos, como imaginá-lo sem ações no transporte, na mobilidade, na logística?

Transporte é responsável por 13% das emissões planetárias totais - 23% daquelas relacionadas ao uso de combustíveis. O Brasil, que combina uma matriz energética “limpa” e uma matriz de transportes “suja”, 42%. O Estado de São Paulo mais da metade (57%). E a Região Metropolitana de SP algo como 2/3.

Somos 7 bilhões de seres humanos no planeta. Estima-se que seremos 9 bilhões em 2050; 70% vivendo em cidades – parcela ponderável nas megametrópoles. Nas brasileiras, o tempo consumido em deslocamentos cresce continuamente; frotas de veículos, congestionamentos e o número de acidentes seguem aumentando; o espaço viário é escasso e finito; os transportes públicos estão saturados. E, lógico, é a população de renda mais baixa que mais sente os efeitos desse quadro.

Por outro lado, a globalização impõe aumento mais que proporcional de toneladas-km per capita e/ou por unidade de PIB; enquanto que a circulação de cargas urbanas, regionais e nacionais, imprescindível à dinâmica da economia e ao abastecimento dos cidadãos urbanos, enfrenta mais e novas formas de restrições.

Enfim: A agenda da erradicação da pobreza e para a transição a uma “economia verde”, qualquer que seja sua definição (“desenvolvimento sustentável”, mais genericamente), requer esforços maiores, mais explícitos e mais urgentes nesses setores. A começar por um espaço maior na agenda.

Próximo: “Audiência Pública: Do que se trata?”

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