Quem gosta de ler uma obra literária cujo cenário são as ruas e avenidas pelas quais passa todo dia pode começar a procurar nos sebos da cidade uma edição de ‘Navios Iluminados’, livro escrito em 1937 pelo médico sergipano Ranulpho Prata. O bairro portuário do Macuco é o grande personagem deste romance em que as pessoas vivem em torno do prédio da Inspetoria da Companhia Docas de Santos.

 

As vidas de José Severino, Felício, Manuel Milagre, Perigo, Valentim e Florinda (alguns dos personagens) são pautadas pelo trabalho no porto. Toda manhã, eles levantam com as sirenes das Docas que acordam o bairro “onde se alojava a maioria dos seus cinco mil operários”. Da casa para o trabalho e do trabalho para casa, eles cruzam ruas e avenidas que, quase 70 anos depois, ainda chamamos pelos mesmos nomes: Rodrigues Alves, Senador Dantas, Conselheiro João Alfredo, João Guerra, Rodrigo Silva e Manuel Tourinho. Na “grande rua do Cais”, como o autor trata a Avenida Portuária, os estivadores percorrem os armazéns de números 1 ao 27 na lombação de cargas de todo dia. E, para ir ao sindicato ou tirar um documento, vão para a Cidade e passam pela Praça Mauá, pela Rua do Comércio, João Otávio, Xavier da Silveira, Senador Feijó ou pela General Câmara.

 

Mostrando os primeiros dias do migrante baiano José Severino na cidade, Ranulpho Prata logo no primeiro capítulo assim descreve o Macuco: “o grande bairro que lhe parecia um labirinto com o cruzar e entrecruzar de suas ruas compridas, sem calçamento, ladeadas de valas e de chalés de madeira muito parecidos uns com os outros, como gente da mesma família”. De diferente, só o imponente prédio da Inspetoria, referência para as caminhadas do novo morador.

 

Um dos locais em que os personagens se encontram é o bar Ao Gaiato de Lisboa, na esquina entre a Rodrigues Alves e a Senador Dantas. Com outro nome, é uma padaria que está lá hoje no lugar. É no Ao Gaiato que os trabalhadores do bairro se reúnem para uns aperitivos ou para consultar a seção de classificados de A Tribuna atrás de oportunidades. Outro espaço de sociabilização é a calçada em frente ao prédio da Companhia, lugar onde esposas e filhas se encontram com maridos e pais para lhes trazer em panelas cobertas de panos o almoço que ali mesmo é devorado. O trânsito daquele trecho naquele tempo era marcado pela passagem da linha de bonde número 5, hoje servido pelo circular 8. O bonde 19 também passa pelo Macuco das páginas de ‘Navios Iluminados’. Nos dias de hoje, o circular de mesmo número ainda atravessa um pedaço da Rodrigues Alves entre a Conselheiro Nébias e a Afonso Pena. Solteiros, Severino e Felício por sua vez freqüentam as cantinas dos armazéns onde a turma 65, a que pertenciam, fazia a estiva das cargas.

 

O Macuco daqueles tempo não era um lugar fácil: “Viver, para o bairro, era uma batalha que não dava tréguas. Uma folga só para os sem filhos. Para quem tinha nas costas uma ninhada deles, só Deus sabia como atravessavam. Não morriam de fome porque a Providência velava, num milagre constante, de cada dia, de cada minuto”. Lembremos que a história se passa antes da instituição do salário-mínimo e da implantação da Justiça Trabalhista no Brasil.

 

Quanto mais distantes do prédio da Docas, pior a qualidade das habitações do bairro. Nos primeiros capítulos, Severino divide com Felício um quarto de pensão em um chalé na João Alfredo, a 15 minutos de caminhada até o prédio da Inspetoria. Após brigar com os proprietários devido ao namoro com a filha deles, Florinda, Severino e o amigo mudam-se para outra pensão, também nas proximidades do trabalho, na Senador Dantas, bem na beira do cais.

