Na última semana, esta coluna abordou o novo trabalhador portuário e a ação coletiva. O foco foi mostrar como este novo trabalhador, com novas qualificações, pode não ser inserido no movimento sindical, por conta deste não acompanhar as mudanças. Entretanto, não debatemos sobre este trabalhador, que possui novas qualificações impelidas pela introdução da máquina, a assim chamada inovação tecnológica, no seu cotidiano.

No mesmo momento em que estava refletindo sobre este novo trabalhador, tive que ler um capítulo de O Capital, de Karl Marx, intitulado Maquinaria e Grande Indústria. Marx explica a diferença entre manufatura e maquinofatura, como a segunda se desenvolve e quais suas conseqüências. Em um determinado momento do texto, na parte dedicada a fábrica, Marx começa a falar sobre a relação trabalhador e máquina, o qual me chamou muita atenção, devido a importante análise que nos permite fazer sobre os portos na contemporaneidade. A citação abaixo nos diz muito neste sentido.

Na manufatura e no artesanato, o trabalhador se serve da ferramenta; na fábrica, ele serve a máquina. Lá, é dele que parte o movimento do meio de trabalho; aqui ele precisa acompanhar o movimento. Na manufatura, os trabalhadores constituem membros de um mecanismo vivo. Na fábrica, há um mecanismo morto, independente deles, ao qual são incorporados como um apêndice vivo. (MARX,1996, p. 55)

Fazendo uma analogia entre a fábrica e o porto, o porto modernizado é o lugar das máquinas, onde os homens apenas as operam, mas quem faz o trabalho efetivamente é a máquina. Em alguns momentos, nem mesmo o homem opera a máquina, ela realiza o processo a um único comando e pára quando determinado. Mas, o quão diferente o processo de trabalho fabril era do processo de trabalho anterior a modernização?

Mas não é só o caráter da supervisão que distingue a estiva da fábrica. O próprio processo de trabalho também é muito diverso do fabril, consistindo em operações de transferência e movimentação de carga de um lugar a outro, feitas manualmente com a ajuda de alguns equipamentos - guindastes, paus de carga e cábreas de bordo (no início do século, praticamente só os primeiros). Não há, portanto, uma estruturação tecnológica do trabalho, nem um sistema de máquina que comande o processo de trabalho, discipline e organize os trabalhadores. Assim, o maquinário não exerce o tipo de pressão e coerção sobre os indivíduos que tende a caracterizar a atividade produtiva no contexto fabril. No navio, os homens não são apêndices da máquina, e sim a máquina é um apêndice dos homens. (CRUZ, 1998, p. 57)

Quando comparamos o processo de trabalho atual com o processo de trabalho anterior a modernização, expresso nesta citação de Cruz, vemos o quanto a idéia da fábrica penetrou no setor portuário e quanto este novo trabalhador pode ser, nos termos de Marx, um ser mutilado do saber do seu trabalho, pois para ele, “(...) a máquina não livra o trabalhador do trabalho, mas seu trabalho de conteúdo” (MARX, 1996, p. 55-56). Ou seja, o novo trabalhador portuário não adquire a solidariedade e a consciência de classe existente outrora, pois, atualmente, o trabalho portuário reveste-se da alienação presente no trabalho fabril, que esvazia o sentido do trabalho e separa o homem do produto do seu trabalho.

Desta forma, a ação coletiva deve buscar agregar este novo trabalhador, mas tendo em vista a necessidade de, como ouvi dizer um dia em uma aula, “desvendar o véu da produção” e mostrar o quanto sua ação enquanto trabalhador social é diminuída pelo atual processo de trabalho portuário.

Referências bibliográficas 
CRUZ, Maria Cecília Velasco e. Virando o Jogo: Estivadores e Carregadores no Rio de Janeiro da Primeira República. 1998. Tese (Doutorado em Sociologia) Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo. São Paulo.

MARX, Karl. Maquinaria e Grande Indústria. In O Capital. Crítica da Economia Política. Livro Primeiro. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

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