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Júlia assim vai reconstituindo a trajetória de sua mãe, mulher que se torna lenda quando retorna à aldeia natal para escrever o nome da avó no túmulo. Ao enfrentar os homens do local em busca de seu filho, Nawal ganha a admiração das mulheres da região e uma delas, Sawda, a Mulher que Canta, pede para acompanhá-la em troca de ensiná-la a cantar. Ao longo dos anos, as duas vagam entre campos de refugiados, conflitos e prisões até que se confundem e se transformam em lendas.

Seu filho, o que os gêmeos não sabiam da existência, corta o país em direção contrária em busca da mãe. Só que acabam em lados opostos. Em sua peregrinação pelo deserto, torna-se franco atirador e, em seguida, torturador e, quando Nawal é presa, passa a tortura-la e violenta-la repetidamente, até que ela engravida (anos mais tarde, a própria Nawal, já uma advogada vivendo na América, faria parte do tribunal internacional que condenaria o criminoso).

O diretor da peça e adaptador para os palcos mexicanos, descreve assim o espetáculo no site do grupo: “Partindo do mito de Édipo e o levando aos campos de batalha do Oriente Médio, Wajdi Mouawad elabora uma tragédia contemporânea, gerando um texto incendiário que nos deixa completamente vulneráveis a nós mesmos, a nossa memória, a nossos medos, dúvidas e certezas, mas com a possibilidade de esperança como último ato de justiça e redenção”.

Simón já está atrás de Júlia e os dois acabam por descobrir juntos que o irmão que não sabiam da existência e o pai que achavam morto eram a mesma pessoa. Eles chegam juntos à prisão e juntos entregam as cartas, uma de amor ao filho e outra, um acerto de contas, ao torturador, lidas uma em seguida à outra (nesse momento, o texto das cartas é falado pela atriz que interpreta Nawal, Karina Gidi). O tom é sublime, ainda que trágico, como se estivéssemos presentes a uma encenação na Grécia antiga, à espera do efeito catártico que, enfim ocorre com a leitura final de carta, entregue pela advogado a Simón e Júlia após terem concluído a busca pelo pai/irmão:

Simón,
Chora?

Se chora, não seque suas lágrimas

Porque eu não seco as minhas.

A infância é uma faca cravada na garganta
E você soube arrancá-la.

Agora, deve voltar a aprender a engolir saliva.

Às vezes é um ação bem difícil.

Engolir saliva.

Agora, há que reconstruir a história.

A história está em pedaços.

Docemente

Consolar cada pedaço

Docemente
Aliviar cada lembrança

Acalentar cada imagem.

Júlia,
Sorri?

Se sorri, não termine seu riso
Porque eu não termino de sorrir

É o riso da raiva

Das mulheres caminhando juntas

Seu nome seria Sawda

Mas esse nome ainda é, apenas em pronunciá-lo,

Com cada uma de suas letras,

Uma ferida sangrando no fundo de meu coração.

Ria, Júlia, ria

Não permita que ninguém diga quando passe

Lá vai
A menina de olhar triste

Não fui generosa

Seu coração permaneceu fechado

Ria,

Nós,

Nossa família,

As mulheres de nossa família estão consumidas pela raiva.

Eu sentia raiva da minha mãe

Assim como você sente raiva de mim.

E assim como minha mãe sentia raiva da sua.

Deve-se romper o fio.

Júlia, Simón,

Onde começa a história de vocês?

No nascimento?

Então começa no horror.

No nascimento de seu pai?

Então é uma bela história de amor.

Mas se voltarmos para trás,

Talvez descubramos que essa história de amor

Tem sua origem no sangue, no estupro

E que por sua vez

O sanguinário e o violador

Têm sua origem no amor.

Assim que,

Quando lhe perguntarem sua história,

Digam que sua história, sua origem,

Está no dia em que uma jovem
retornou a sua aldeia para escrever ali o nome de sua avó

Nazira sobre sua tumba.

Aí começa a história.

Júlia, Simón,

Por que não lhes falei disto?

Há verdades que não podem ser reveladas, mas descobertas.

Vocês abriram o envelope, vocês romperam o silêncio

Escrevam meu nome sobre a pedra

E ponham a pedra sobre minha tumba.

Sua mãe.

Ser trágico, mítico, Nawal consegue reunir experiência e compreensão, degradação e esperança, violência e amor. “Incêndios” (trailer abaixo) continua queimando dias e dias após a sessão.

Ficha técnica
Texto: Wajdi Mouawad
Tradução para o espanhol: Humberto Pérez Mortera
Direção e adaptação: Hugo Arrevillaga
Assistência de Direção: Anabel Caballero
Coprodução: Tapioca Inn e Secretaría de Cultura de La Ciudad de México
Com: Karina Gidi, Pedro Mira, Rebeca Trejo, Jorge Léón, Alejandra Chacón, Javier Oliván, Concepción Márquez, Guillermo Villegas
Cenografia e Iluminação: Auda Caraza & Atenea Chávez
Vestuário: Mario Marín del Río
Música Original y Musicalização: Ariel Cavalieri, Carla Borghetti y Hugo Arrevillaga
Ilustração: Manuel Monroy
Design Gráfico: Miguel Durán
Assistência de Iluminação: Roberto Paredes

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