 

Casado com Florinda, ele se muda para um quarto e sala alugado também de um chalé, na Rodrigo Silva, ainda na região mais próxima ao prédio da Docas. As coisas começam a mudar alguns meses depois do casamento, quando Severino contrai tuberculose. Com os vencimentos cortados pela metade por causa da segunda licença médica, o casal e um par de filhos gêmeos mudam-se para outro chalé na mesma rua, só que desta vez o dinheiro só dá para um cômodo no porão cimentado: “o chalé era antigo e malfeito. O vento, assobiando fino, entrava pela frestas das paredes. Pedro [um dos gêmeos] adoeceu do intestino. Quando a roda desanda...”. Florinda começa a trabalhar também, lavando roupa, mas perde clientes logo que a notícia da doença do marido se espalha pelo bairro. E a roda continua a desandar...

 

A solução encontrada por Severino é partir para o pavilhão de tuberculosos da Santa Casa para que a esposa possa sustentar a casa. Com saudades, ele acaba deixando o hospital e a família reunida se muda novamente, desta vez para outro porão na Manuel Tourinho, ainda mais distante do prédio da Inspetoria. Vale a pena acompanhar o parágrafo que descreve o local:

 

“Os encanamentos que vinham de cima, dos três andares, se reuniam ali, cruzando-se e entrecruzando-se em todas as direções, comidos de ferrugem, de juntas tomadas com uma mistura de sebo e fios de aniagem, o que não impedia o pingamento de líquidos suspeitos. Num canto, um cilindro de ferro de um metro de altura, grosso como uma talha: a caixa de gordura, onde se acumulavam todos os detritos e porcarias que desciam das cozinhas. Aquilo, afinal, não era porão, nem cômodo, nem quarto. Apenas uma invenção do proprietário para aproveitar espaço e aumentar as rendas”.

 

A historiadora Ana Lúcia Duarte Lanna, na obra ‘Uma cidade na transição. Santos: 1870-1913’, analisa que as duras condições de vida dos moradores do bairro personalizados em Severino eram o outro lado do sonho de uma casa “limpa, enfeitada, e uma esposa dedicada”, quase alcançado nos primeiros meses de casamento. Sonho que o avanço da doença acaba por destruir: “Quando mais doente mais longe da casa-lar”, destaca.

 

Literatura proletária – ‘Navios Iluminados’ foi escrito por Ranulpho Prata em pleno movimento do romance proletário, marcado por obras inspiradas na vida dos trabalhadores dos centros urbanos e industriais. De cunho realista, a literatura proletária tinha a intenção de se aproximar dos fatos, dando ao texto um caráter documental. Outras obras realizadas no mesmo contexto cultural e político de ‘Navios Iluminados’ são ‘Gororoba’ (1931), em que o engenheiro mecânico Juvêncio Campos relata sua experiência na construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré, e ‘Parque Industrial’, onde a santista Patrícia Galvão narra os conflitos entre operários politizados e os que não exerciam militância.

 

O modernista Oswald de Andrade também contribuiu para a literatura proletária com ‘A escada vermelha’ (1934), ‘A revolução melancólica’ (1943) e ‘Chão’ (1945). Jorge Amado, com ‘Cacau’ (1933) e ‘Capitães de areia’ (1937), também toma parte da tendência. É dele inclusive a trilogia ‘Subterrâneos da Liberdade’, cujo segundo volume, ‘Agonia na noite’, narra os destinos de estivadores e militantes comunistas no porto de Santos durante uma greve em 1938 em que portuários se negavam a embarcar café em um navio de bandeira nazista que levaria o produto para a Espanha governada pelo ditador Franco.

 

As intenções de Ranulpho Prata ao escrever ‘Navios Iluminados’ podem ser traduzidas pelo pensamento que utilizou como epígrafe de seu primeiro romance, ‘O Triunfo’, de 1918: “Seja graciosa ou não, a verdade é a melhor coisa que podemos ouvir; é melhor que a lisonja, melhor que a comodidade, melhor que a felicidade, melhor que a bondade, melhor que a beleza”.

 

Para os que se interessaram, ‘Navios Iluminados’ pode ser encontrado em edição publicada em 1996 pela Prefeitura de Santos com a Editora Hucitec na esteira das comemorações dos 450 anos da cidade. Na orelha do livro, texto do então prefeito David Capistrano diz que a obra é um “convite sobre a reflexão sobre a nossa história”. Espero que este breve texto tenha contribuído para tal.

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