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Em 1949, apenas quarto anos após o fim da Segunda Guerra (1939-1945), o mesmo Borges (1899-1986) já havia publicado em “O Aleph” a narrativa “Deutsches Requiem”, em que o narrador, nos mesmos moldes do romance de 2006, um oficial nazista, o subdiretor do campo de concentração de Tarnowitz, Otto Dietrich zur Linde, registra seu próprio epitáfio:

Os que souberem ouvir-me compreenderão a história da Alemanha e a futura história do mundo. Eu sei que casos como o meu, excepcionais e assombrosos agora, serão muito em breve triviais. Amanhã morrerei, mas sou um símbolo de gerações do futuro.

II
Após essa nota, voltemos à ideia de precursores inventados dos autores do primeiro parágrafo, da qual “Deutsches Requiem” certamente faz parte. Outro precursor é o próprio Kafka (1883-1924) que, em “Na Colônia Penal” (1919), mostra um estrangeiro em visita à prisão do título, onde um oficial lhe apresenta o funcionamento de uma máquina monstruosa que executa suas vítimas ao escrever a pena recebida com centenas de agulhas em seu corpo até a morte. O oficial responsável pela máquina lamenta ao visitante que o novo comandante da colônia não aprecie a maravilha criada por seu antecessor. Lá está outra vez, ainda que em decadência, o discurso monstruoso sendo trabalhado pela ficção para que possamos nos apropriar dos fatos, não apenas sofrê-los.

E agora eu lhe pergunto: será que por causa desse comandante e das mulheres que o influenciam deve parecer a obra de toda uma vida, como esta? – e apontou para a máquina. – Pode-se permitir uma coisa dessas, mesmo que só se esteja passando alguns dias em nossa ilha como estrangeiro? Mas não há tempo a perder, estão preparando alguma coisa contra o meu poder judicial; já se realizam reuniões de consulta no comando, para as quais não sou convocado; mesmo a visita do senhor, hoje, parece significativa da minha situação; são covardes e mandam à frente o senhor, um estrangeiro. Como era diferente a execução nos velhos tempos! Já um dia antes o vale inteiro estava superlotado de gente; todos vinham só para ver; de manhã cedo o comandante aparecia com as suas damas; as fanfarras acordavam todo o acampamento; eu fazia o anúncio de que estava tudo pronto; a sociedade – nenhum alto funcionário podia faltar – se alinhava em volta da máquina; esta pilha de cadeiras de palha é um pobre resquício daqueles tempos. A máquina, polida pouco antes, resplendia; praticamente a cada execução eu dispunha de peças novas. Diante de centenas de olhos – todos os espectadores ficavam nas pontas dos pés até aquela elevação – o condenado era posto sob o rastelo pelo próprio comandante. O que hoje um soldado raso pode fazer, era naquela época tarefa minha, presidente do tribunal, e ela me honrava. E então começava a execução!

Mais do que explicar, a narrativa de Kafka mostra, como escreve o tradutor Modesto Carone no posfácio de uma edição em conjunto com outro texto, “O Veredicto”: “Pois a verdade é que as histórias de Kafka não são explicações, mas imagens”, imagens precursoras de boa parte da boa ficção dos 100 anos seguintes.

Pós Escrito – Comissão da Ficção
Enquanto os fantasmas militares e suas fardas e fraldas da reserva seguem pressionando para que a Comissão da Verdade se transforme na Comissão da Anistia, espero que surjam no horizonte da ficção brasileira novas obras que formem a Comissão da Ficção. Enquanto a verdade é fustigada e bravatas proferidas contra a luz e o acesso a documentos, talvez os ficcionistas possam alcançar o horror destas mentes e exorcizá-los em um monumento literário aos que tombaram na luta e aos que foram assassinados pelo terror de Estado.

Referências
Jorge Luis Borges. Deutsches Requiem. In: O Aleph. Tradução de Flávio José Cardozo. In: Obras Completas. Volume 1. São Paulo: Globo, 1998.

Franz Kafka, O veredicto / Na colônia penal. Tradução de Modesto Carone. São Paulo, Companhia das Letras, 1998.

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