O autor alemão W.G. Sebald (1944-2001) tem sido publicado no Brasil no últimos anos e atraído a atenção de críticos e leitores. O efeito da união de fotografias antigas ao longo das narrativas de “Os Emigrantes”, por exemplo, promove um efeito de verossimilhança, de verdade, até, que põe o leitor em contato direto com uma vida, ainda que fictícia.


Reprodução de imagem de paisagem que abre a narrativa "O Dr. Henry Selwyn"

Na primeira delas, “O Dr. Henry Selwyn”, o narrador, que chega com a esposa a uma propriedade para alugar uma residência, conta seu encontro com o homem que dá título ao texto:

Contemplamos longamente, mudos , aquela propriedade que subia e descia em degraus, levando o olhar para a distância, e pensávamos estar inteiramente sozinhos, quando percebemos um vulto imóvel estirado na meia-sombra que um alto cedro, no canto sudoeste do jardim, deitava sobre a relva. Era um velho, com a cabeça apoiada no braço dobrado, parecendo inteiramente absorto na contemplação do palmo de terra diante de seus olhos. Atravessamos o gramado, que tornava nossos passos maravilhosamente leves, e fomos até ele. Mas só quando estávamos bem perto é que nos percebeu, erguendo-se um pouco constrangido.

A visita do jovem casal em busca de residência reanima o Dr. Selwyn de seu isolamento e este passa a procurar o narrador ocasionalmente para conversar. Dr. Henry Selwyn foi uma vez Hersch Seweryn e, em uma destas ocasiões, ele conta como deixou a Lituânia junto com a família durante a infância e se tornar um médico aposentado inglês no início da década de 1970. A passagem é longa, mas bela e cheia de significado:

… Clara tinha ido à cidade, o dr. Selwyn e eu entramos numa conversa mais longa, que começou com o dr. Selwyn me perguntando se eu não sentia saudades de casa. Não soube bem o que responder, mas ele, depois de refletir um pouco, confessou-me – não sei de outra palavra para a situação – que no curso dos últimos anos sentia cada vez mais saudades de casa. Quando quis saber o lugar a que essas saudades o levavam, ele me contou que na idade de sete anos tinha emigrado com a família de uma aldeia lituana perto de Grodno. Fora no fim do outono de 1899 que seus pais, as irmãs Gita e Raja e o tio Shani Feldhendler tinham viajado para Grodno na carroça do cocheiro Aaron Wald. Por décadas as imagens dessa partida andaram sumidas da memória dele, mas nos últimos tempos voltavam a toda hora. Ainda posso ver no Cheder, a escola que eu frequentava em criança, o professor botando a mão em minha cabeça. Vejo os quartos vazios. Vejo-me sentado bem no alto da carroça, vejo o lombo dos cavalos, a terra castanha e ampla, os gansos do lamaçal das granjas com os pescoços esticados e a sala de espera da estação de Grodno com o aquecedor no meio da sala, protegido por grades e superaquecidos, e as famílias de emigrantes instaladas ao redor dele. Vejo os fio de telégrafo subindo e descendo diante das janelas do trem, vejo as fachadas das casas de Riga, o navio no porto e o canto escuro do convés onde, com todas as limitações da circunstância, procuramos nos acomodar em alto-mar; lembro o rastro de fumaça, o horizonte cinzento, o subir e o descer do navio, o medo e a esperança que todos sentíamos; revivo tudo isso, disse-me o dr. Selwyn, como se fosse ontem.

Epílogo
As imagens dialogando com a narrativa, a mudança de um casal despertando um relato da memória, sem esquecer que o próprio narrador relata, por sua vez, a lembrança de velho que lembra da infância. Ao que se pode acrescentar a enigmática epígrafe ao relato “O Dr. Henry Selwyn”, mas que talvez valha como epitáfio à figura Henry Selwyn, ou até mesmo a Hersch Seweryn: “E o que resta não destrói a memória”.

“Os Emigrantes” é um livro de deslocamentos.

Referência
W.G. Sebald. Os Emigrantes. Tradução de Lya Luft. Rio de Janeiro: Record, 2002.

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